Videojogo não rima com sedentarismo. Prova de tal é a AXXE, academia fundada por João Carvalho e Bruno Gonçalves em setembro. Próximos da elite e pioneiros a nível internacional, revelam ao Maisfutebol os segredos teóricos, práticos e de saúde para vencer no relvado digital – PARTE I
As fachadas humildes e a pacatez junto à Igreja do Cristo Rei, em Argoncilhe (Santa Maria da Feira) – ao largo da Estrada Nacional 1 – não permitem adivinhar a proximidade de uma academia de metodologias pioneiras no Esports internacional – ou seja, nos videojogos – focada no ensino do EA Sports FC (EAFC), antes conhecido por FIFA.
A porta de uma antiga gráfica – disfarçada de mera moradia – abre-se ao Maisfutebol. No piso subterrâneo, a AXXE Academy montou dois escritórios, um espaço de reuniões e outro de convívio. Junto ao plasma há um extenso tapete com sofás e pufes, o contexto ideal para aprimorar metodologias, técnicas e estratégias.
Ao leme desta academia estão João Carvalho e Bruno “Insert” Gonçalves – outrora adversários no futebol distrital do Porto – determinados a contribuir para profissionalização do Esports nacional. E contam com o reconhecimento de Diogo Jota, avançado do Liverpool e fundador da equipa Luna Galaxy.
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Nascidos no princípio da década de ‘90, cresceram a pulso, sem que as dificuldades os impedissem de saborear a moda da Megadrive e da PlayStation 1, à boleia de Sonic, Pro Evolution Soccer e de Astérix e Obélix.
Então, já se conheciam há muitos anos e lançaram o projeto em setembro?
«Longe disso», sorri João Carvalho, antes da conversa com o Maisfutebol.
O princípio da amizade entre os antigos capitães de Grijó e Arcozelo remonta a novembro de 2021, em Lisboa, quando Bruno Gonçalves – “personal trainer” de profissão – orientava o Esports FIFA do Estoril/Projeto22. Por sua vez, João Carvalho já trabalhava neste meio há mais de 11 anos, especializado no ramo empresarial e no agenciamento de jogadores.
O passo inaugural para a AXXE foi dado após «muitas horas» de debate em torno do nome da academia.
«O termo “AXXE” vem de machado e da época dos Vikings. Se cruzarmos os machados, fazemos um “X”. E o EAFC é jogado no estilo de “1X1”, sendo “X” o símbolo de “versus”», explana João Carvalho.
Como em qualquer empreitada há obstáculos necessários. Contornar é proibitivo. Neste caso, João e Bruno foram obrigados a redobrar a paciência e a sensibilidade.
«Devemos desconstruir a desconfiança sobre videojogos e sobre a nossa intenção, porque há projetos enganosos. Acautelando isso, o nosso modelo de subscrição nem obriga à fidelização, por exemplo. Queremos evitar esse mal dizer e formar o futuro.»
«No Esports persiste o desconhecimento de direitos de imagem, durante demasiados anos vi contratos ilegais. Por isso, uni forças com o Bruno para ajudar os jogadores que estão a dar os primeiros passos, para que cheguem a profissionais pela via da formação», prossegue João Carvalho.
Desafiado a delinear as linhas mestres da AXXE, salienta o controlo parental, a prioridade de formar jovens saudáveis e a desconstrução de argumentos mediatizados.
«Há dificuldade em reaprender e reinterpretar o jogo. Os profissionais e criadores de conteúdo criam vícios sem se aperceberem. Até nas decisões de passe ou de remate, por exemplo. Falham e culpam o jogo. No entanto, é possível desconstruir este tipo de argumentos e continuar a vencer», reforça.
Neste passe a rasgar, Bruno Gonçalves – “Insert” no Esports – retém a posse e assume a batuta.
«Passo até 11 horas em frente ao ecrã, não jogo para ganhar»
Entregue à missão de «agregar valor ao outro», Bruno Gonçalves viu os sacrifícios recompensados em 2020, quando inaugurou o próprio espaço de “fitness”. Todavia, a pandemia devolveu-o a casa. Obrigado a ocupar os dias, mergulhou nas “entranhas” do FIFA – a princípio pelo computador, no modo de “11X11”.
Desde então, conquistou títulos ao leme do Esports do Estoril/Projeto22 e foi catapultado para a «nata», no “1X1” da PlayStation.
Para conhecer o percurso de “Insert”, até alcançar o FC Porto e os Luna Galaxy de Diogo Jota, leia a segunda parte desta conversa. Antes de assinar no Dragão, recusou o Benfica e esteve próximo do Sporting.
«Já no Estoril assumi uma postura de justiça, com a noção de que não poderíamos promover o clube por carolice. Por isso, blindei os jogadores e alcançámos acordos para prémios por competição, além de o jogo se oferecido. Era o mínimo.»
Antes de o entrevistado prosseguir, importa contextualizar. Em Portugal, a maioria dos clubes aproveita convites de “freelancers” ou recorrem a projetos de Esports, que «emprestam» jogadores. Na eLiga 2024/25, apenas Benfica, Sporting e Famalicão contaram com secções estruturadas e autónomas.
Feita esta ressalva, Bruno Gonçalves revela o quotidiano e o trilho da ambição.
«Por dia, passo até 11 horas em frente ao ecrã, a estudar o EAFC. Não jogo para ganhar, mas sim para analisar comportamentos e dinâmicas. Jogo uma hora, por exemplo, e desmonto os vídeos para interpretar.»
«Há indicadores que nos revelam como pensa o adversário. Por isso, os princípios de interpretação do futebol são essenciais. Queremos eliminar a ideia de agressividade, de encontrar desculpas, porque o jogo é individual. Por isso, devemos formar, para que os jogadores se possam divertir.»
E quanto ao algoritmo? O jogo força a derrota?
«Devemos dominá-lo, por isso é que os meus jogadores decoram três táticas, contrariando a vontade da máquina. O algoritmo é real e obriga a posturas e opções diferentes», esclarece, pleno de convicção.
Para lá do modelo de ensino idealizado pela AXXE – programa de até oito semanas, com aulas teóricas e práticas – há conteúdos gratuitos na plataforma “Discord”. E, mais importante, há o objetivo de manter os jogadores ativos, longe dos ecrãs.
Vencer sem jogar: as fundações do sucesso
Outrora professor de Educação Física, Bruno continua a dedicar boa parte dos dias ao trabalho muscular e mental. Aspetos determinantes para um «gamer» bem-sucedido, argumenta. Nesta senda, a AXXE conta com um psicólogo e refuta o elo entre videojogos e sedentarismo.
«Um atleta é composto por quatro componentes: técnica, tática, psicológica e física. Basta uma falhar… O caminho vai ser menos bom. Trabalhar a parte emocional e psicológica catapulta os meus jogadores. E o físico também faz diferença, sobretudo pelo bem-estar e pela autoestima.»
«O nível de metabolismo é importante, porque em momentos de stress podes atingir os 140 batimentos por minuto, em competições que duram dias. Ou seja, a reação e a decisão têm de ser rapidíssimas e consistentes, com a melhor capacidade de oxigenação. Portanto, o contexto para lá do jogo é muito importante», reitera.
De mão esticada, João Carvalho tem algo atravessado. Pede a palavra, abre o livro, recua ao princípio de 2022 e desdobra-se em elogios ao camarada.
«Estou a recordar-me de quando confirmei que o Bruno não é normal – é especial. Uma das definições táticas do EAFC é a largura. Durante um torneio interno, o meu jogador alertou-me que a equipa do Bruno estava a jogar no mínimo de largura. Ninguém o fazia no Mundo, era impensável. Mas o Bruno disse que era propositado.»
«Acontece que fizeram top-16 europeu no torneio que se seguiu. Vimos a forma como desmontou os adversários, como as estratégias funcionaram, a bater nos favoritos com jogadores que têm uma vida profissional e académica paralela. Eram menores no potencial, mas bateram de frente com todos», relata João Carvalho.
Sem fronteiras e de olho na América
A noite abraça vagarosamente Argoncilhe e a troca de ideias segue frenética. Infelizmente há outros afazeres – até porque João e Bruno não colhem lucros suficientes para viver da AXXE. Antes da despedida a questão clássica: «E a seguir?».
Para além do reconhecimento da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e da organização de torneios, a dupla prepara o campo de férias de julho e ambiciona edificar pontes para a América.
«Outra ideia é avançar com um portal de notícias, uma via de expansão dos comunicados da FPF e da eLiga. Contamos com alguns formandos no estrangeiro e queremos que o projeto se torne rentável», remata. O sonho não é pequeno, tampouco a exigência da missão.
À saída, espreito o trânsito. A Estrada Nacional 1 permanece agitada, contrastando com o silêncio de Argoncilhe. Ninguém diria que junto à Igreja do Cristo Rei desponta uma academia pioneira no Esport.
João Carvalho e Bruno “Insert” Gonçalves até podem não mudar o Mundo, mas prometem marcar vidas e inspirar percursos.
Avance para a segunda parte da visita do Maisfutebol à AXXE Academy.
