Como os espiões russos utilizavam vídeos de Cristiano Ronaldo no Youtube para passar informações ao Kremlin

10 ago 2025, 22:00
Cristiano Ronaldo na final da Liga das Nações entre Portugal e Espanha (TOBIAS SCHWARZ/gETTY)

Os agentes de Moscovo utilizavam formas sofisticadas para passar informações confidenciais da NATO, da União Europeia e das Nações Unidos para a Rússia

Andreas e Heidrun Anschlag pareciam um casal normal. Viviam uma vida pacata na cidade medieval de Marburgo, a norte de Frankfurt, com a sua filha. O marido tinha um respeitável trabalho como engenheiro mecânico que aparentava sustentar todo o agregado, permitindo à mulher cuidar da casa e da filha. Para os seus vizinhos, a única coisa estranha acerca do casal era o sotaque "de leste" e o último nome "Anschlag", que significa "ataque". No entanto, por trás dessa aparente normalidade, Andreas e Heidrun eram espiões russos a operar na Alemanha há mais de duas décadas, responsáveis por passar milhares de informações da NATO e da União Europeia a Moscovo.

Com a cobertura de uma vida de classe média alemã comum, os dois espiões, conhecidos em Moscovo pelos nomes de código "Pit" e "Tina", utilizavam técnicas sofisticadas para transmitir para Moscovo informações sensíveis. Aquilo que pareciam ser comentários absolutamente normais em vídeos de melhores momentos de Cristiano Ronaldo no Youtube escondiam as comunicações de uma das maiores agências de serviços secretos do mundo. As mensagens eram cuidadosamente compostas com sequências de pontuação que podiam ser convertidas em códigos numéricos, que referenciam mensagens pré-combinadas.

Num dos vários exemplos que veio a ser descoberto pelas autoridades foi possível ver uma das comunicações dos Anschlag com os serviços secretos russos num vídeo do internacional português. "Ótimo vídeo, e a música é incrível", escreveu a espia, com o nome de utilizador @AlpenKuh1 (vaca alpina 1). "Ele corre e joga como o diabo", responde a conta com o nome de utilizador @crsitanofootballer, ligada ao Serviço de Inteligência Estrangeiro (SVR) russo.

Mas a dupla de espiões utilizava também métodos "tradicionais" do mundo secreto da espionagem, transmitindo mensagens por satélite e entregas em pontos mortos. Foi através destas entregas que os estes dois agentes russos, que fazem parte de uma rede de espiões infiltrados conhecidos por "ilegais", obtinham informações de uma das suas principais fontes. Todos os meses, Raymond Poeteray, um oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, deixava pens USB com com informações sensíveis num esconderijo combinado, que era posteriormente recolhido por Andreas. O político neerlandês recebeu 72 mil euros dos serviços secretos russos em troca de documentos confidenciais da NATO, ao longo de quatro anos.

Em troca desta informação, os agentes recebiam 100 mil euros por ano diretamente de Moscovo. Duas vezes por semana, Heidrun recebia informações detalhadas do SVR através de um recetor de rádio de ondas curtas que estava ligado a um decodificador e a um computador num dos quartos da vivenda suburbana onde moravam com a filha, uma jovem estudante de medicina que desconhecia a verdadeira identidade dos pais. A espia respondia às ordens do SVR com comunicações por satélite.

Todo o esquema viria a acabar rapidamente em 2011, quando uma equipa das forças especiais alemãs arrombou a porta da casa e entrou pelo edifício adentro. Heidrun foi apanhada em flagrante delito. Estava a meio de receber uma mensagem codificada no rádio de onda curta e entrou em pânico, caindo da cadeira e arrancando a conexão por cabo. 

Andreas foi sentenciado a seis anos e meio de prisão e Heidrun recebeu uma pena de cinco anos e meio, em julho de 2013. No entanto, no final de 2015, os dois acabaram por ser libertados e deportados para a Rússia. 

Duas crianças austríacas que tinham morrido

O casal foi recrutado pelos serviços secretos russos ainda antes da queda do Muro de Berlim, em 1989. Nascidos na Rússia, os dois espiões faziam-se passar por cidadãos austríacos nascidos na América do Sul. O casal solicitou separadamente passaportes austríacos em 1984, mostrando documentos falsos que indicavam que ele tinha nascido na Argentina e que ela tinha nascido no Peru. Os dois só se casaram em 1990, quando Andreas estudava engenharia mecânica na Alemanha. 

De acordo com os procuradores responsáveis pelo caso, foi a natureza dos passaportes dos espiões que fez soar o primeiro alerta. Em 2011, a Áustria ordenou uma auditoria a todos os passaportes emitidos na década de oitenta, o que terá revelado que os Anschlag roubaram a identidade de duas crianças austríacas que tinham morrido. Esta é uma técnica comum entre os espiões russos que operam como "ilegais" no estrangeiro, obtendo documentos falsos com as identidades de crianças mortas para depois passar anos a trabalhar lentamente para dar credibilidade à sua história de vida no país-alvo. 

Mas há suspeitas de que a origem da detenção venha de outro lado. As autoridades acreditam que os dois espiões foram alertados por Moscovo de que uma possível detenção poderia ser iminente, durante uma viagem à Sérvia, no verão de 2011. Dias antes de a polícia entrar pela casa do casal, Andreas tinha acabado de vender o carro e de avisar a sua empresa de que ia deixar o emprego, pouco antes de ser capturado. 

Muitos suspeitam que o casal foi exposto por Aleksandr Poteyev, um coronel do SVR e responsável pelo programa de "ilegais", que desertou para os Estados Unidos quando soube que os serviços secretos russos estavam a preparar testes de polígrafo para encontrar a fonte das fugas de informações. Dias antes de ser preso e condenado a 18 anos numa prisão de máxima segurança, as autoridades americanas levaram a cabo uma das maiores detenções de espiões em solo americano desde o final da Guerra Fria, capturando dez cidadãos russos que viviam infiltrados no país há vários anos com identidades falsas. 

Estes espiões já estavam sob vigilância há vários anos e acredita-se que a sua detenção aconteceu assim que os serviços secretos americanos souberam que Poteyev ia ser exposto. O FBI descobriu que os espiões russos conseguiram chegar perto de um cientista americano que trabalhava no desenvolvimento de bombas nucleares antibunker, bem como um financiador de Nova Iorque com fortes ligações políticas. No entanto, as autoridades sugerem que os russos não conseguiram obter informações relevantes em nenhum dos casos.

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