Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM
opinião
Investigador universitário doutorado. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, polarização e impactos nos direitos fundamentais

A esquerda unida jamais será... virtuosa?

19 nov 2025, 12:50

A esquerda portuguesa (e não só) joga, nas próximas eleições, uma partida decisiva no seu campeonato da sobrevivência política. Sucede que, tal como Frodo, em “O Senhor dos Anéis”, à medida que mingua sob os desafios da missão, a força contrária vai crescendo e alimentando-se da sua fraqueza.

Encontra-se, igualmente, numa espécie de encruzilhada estratégica: é demasiado pequena para competir isoladamente, mas demasiado heterogénea para se dissolver numa só sigla. Pior: a sua situação é tão vulnerável que precisa de dar prova de vida.

Porém, a esquerda não é como a missão de Frodo, que se sustenta na força da Irmandade. Pelo contrário, a esquerda compete entre si pelo que resta do eleitorado de esquerda, entre o sindical, o ecologista radical, o identitário pós-moderno e o progressista europeu. Cada um desses eleitorados é o “precioso” dos partidos da margem esquerda do rio político. 

No entanto, para “mal dos seus pecados”, as próximas eleições são presidenciais, um cargo, por razões de arquitetura constitucional, unipessoal e potencialmente suprapartidário. Ou seja, não é a força de um partido per se que está em causa. Ainda assim, dado que a eleição presidencial decorre apenas num único círculo eleitoral, a verdade é que, de algum modo, é possível mapear a força geral de um partido através da figura que escolhem para o representar. É por isso que, por exemplo, à direita, o Chega não poderia ter outro candidato que não André Ventura, já que o partido é ele e sem ele vale muito menos. Por outras palavras, André Ventura é, ele próprio, uma marca exclusiva.

Ora, nessa tentativa de testar a demarcação do seu campo eleitoral, a esquerda que se percebe minguante precisa – paradoxalmente – de se desdobrar em múltiplas candidaturas. É por isso que Catarina Martins aparece apoiada pelo Bloco de Esquerda, Jorge Pinto como candidato apoiado pelo LIVRE e António Filipe pela CDU. Cada um destes partidos precisa de saber quanto vale a sua marca e quantos consumidores ainda tem.

E isso é um problema de quota de mercado. À medida que o mercado para a esquerda foi-se tornando mais pequeno – graças a ter perdido a luta de classes para a direita nativista que embrulhou o custo de vida com valores nacionalistas, seguindo um guião com um século – esses partidos precisam garantir o seu nicho, sob pena de desaparecerem numa grande frente de esquerda.

No entanto, não o fazerem pode ser a sua eutanásia. Mas isto é mais fácil de enunciar do que de resolver: como cooperar para não desaparecer do mapa político sem se tornar tão indistinto que deixa de haver mapa ideológico para oferecer aos próprios eleitores? E como farão essa costura sem parecer que o resultado final é um Frankenstein? Pior: como conseguirão encetar o diálogo quando as suas fronteiras são tão demarcadas, em que cada um ainda se reclama legítimo representante da esquerda ou de uma verdadeira virtude de esquerda?

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Colunistas

Mais Colunistas

Mais Lidas