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A esquerda desalinhada

3 jun 2025, 17:34

As eleições legislativas de 2025 em Portugal constituíram um dos momentos mais desafiantes para a esquerda desde a consolidação da democracia. A Aliança Democrática (coligação entre PSD e CDS-PP) venceu com 31,21% dos votos, sem alcançar a maioria absoluta. No espaço político à esquerda, o PS obteve apenas 22,83%, um dos seus piores resultados de sempre, ficando atrás do Chega. Este último consolidou-se como a segunda força política, impulsionado pelo agravamento das desigualdades e pela perceção generalizada de injustiça social. O Bloco de Esquerda e o PCP prosseguiram a trajetória de perda de representação parlamentar, ao passo que o Livre foi a única força à esquerda a registar crescimento.

Para além dos números, os resultados suscitam o debate sobre quem é hoje o eleitorado da esquerda e quais as bandeiras ideológicas em disputa. Um ponto recorrente é a erosão do apoio da classe trabalhadora aos partidos tradicionais, nomeadamente os sociais-democratas, como o PS. Esta descida segue uma tendência europeia: na UE, a votação média destes partidos caiu de cerca de 40% para menos de 20%.

Num artigo publicado pelo Guardian em janeiro de 2024, as investigadoras Macarena Ares e Silja Häusermann argumentam que, embora em declínio, os partidos tradicionais de esquerda foram compensando a perda do eleitorado operário ao conquistar novos segmentos: jovens urbanos, pessoas com formação superior, minorias e classes médias liberais. O eleitorado de esquerda tornou-se, assim, mais diverso. Estes novos círculos eleitorais indicam que o apoio a agendas igualitárias e inclusivas não desapareceu, apenas se redistribuiu. A ideia de que a esquerda “abandonou a classe trabalhadora” exige, por isso, maior nuance: é certo que muitos operários migraram para a extrema-direita, mas também é verdade que a esquerda ganhou bases em setores da sociedade anteriormente menos politizados ou mais centristas.

Este realinhamento traz novos desafios. Um dos mais discutidos é o equilíbrio entre a agenda económica com preocupações sociais como os direitos civis, o ambiente e a diversidade. A perceção de que a esquerda privilegia temas identitários em detrimento de preocupações materiais tem sido usada criticamente por setores conservadores e alimentado tensões dentro da própria esquerda. Uma questão central torna-se, assim, como comunicar uma mensagem abrangente sem alienar diferentes partes do seu eleitorado.

A política migratória tem sido um exemplo claro deste dilema. Tradicionalmente associada a valores de solidariedade, parte da esquerda europeia tem adotado um discurso mais restritivo nos últimos anos, influenciada por dinâmicas eleitorais e pela pressão da opinião pública. O The Economist notava que o discurso anti-imigração estava em ascensão não só pela força da extrema-direita, mas também porque partidos de esquerda começaram a “bater na mesma tecla”. O exemplo mais citado é o de Sahra Wagenknecht, dissidente do Die Linke na Alemanha, cujo novo movimento populista de esquerda combina propostas económicas anti-neoliberais com posições hostis à imigração.

Este fenómeno tem precedentes: parte da esquerda marxista sempre viu a imigração desregulada como ameaça às condições laborais. O próprio Marx alertava para o uso de mão de obra estrangeira como instrumento de pressão sobre salários, e comunistas franceses opuseram-se durante décadas à entrada de imigrantes. A novidade está na adesão de partidos sociais-democratas moderados a políticas de controlo migratório. Em 2023-2024, governos de centro-esquerda na Dinamarca, Suécia e até Espanha endureceram leis de asilo e fronteiras. No Parlamento Europeu, vários eurodeputados socialistas apoiaram o novo Pacto de Migração e Asilo da UE, que prevê medidas mais rígidas contra a imigração irregular, incluindo barreiras simbólicas antes criticadas.

No entanto, nem todos os governos de centro-esquerda seguiram essa linha: na Alemanha, o governo liderado por Olaf Scholz manteve uma abordagem mais aberta, ainda que sob crescente pressão interna para endurecer a política migratória. A esquerda encontra-se, assim, num dilema: manter os princípios de abertura e direitos humanos, arriscando alienar parte do eleitorado, ou ajustar o discurso, correndo o risco de diluir os seus valores. A chave está em encontrar uma abordagem responsável: acolher migrantes pode ser benéfico e é um imperativo moral, mas exige políticas robustas.

Outro eixo de tensão é a resposta às posições da nova direita radical em temas como igualdade de género, direitos LGBTQ+ e transição climática. A esquerda tem sido chamada a defender conquistas sociais e ambientais, mas enfrenta dificuldades em comunicar com alguns setores populares, que percebem determinados discursos como distantes ou excessivamente tecnocráticos. A questão da acessibilidade da linguagem e da empatia política está, por isso, cada vez mais presente nas discussões estratégicas.

Num cenário de fragmentação política e crescimento da extrema-direita, a questão da cooperação entre partidos de esquerda volta a ganhar centralidade. Deve a esquerda unir-se? O passado oferece exemplos inspiradores, como as frentes populares antifascistas do século XX. Mais recentemente, em Espanha, o PP não conseguiu formar governo em 2023, apesar de vencer aliado à extrema-direita, graças à aliança entre PSOE, Sumar e partidos regionais. Foi uma coligação difícil, mas eficaz. Contudo, estas alianças são frágeis. A criação do Sumar, por Yolanda Díaz, gerou tensões com o Podemos, que integrou a coligação a contragosto e saiu à primeira oportunidade. Esta divisão enfraqueceu o campo da esquerda. Uma reconciliação futura é incerta, mas crucial.

Voltando a Portugal, os resultados das legislativas de 2025 confirmaram a crise estrutural do PS. Desde o fim da geringonça, o partido revelou incapacidade para renovar lideranças e reformular o discurso. Optou por uma gestão descolada das preocupações materiais de parte significativa do seu eleitorado tradicional. Isso abriu espaço à transferência direta de votos para o Chega, especialmente em contextos marcados por precariedade, insegurança e desconfiança no sistema político.

O crescimento do Chega não foi apenas reativo; foi também um sintoma da ausência de alternativa mobilizadora à esquerda. O PS falhou em apresentar uma narrativa clara, deixando um vazio que a extrema-direita ocupou com eficácia.

Neste cenário, o Livre destacou-se como exceção. Cresceu por combinar coerência programática, linguagem acessível e posicionamento claro em temas como habitação, ambiente e justiça social. Beneficiou ainda da erosão do BE e PCP, absorvendo voto útil urbano e jovem. O seu desempenho confirma que há espaço para uma esquerda renovada, desde que esta se mostre politicamente clara, socialmente enraizada e comunicacionalmente eficaz.

O futuro da esquerda em Portugal dependerá da sua capacidade de responder à fragmentação, de adaptar a sua proposta política a um eleitorado mais diverso e de encontrar formas eficazes de comunicação e mobilização. Isso exigirá reequilibrar as suas agendas, reforçar a articulação entre justiça económica e justiça social e ambiental, e procurar formas de cooperação política que sejam sustentáveis no tempo. A manutenção da relevância da esquerda dependerá, em grande medida, da forma como enfrentar estes desafios.

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