Esquerda em França volta a unir-se contra um inimigo comum... ou dois

11 jun, 13:00
Eleições europeias em França

Pré-acordo já foi anunciado com o objetivo de “construir uma alternativa a Emmanuel Macron e combater o projecto racista da extrema-direita”. Primeiro-ministro francês acusou partidos de esquerda de volte-face

Oitenta e oito anos depois, as fações de esquerda voltam a unir-se para competir pelo poder em França. Na ressaca do avassalador resultado de Marine Le Pen nas Europeias - que levou o presidente Emmanuel Macron a avançar para eleições legislativas antecipadas - os líderes dos principais partidos políticos de esquerda anunciaram a constituição de uma nova frente popular. 

Reunidos esta segunda-feira à noite na sede do Europe Ecologie-Les Verts (EELV), em Paris, Marine Tondelier (Ecologistas), Olivier Faure (Partido Socialista, PS), Fabien Roussel (Partido Comunista Francês, PCF) e Manuel Bompard (La France Insoumise, LFI) declararam uma “aliança que visa unir forças humanistas, sindicais e associativas”.

Mais tarde, em comunicado conjunto, os líderes partidários destacaram a intenção de apresentar um candidato único às legislativas e pediram um apoio em massa às manifestações que estão a ser planeadas para este fim de semana por vários sindicatos, como a CFDT, CGT, UNSA, FSU e Solidaires. Um apelo que surge na sequência do terramoto político produzido pelo Rassemblement National nas Europeias. O partido, liderado por Marine Le Pen e Jordan Bardella, conseguiu 31,5% dos votos, obtendo uma margem de 15 pontos percentuais sobre o grupo centrista de Macron e de 16 pontos sobre os socialistas, que ficaram em terceiro lugar.

No documento, com o título, “alguns dias para fazer uma frente popular”, os líderes da esquerda francesa referem o objetivo de “construir uma alternativa a Emmanuel Macron e combater o projecto racista da extrema-direita”. Atualmente, trata-se de um acordo preliminar que abrange também outros partidos com maior expressão, como o Place Publique de Raphaël Glucksmann, que liderou a lista socialista nas eleições europeias e ficou em terceiro lugar com 13,8% dos votos. 

Um dos principais entraves neste momento prende-se com a escolha de um candidato único para competir com Macron e Le Pen. Glucksmann descartou tanto a possibilidade de se tornar primeiro-ministro em caso de vitória da esquerda, como também apoiar a candidatura de Jean-Luc Melenchon, líder da França Insubmissa. "Não houve e não haverá acordo com o LFI. O Place Publique assinou um texto em que se afirma que todos os partidos de esquerda farão tudo o que estiver ao seu alcance para lutar contra a extrema-direita. Mas não é à custa dos nossos princípios fundamentais. Nós estabelecemos condições, se eles não concordarem, nós não faremos parte disto", escreveu Glucksmann num artigo de opinião onde pediu que outra figura encabeçasse a candidatura: Laurent Berger, ex-secretário-geral da CFDT e principal rosto dos protestos contra a reforma nas pensões.

Também Olivier Faure, líder do PS, sublinhou que Jean-Luc Melenchon - que também fez um apelo à união das esquerdas - não tinha legitimidade para chegar a primeiro-ministro na eventualidade de uma vitória desta coligação que ainda não nasceu oficialmente. Também o comunista Fabien Roussel garantiu que a frente popular iria avançar sem Melenchon.

Por seu lado, Jean-Luc Melenchon, apesar das tensões, saudou a formação da frente popular como um "bom trabalho" que apanhou de surpresa tanto o Presidente Macron como o atual residente em Matignon, Gabriel Attal, que poucas horas depois do anúncio acusou a esquerda de volte-face. “Os socialistas disseram durante as eleições europeias que o período pós-eleitoral seria sem Melenchon e não esperaram vinte e quatro horas para chegar a um acordo com o LFI, o que é revoltante”, criticou Gabriel Attal. Para o primeiro-ministro, “a partir de agora, aqueles que se aliam ao LFI já não podem dizer que não sabiam”, assegurando aos deputados presentes que, durante a próxima campanha, “temos de explicar ao povo francês que esta eleição é uma escolha clara”.

O nome Frente Popular lembra a década de 30 quando os partidos socialistas, radicais e comunistas conseguiram eleger 376 lugares no parlamento, ficando à frente da Frente Nacional, de direita. Na altura, o governo foi encabeçado por Léon Blum que fez aprovar um conjunto de leis, como o direito à sindicalização e o direito ao trabalho às mulheres.

Mas os partidos que encabeçam a reedição desta frente dizem que a mesma terá como base o acordo que permitiu a criação da Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES), uma coligação entre as esquerdas que foi o segundo partido mais votado nas legislativas de 2022. 

A aliança, que na altura foi encabeçada por Jean-Luc Melenchon, viria a cair por terra pouco depois das eleições graças a divergências entre as ala sociais-democratas e as radicais, levando a que o Rassemblement National de Marine Le Pen se tornasse a principal força de oposição na Assembleia Nacional francesa. 

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