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Comentador da CNN Portugal

O Estado da União é a Guerra

10 set 2025, 12:22
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O discurso do Estado da União de 2025 ficará na memória como o discurso em que a Europa se assumiu em guerra

Este State of the Union 2025 não foi um discurso de normalidade institucional. É uma declaração de guerra — não apenas contra Moscovo, mas contra a própria complacência europeia. Ursula disse-o de forma inequívoca: “A Europa está em guerra.” A guerra da Ucrânia deixou de ser um conflito distante para se tornar no novo cimento da União. O projeto europeu, que durante décadas se quis económico e civilizacional, é agora militar. O que se nos apresenta como o “novo projeto europeu” é a defesa da Europa.

Drones, forças conjuntas, programas industriais, produção de armamento: é esta a nova gramática comunitária. 170 mil milhões de euros já gastos na Ucrânia, um programa de drones de seis mil milhões, um SAFE de 150 mil milhões para a defesa conjunta, e o uso dos ativos russos congelados para a reconstrução. É o anúncio explícito de que a União não está apenas a apoiar Kiev, mas a redefinir-se como potência de guerra. Ursula tentou enquadrar esta viragem como uma epopeia de liberdade: “a liberdade da Ucrânia é a liberdade da Europa”. Mas o eco não esconde a dúvida de fundo: terá a Europa o estômago político, económico e social para sustentar uma economia de guerra?

Fundos e fundos, apoios e apoios. Ursula von der Leyen ergueu-se em Estrasburgo com a eloquência de quem promete tudo, mas deixou no ar a pergunta essencial: quem paga a conta? Uma Europa sem crescimento económico, com fraturas sociais e políticas cada vez mais profundas, promete gastar biliões em programas de defesa, indústria, habitação, tecnologia e justiça social. Mas sem um plano real de financiamento, a retórica transforma-se numa espécie de cheque em branco passado a si própria. O paradoxo é gritante: um continente que não cresce promete financiar a sua reinvenção.

O discurso foi também marcado por uma rutura inesperada com Israel. Pela primeira vez, von der Leyen criticou diretamente o governo Netanyahu, prometeu sanções a ministros israelitas, suspendeu parcialmente o acordo comercial e defendeu a criação de um Estado palestiniano. O contraste é evidente: firmeza total contra Moscovo, hesitação até agora em relação a Telavive. O tom mudou, talvez tarde, mas mudou.

Na economia, Ursula tentou vestir a pele de visionária industrial. Falou de inteligência artificial, de baterias, de indústria automóvel, de “giga-fábricas”, de um novo selo “Made in Europe”. Quis lançar a ideia de uma guerra industrial com a China, prometendo recuperar anos de atraso. Mas o continente que se compromete a liderar a revolução tecnológica é o mesmo que continua amarrado à burocracia, à estagnação e à fragmentação dos seus próprios mercados financeiros. Mario Draghi já o disse: a integração do mercado único continua nos 12 %. Ou seja, há um abismo entre o sonho industrial e a realidade institucional.

As promessas sociais também não faltaram: combate à pobreza infantil até 2050, cimeira da habitação para travar as rendas, apoio a estudantes e jovens. Mas tudo isto parece secundário num discurso dominado pela retórica da guerra. É aqui que o discurso se desequilibra: Ursula tentou juntar tudo numa mesma narrativa, mas o que transpareceu foi uma União em estado de contradição. Uma União que fala de justiça social ao mesmo tempo que pede sacrifícios para financiar uma economia militarizada.

O grande risco político é claro: a Europa transformar-se numa potência que proclama muito mais do que consegue executar. Fundos, programas, planos — todos dependentes de um crescimento que não existe. A inflação social é tão perigosa como a económica: prometer mais do que se pode cumprir gera descrédito e alimenta o populismo que já alastra em tantos Estados-membros.

Von der Leyen tentou fazer deste discurso a refundação do seu mandato, uma espécie de manifesto para a sobrevivência. Mas ficou a meio caminho entre a visão e a improvisação. Reclamou uma Europa de destino, mas não disse qual. Falou de parcerias estratégicas, mas não disse com quem. Declarou ambição ambiental, mas não apresentou metas.

O discurso do Estado da União de 2025 ficará na memória como o discurso em que a Europa se assumiu em guerra. Mas também como o momento em que se revelou a fragilidade de um projeto que promete tudo e não explica como. A pergunta que paira, e que nenhum programa de drones ou cimeira de habitação resolve, é esta: a Europa terá realmente vontade política, músculo económico e coragem social para sustentar o novo projeto europeu?

Se o futuro da Europa é a defesa, então o futuro da defesa da Europa é também a sua política, a sua economia e a sua coesão social. Sem isso, a retórica de Estrasburgo não passa de uma encenação. Ursula quis escrever história. Mas talvez apenas tenha escrito o prefácio de uma dúvida.

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