A desconfiança crescente entre aliados levou a Europa a adotar medidas drásticas para proteger suas comunicações em solo americano. Mas esta decisão revela uma mudança ainda maior.
O mundo já não é o que era. E por isso a Comissão Europeia começou a tratar, em termos de segurança, as visitas oficiais aos Estados Unidos com o mesmo grau de desconfiança que existe numa viagem oficial à China ou à Ucrânia. Comissários e altos responsáveis vão viajar com dispositivos móveis descartáveis para evitar a interceção de informação e uma possível infiltração. Nada disto é novo, mas marca uma viragem muito pública da posição da Europa para com uma América que tem interesse em descobrir informação que lhe dê vantagem durante as negociações que se aproximam.
"Mesmo os telefones mais seguros correm riscos. Hoje, por natureza, nada é absolutamente seguro, particularmente com as capacidades de interceção que os EUA têm. Nesta conjuntura, em que existem negociações, há claramente interesse dos EUA em acompanhar aquilo que possam ser posições negociais de altos cargos da União Europeia", afirma o Jorge Silva Carvalho, especialista em Assuntos de Informação e Defesa e antigo diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa.
Os serviços europeus de segurança vão entregar às mais altas figuras da União Europeia um kit de segurança para reduzir o risco de espionagem. Cada membro da comitiva vai receber um telefone descartável e um computador portátil básico para utilizar exclusivamente durante a viagem, tal como já acontece em deslocações consideradas "sensíveis". Os diplomatas europeus já estão habituados a lidar com este kit que lhes é entregue sempre que se deslocam à China ou até mesmo quando visitam a Ucrânia, onde o risco de espionagem russa é considerado elevado.
Além disso, existem novas recomendações. Os três comissários que se preparam para viajar para Washington, DC para as reuniões do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), são agora aconselhados a desligar os seus dispositivos junto à fronteira e a colocá-los num saco especial para os proteger de potencial espionagem. Existe também um risco acrescido na chegada à alfândega dos Estados Unidos, onde as autoridades têm o poder de apreender os dispositivos eletrónicos de visitantes e de verificar o seu conteúdo.
"Os próprios telemóveis e computadores são hackeados facilmente. Ir para uma reunião fora e levar os seus dispositivos com toda a informação, com as suas ligações à cloud, as suas passwords de fácil acesso, isto pode colocar em causa a segurança de todos. Os limites da espionagem são definidos, não pela ética, mas por aquilo que os países querem da espionagem", defende Francisco Rodrigues, presidente do OSCOT - Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo.
Os especialistas acreditam que os diplomatas correm sérios riscos de segurança, particularmente se se contactarem a uma rede local, o que pode levar a que os serviços norte-americano de informações consigam interceptar dados sensíveis em tempo real. Redes públicas, como cafés, aeroportos ou hotéis são alvos fáceis para os serviços de espionagem ou até mesmo cibercriminosos.
"Quando qualquer pessoa viaja para os EUA, tem de perceber que a rede a que acede é americana. O número que utilizamos pode ser nosso, mas toda a comunicação é feita na infraestrutura do país em que nos encontramos. É como se fossemos entregar uma carta a um carteiro americano para a enviar para a Europa. Nós não sabemos se o carteiro americano vai abrir a carta. A dúvida é essa", alerta João Rocha e Melo, especialista em Inteligência Artificial.
Este incidente surge numa altura em que a tensão entre os Estados Unidos e a União Europeia continua a aumentar. Desde que tomou posse, no dia 20 de janeiro, a administração de Donald Trump sugeriu anexar o território dinamarquês da Gronelândia, ameaçou não proteger os membros da NATO que não investem 2% do PIB em defesa e impôs tarifas "recíprocas" de 24% contra o bloco europeu (que reduziu durante 90 dias para 10%).
Para o antigo líder da espionagem portuguesa, Jorge Silva Carvalho, é este contexto que justifica que esta informação tenha sido tornada pública. Em declarações à CNN Portugal, o comentador explica que a União Europeia sentiu necessidade de "evidenciar a hostilidade e o grau de desconfiança" que existe para com os EUA, mesmo sendo que este caso não é único.
"Não há amigos no mundo dos Serviços de Informações. Enquanto existirem interesses nacionais puros e duros, é natural que os Estados persigam esses interesses e os protejam. É para isso que eles servem. Muitos dos telemóveis têm acesso a servidores, na cloud, servidores físicos. E isso faz com que um telemóvel possa ser uma porta de entrada", defende Jorge Silva Carvalho.
Não seria a primeira vez que a União Europeia seria alvo de espionagem norte-americana. Em 2013, quando Angela Merkel liderava os destinos da Alemanha, Edward Snowden expôs as operações da National Security Agency (NSA), revelando que a agência de informações estava a monitorizar as comunicações dos líderes alemães. Os documentos que se tornaram públicos mostraram como os norte-americanos intercetavam chamadas telefónicas e e-mails de alguns dos cargos mais altos do país.
Em resposta, a União Europeia tomou algumas medidas para proteger os seus dados e a comunicações e reforçou o papel do Centro de Inteligência e Situação da União Europeia (EU INTECENT), que se foca na análise estratégica de informação, recolhendo informações e coordenando com vários serviços de informações dos estados-membros. Só que as informações europeias também são baseadas no Estado-Maior da União Europeia, que está encarregue da área militar e no Centro de Satélites da União Europeia (SatCen), responsável pelo fornecimento e análise de dados por satélite.
"Onde a balança pode desequilibrar um pouco contra a Europa é a nível da capacidade de SIGINT, ou signals intelligence, que passa pela interceção de informação com o uso de meios de comunicação ou satélites. Aí a União Europeia está um pouco mais pobre. No entanto, a União Europeia não está desprovida, quer por via dos Estados quer pelos seus próprios recursos", garante Jorge Silva Carvalho.