Pela primeira vez, esquilos estão a comer outros mamíferos

CNN , Julianna Bragg
9 fev 2025, 12:00
Os esquilos da Califórnia normalmente comem sementes e plantas, mas um estudo tem evidências de que alguns podem agora comer carne. Um esquilo procura comida em 11 de maio de 2021, em Cambria, Califórnia. George Rose/Getty Images/File
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Tradicionalmente conhecidos por encherem as bochechas de frutos secos, os esquilos podem ser carnívoros - embora sejam raros os casos registados de roedores a caçar e a matar outros vertebrados vivos, sendo poucas as espécies conhecidas por o terem feito. Agora, os cientistas descobriram provas sem precedentes de que outro tipo de esquilo apresenta comportamentos carnívoros, incluindo caçar, matar e comer ratazanas, de acordo com um novo estudo.

A investigação, publicada no Journal of Ethology, faz parte do projeto Long-Term Behavioral Ecology of California Ground Squirrels, no Parque Regional de Briones, no Condado de Contra Costa, na Califórnia, Estados Unidos. O projeto examina a forma como os esquilos terrestres da Califórnia - nativos do Estado - adaptam o seu comportamento em resposta a alterações ambientais, neste caso um aumento da população local de ratazanas.

Em partes do norte da Califórnia, foram observadas infestações de ratazanas. No local da investigação, os autores do estudo observaram um número significativamente mais elevado de ratazanas do que a média na última década. Os esquilos terrestres da Califórnia são normalmente considerados herbívoros ou granívoros, comendo sobretudo plantas e sementes. As novas descobertas oferecem a primeira documentação da espécie que se alimenta ativamente de outros vertebrados vivos - sublinhando a sua capacidade de responder a alterações no ecossistema.

“Esta investigação altera radicalmente a nossa perceção dos esquilos, um dos mamíferos mais familiares do mundo”, afirma a autora principal do estudo, Jennifer Smith, professora associada de biologia na Universidade de Wisconsin-Eau Claire. “Face aos insultos humanos, como as alterações climáticas e a seca, estes animais são resilientes e têm o potencial de se adaptarem para viver num mundo em mudança.”

Os esquilos são uma parte importante dos ecossistemas da Califórnia, e compreender se a descoberta de alimentos é uma característica socialmente transmitida nestas populações pode fornecer informações importantes sobre como outras espécies se ajustam a ambientes em mudança, diz Smith.

Um esquilo da Califórnia no Parque Regional de Briones, no Condado de Contra Costa, alimenta-se de uma ratazana como resposta comportamental adaptativa a um aumento da população local de ratazanas, segundo um novo estudo. Sonja Wild/UC Davis

Uma mudança inesperada no comportamento dos esquilos

Smith e os seus colegas observaram o comportamento alimentar dos esquilos durante um período de estudo de 10 de junho a 30 de julho. Durante esse período, os cientistas utilizaram armadilhas vivas para capturar, marcar e libertar esquilos terrestres da Califórnia numa base quinzenal.

A equipa de estudo recolheu dados pormenorizados sobre cada esquilo, incluindo o sexo, o estado reprodutivo e a massa corporal, identificando cada animal com duas etiquetas e uma marca de pelo única utilizando corante para garantir que todos os esquilos estudados pudessem ser seguidos ao longo do período de observação.

Os esquilos são particularmente úteis para estudar a resistência dos animais às alterações ambientais porque são ativos durante o dia e fáceis de apanhar, marcar e observar, observa Smith.

Os investigadores dividiram os esquilos em três grupos e observaram o comportamento dos animais em dias sem armadilhas. A equipa registou 74 interações entre os esquilos e as ratazanas, e 42% dos encontros envolveram esquilos - incluindo machos e fêmeas juvenis e adultos - a caçar e consumir ativamente as ratazanas.

Um esquilo da Califórnia no Parque Regional de Briones carrega uma ratazana. Sonja Wild/UC Davis

“Já sabíamos que (os esquilos terrestres da Califórnia) podiam viver numa variedade de elevações e alimentar-se (de) uma variedade de plantas, mas o que é mais impressionante e incrível é a velocidade com que eles mudaram o seu comportamento para este aumento local na abundância de ratazanas”, analisa Smith.

O estudo revelou também outras dinâmicas sociais anteriormente não documentadas entre esquilos e ratazanas. Algumas interações entre os animais foram positivas, incluindo a procura de alimentos, a saudação e a brincadeira. Outros comportamentos eram competitivos, caracterizados por perseguições, empurrões físicos, ataques e mordidelas.

“As ratazanas (passaram a) reconhecer os esquilos como predadores”, afirma John Koprowski, diretor da Escola Haub de Ambiente e Recursos Naturais da Universidade do Wyoming, que não participou no estudo. “É provável que haja uma interação muito boa entre as duas espécies, porque ser comido não é normalmente uma boa forma de continuar a transmitir os genes.”

Evolução dos padrões alimentares

Os resultados do estudo sugerem que os esquilos podem ser melhor classificados como omnívoros oportunistas, com base na sua vontade de caçar e consumir presas vivas, particularmente quando existe uma oferta abundante. A proteína é um recurso limitado, mas necessário para que os esquilos prosperem, e caçar ratazanas provavelmente fornece-lhes um impulso nutricional mais rápido e mais acessível do que as sementes, explica Koprowski.

“É uma maneira maravilhosa de capitalizar um recurso muito abundante... para fornecer sustento suficiente para muitos (esquilos) usarem”, diz.

Embora os humanos tipicamente categorizem os animais pelos seus hábitos alimentares, não é invulgar que mesmo o carnívoro mais rigoroso coma fruta de vez em quando, acrescenta Koprowski.

Este fenómeno em que um animal capitaliza um recurso necessário quando este lhe é disponibilizado é conhecido como plasticidade alimentar, segundo Koprowski. Se um animal não se adaptar para utilizar o recurso, é provável que outra espécie o aproveite.

Embora esta descoberta possa inicialmente parecer preocupante para alguns, Koprowski considera que tal mudança na dieta é bastante normal para os animais. As ratazanas sofrem frequentemente picos de crescimento populacional e são consideradas pragas, pelo que a existência de novos predadores, como os esquilos terrestres da Califórnia, ajudará a manter o número de ratazanas sob controlo.

As novas descobertas podem também ajudar a preparar o terreno para futuras investigações sobre a adaptabilidade de diferentes espécies de esquilos e outros mamíferos face às alterações ambientais, de acordo com Smith.

“Os animais podem adaptar-se ou extinguir-se num mundo afetado pelo homem”, aponta Smith. “Estes animais estão a mostrar-nos a incrível resiliência de algumas espécies e, ao estudarmos estes processos, podemos oferecer perspectivas significativas para a conservação.”

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