"Não há um caos" nos exames mas há uma ovação para um ministro e confiança "plena" noutro. E a culpa é do "descontrolo migratório"

16 jul, 20:17
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A pressão na Saúde, na escola pública e na assistência social "são fruto da irresponsabilidade" socialista. Montenegro foi ao debate do Estado da Nação lembrar que “a população portuguesa cresceu muito, cresceu muito depressa e sem controlo" perante a inação dos "governos do Partido Socialista que não prepararam o país”. Agora sabe-se que a imigração foi "muito maior do que estava nas estatísticas" e isso criou a ilusão de que "a riqueza per capita cresceu tanto como diziam", explicou o primeiro-ministro

Durante 30 minutos, Luís Montenegro optou por tentar fintar as polémicas. As falhas do novo modelo digital de correção dos exames nacionais, o estado do SNS, as idas ao Mundial 2026 durante a primeira vaga de incêndios e as dúvidas em torno da vivenda do ministro da Administração Interna eram os temas quentes, mas, no discurso de abertura do debate do Estado da Nação, o primeiro-ministro não foi além de enaltecer as dificuldades de governar quando existem “alianças descaradas” na oposição e se parte do ponto de partida em que o PS deixou o país, que "agora exige aos outros, e para ontem, o que ele próprio não foi capaz de fazer em oito anos”.

Mesmo sem referir os temas quentes e desconfortáveis das últimas semanas, Montenegro apontou os responsáveis pela pressão na Saúde, na escola pública e na assistência social no país: o PS e os oito anos de governo de António Costa, em que se permitiu um "descontrolo migratório muito maior do que estava nas estatísticas".

Os problemas de hoje são "fruto da irresponsabilidade da governação que nos antecedeu", garantiu, aproveitando para questionar: "Os deputados do PS sabiam ou não sabiam?". “O senhor deputado José Luís Carneiro, sabia ou não sabia desta realidade?”, questionou, apontando para um homem que também esteve à frente da pasta da Administração Interna.

“A população portuguesa cresceu muito, cresceu muito depressa e sem controlo. E, pior do que isso, os governos do Partido Socialista não prepararam o país” para dar resposta a este aumento da população, disse Montenegro.

Para o primeiro-ministro, a inação socialista face à crescente vaga de imigração projetou dados estatísticos sobre as contas nacionais irreais e agora percebemos que "afinal a riqueza per capita não cresceu tanto como nos diziam". Dito isto, Montenegro referiu que José Luís Carneiro e André Ventura "rivalizam na irresponsabilidade", mas "seguem juntos a velha tática socrática, segundo a qual mais do que avaliar a substância, é preciso criar uma narrativa”.

"PS e Chega querem impor uma narrativa de forma repetida e estafada: o Governo e o primeiro-ministro são insensíveis, são desumanos, não têm empatia", disse, mas contradizendo: "PSD e CDS não apregoam, praticam. O Chega e o PS enchem a boca de proclamações, mas praticam a injustiça, a irresponsabilidade e a insensibilidade social".

Mantém a confiança em Luís Neves? "Com certeza, plenamente, plenamente"

Perante a intervenção inicial de Montenegro, Ventura identificou similaridades entre o modus operandi do líder do Governo da AD com o que fazia António Costa quando ia ao Parlamento: "Fala se de tudo menos do que está a acontecer", atirou, antes de criticar o facto de o primeiro-ministro ter "colocado o país em alerta [após a primeira vaga de incêndios do ano em Portugal] e de seguida ter viajado para os EUA para ver o Mundial".

As críticas não se findaram, com Ventura a criticar ainda o estado da Saúde, a “vergonha nacional” do processo de digitalização das avaliações dos exames nacionais e a questionar se Luís Montenegro mantinha a confiança em Luís Neves, depois da polémica em torno da vivenda de Odemira e das ameaças contra deputados do Chega denunciadas pelo partido.

Esta foi a resposta do primeiro-ministro: "Se eu mantenho a confiança política no ministro da Administração Interna? Com certeza, senhor deputado, plenamente, plenamente. No senhor ministro da Administração Interna e em todos os ministros e secretários de Estado". Montenegro acrescentou ainda que "o pressuposto para estar no Governo é precisamente a confiança que o primeiro-ministro deposita nos membros do seu Governo".

O líder do Governo da AD garantiu que "não é verdade que o senhor ministro da Administração Interna ameaçou quem quer que seja e intimidou quem quer que seja". E ripostou contra Ventura e o partido que este lidera: "Em matéria de ameaças e intimidações a adversários políticos, os senhores dão aulas a qualquer um. Nós não temos, nem queremos aprender com isto", sublinhou, reafirmando ainda mais uma vez que Luís Neves "não cometeu nenhuma ilegalidade", "não prejudicou o interesse público nem privilegiou o interesse público face a qualquer interesse particular".

Antes de acabar a intervenção, Ventura aproveitou para desafiar Luís Montenegro a apresentar uma moção de confiança ao Parlamento: "Deve mesmo perguntar ao Parlamento se ainda mantém a confiança no seu Governo". O desafio não mereceu qualquer comentário do primeiro-ministro.

"Nem tudo correu bem", mas "não há um caos" nos exames nacionais

Praticamente todos os partidos criticaram a forma como está a decorrer a correção dos exames nacionais de acesso ao ensino superior e até o próprio Montenegro reconheceu que "nem tudo correu bem". Contudo, "haver problemas" é muito diferente de haver "um caos" instalado. Pelo menos para o primeiro-ministro, que adiantou que estão corrigidas 99,5% das provas até ao momento, ainda que até o ministro da Educação tenha admitido que é possível que algumas notas não sejam afixadas no prazo previsto, que é esta sexta-feira.

“Não há nenhum caos nos exames em Portugal, lamento dizer. Não há um caos, há problemas, que nós gostaríamos que não existissem, é verdade”, afirmou Luís Montenegro, em resposta à co-porta-voz do Livre Isabel Mendes Lopes, que instou o chefe do Executivo a pedir desculpa a estudantes e comunidade escolar.

José Luís Carneiro também abraçou o tema para criticar o trabalho do ministro Fernando Alexandre e do Governo: “O primeiro-ministro falhou naquilo que é mais grave, no momento essencial à vida dos jovens deste país. A pergunta que lhe faço é muito clara: está em condições de garantir a esta Assembleia da República que amanhã [sexta-feira] todas as classificações serão publicitadas?”

Luís Montenegro reconheceu que "nem tudo correu bem", mas lembrou que todos os elementos do Governo sabiam a priori que "esta transformação digital vai trazer melhorias para a vida dos estudantes, das famílias portuguesas e também para o sistema educativo e para os seus profissionais”.

Apesar das palavras do líder do Executivo, Eurico Brilhante Dias, líder parlamentar do PS, dirigiu-se ao ministro da Educação para constatar que existe uma "barafunda instalada": “Eu sei que o senhor respeita a meritocracia, por isso, sabe que esse lugar já não devia ser ocupado por si, mas por outra pessoa”. E, respondendo a Luís Montenegro, recordou as palavras outrora proferidas por Aníbal Cavaco Silva: "Um governo que, passados seis meses, passa as culpas ao governo anterior é um governo incompetente"

Para o Chega, o "Governo está em degradação acelerada, em decomposição acelerada" e não houve qualquer resposta ao desafio lançado da moção de confiança. Antes de ficar sem mais tempo para responder às 17 perguntas vindas das bancadas parlamentares, Luís Montenegro lembrou que as medidas aprovadas por PS e Chega já tiveram um impacto financeiro de mais de 1.200 milhões de euros e acusou estes partidos de "condicionamento da ação governativa".

Já no fim do debate do Estado da Nação, o deputado do CDS-PP João Almeida elogiou e reafirmou a confiança no ministro da Educação: "Alguém que é sério e competente, que não foge à responsabilidade, que lidera o caminho para a solução", disse. "Os ministros deste Governo não se escondem e não fogem". Enquanto João Almeida discursava os deputados do PSD e do CDS-PP levantaram-se numa ovação a Fernando Alexandre.

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