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É por isto que este será sempre o desporto mais glamoroso

CNN , David G. Allan
22 mar, 17:00
Um bar de gelo no topo do pico KT-22 num resort no Lago Tahoe, Califórnia, em1961 (Slim Aarons/Getty Images)

O esqui é, há mais de um século, mais do que um meio de transporte ou um desporto. É um estilo de vida.

O escritor Ernest Hemingway traçou, no início da década de 1920, um retrato romântico e colorido das suas experiências de inverno nos Alpes austríacos. No final da sua biografia, intitulada "Paris é uma Festa", faz uma crónica da vida despreocupada nas montanhas, transmitindo a vontade de emoções fortes nas pistas e de momentos relaxantes depois da prática de esqui. Durante o dia, Hemingway e a mulher, Hadley, faziam caminhadas pelas montanhas, uma vez que ainda não havia teleféricos, levando-os a percorrer trilhos florestais com equipamento às costas. À noite, havia encontros em cabanas ou bares locais, aproveitando uma cerveja, vinho quente, aliadas a canções e outras atividades acolhedoras.

Certo é que, desde os primórdios do esqui enquanto passatempo, todo o entusiasta sabe que o seu encanto reside tanto na alegria da descida como na diversão do chamado “après-ski”. São duas faces da mesma moeda: uma cultura do esqui que abraça a aventura despreocupada, o prazer, a camaradagem e o estilo individual.

Esta história da cultura do esqui é captada em imagens no livro de fotografias de Erin Isakov, “Après Ski: The Scene, the Style, the Menu”. Página a página, mostra-se um arquivo repleto de esquiadores e frequentadores de festas na montanha, todos com estilos inconfundíveis, incluindo Charlie Chaplin, Clark Gable, Audrey Hepburn, Jane Birkin, David Bowie e Hunter S. Thompson. Hemingway também é mencionado — embora de uma forma muito breve, com a informação de que o autor se mudou para Ketchum, Idaho, onde veio a falecer, para ficar perto da primeira estância de esqui dos EUA, Sun Valley.

O cantor e ator Serge Gainsbourg com a cantora, modelo e estilista Jane Birkin em Avoriaz, França, em 1976 (Michel Ginfray/Gamma-Rapho/Getty Images)

 

Robert Redford no filme "Downhill Racer" de 1969 (Moviestore/Shutterstock)

 

Cher em Aspen, Colorado, em 1977 (Ron Galella/Getty Images)
O escritor Hunter S. Thompson na sua casa de campo em Woody Creek, Aspen, Colorado, em 1990 (Paul Harris/Getty Images)

 

O livro não se foca tanto nos melhores locais para esquiar, antes nos locais onde é melhor ser-se visto a esquiar. Há referências a resorts históricos e conceituados, como Verbier, na Suíça, e Jackson Hole, no Wyoming, Estados Unidos. Além disso, há dicas para organizar a sua própria festa “après-ski” – que é como quem diz, a diversão depois do desporto - com opções sofisticadas como chocolate quente, Aperol Spritz, fondue e nachos. Também é retratado o ambiente descontraído: esquiadores a apanhar sol ou a beber à beira da pista, a relaxar em cabanas com roupas desportivas ou com outras peças confortáveis, sempre com estilo.

Tal como aconteceu com a história do surf, a verdade é que o esqui acabou por evoluir ao longo de gerações, com o desenvolvimento de equipamentos, de uma moda própria e locais imperdíveis - alguns exclusivos para especialistas. Quanto à origem do espírito do esqui, pelo menos para os ricos e famosos, Isakov defende que está em St. Moritz, na Suíça, na década de 1860. A partir daí, a sua popularidade espalhou-se rapidamente pela Europa, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial.

 

CaptionAnúncio da Burberry para roupa de esqui em 1922 (Chronicle/Alamy Stock Photo)

Os Estados Unidos, por exemplo, aderiram à tendência na década de 1930, quando os soldados americanos estacionados na Europa regressaram da Segunda Guerra Mundial. Vinham com competências em esqui alpino, ajudando por isso a inaugurar uma geração de novas estâncias, incluindo Vail e Aspen, no Colorado, conhecidas até hoje por este atrativo.

A evolução nos equipamentos e na roupa de esqui

A maior parte do livro é dedicada à moda associada ao esqui, que é uma paixão pessoal – mas também familiar - da autora. Isakov foi, praticamente, batizada na neve, dado que os pais se conheceram numa estância de esqui na Califórnia, onde trabalhavam. É também cofundadora da marca de roupa para esqui Erin Snow.

Ficamos a saber que, no início do século XX, o vestuário de esqui feminino costumava incluir compridas saias de lã até aos tornozelos. Todavia, esta tendência rapidamente deu lugar às práticas calças na década de 1920. Após a Segunda Guerra Mundial, surgiram tecidos sintéticos elásticos, com um corte mais justo, levando estilistas como Emilio Pucci, editoras de revistas e celebridades a aderir à tendência. Ao longo de décadas, o visual clássico de esqui foi complementado por camisolas norueguesas, óculos de sol que evitam o brilho excessivo e, claro, botas de pele.

 

Alpes, 1967 (Ernst Haas/Getty Images)

A moda para o esqui nos anos 1980 destaca-se pelas calças de licra em tons néon, pelos casacos acolchoados, pelos óculos de sol espelhados. Esta década merece, e bem, uma secção própria no livro. Até porque estes anos assistiram ao nascimento do snowboard, que viria a tornar-se muito popular nos anos 1990, acrescentando camisas xadrez grunge, envolventes óculos de proteção e calças largas ao estilo de montanha — é, todavia, uma era pouco abordada em "Après Ski".

Isakov acredita que estamos agora a viver uma era de renascimento do design clássico, elegante e sensual, embora com materiais mais tecnológicos e sustentáveis. E mesmo que isto acabe por definir a marca de Isakov, a verdade é que a realidade dos resorts é mais complexa.

Tal como acontece com a restante moda dos nossos dias, aquilo que se vê nas pistas e nas cabanas é uma miscelânea onde tudo é permitido, do retro ao contemporâneo, do chamativo ao simples. Há, contudo, quem esteja mais preocupado em avaliá-lo pela sua habilidade em esquiar na montanha do que pela roupa que enverga: daí que haja quem concorde que é melhor esquiar bem com um casaco desbotado e com calças de ganga do que fazê-lo com a última moda, mas acabando a dar trambolhões na pista para principiantes.

 

Conjunto de camisolas de esqui ao estilo norueguês, 1964 (Popperfoto/Getty Images)

 

Esquiadores a apanhar sol após uma refeição em Sun Valley, Idaho, em 1946 (George Silk/The LIFE Picture Collection/Shutterstock)
Val d'Isère, França, em 1986 (Bruce Benedict)

 

A antiga esquiadora olímpica Suzy Chaffee a personificar o estilo de esqui dos anos 1980 no Heavenly Ski Resort, na Califórnia, em 1988 (Hank de Vré)

 

No que respeita ao “après-ski”, que serve de título à obra, também acolhe todos. Não é  só uma festa, é uma comunidade. Pode acontecer num bar, numa banheira de hidromassagem ou numa cabana. Dependendo do local, o “après-ski” “pode ser agitado ou tranquilo, familiar ou o extremo oposto”, escreve Isakov.

No fim de contas, o derradeiro objetivo do “après-ski” é a diversão. Pode vestir-se como quiser. O que importa é que disfrute a comida, a lareira, a bebida, a companhia, o relaxamento — até quem não esquia pode apreciar esta festa itinerante e sensorial, bem como o ambiente.

Imagens: Excerto extraído de “Après Ski: The Scene, the Style, the Menu” © 2025 Erin Isakov. Utilizado com permissão da Artisan. Todos os direitos reservados.

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