Qualidade do esperma humano caiu para metade nos últimos 50 anos, revela estudo

15 nov, 12:54
(Foto: Yuichi Yamakazi/AFP via Getty Images)

Concentração média de espermatozoides caiu para metade e a redução da qualidade acelerou-se desde os anos 2000, indicando um problema reprodutivo grave que deve ser enfrentado antes de chegar ao ponto de não retorno, avisa o autor principal do estudo

A Humanidade poderá enfrentar em breve uma crise reprodutiva se nada for feito para evitar a diminuição da qualidade do esperma humano. Há cinco anos, um estudo descreveu um declínio na contagem do esperma que levantou desde logo preocupações sobre uma eventual crise reprodutiva, mas esta pesquisa era focada em amostras de homens naturais da América do Norte, Europa, Austrália e Nova Zelândia, recolhidas entre 1973 e 2011. A investigação foi alargada e conta agora com amostras de quase 15 mil pessoas também da América Central, África e Ásia, e os resultados voltaram a ser preocupantes: segundo o novo estudo, publicado na revista Human Reproduction Update, e que conta com amostras recolhidas entre 2014 e 2019, não só a qualidade do esperma continuou a diminuir, como a própria qualidade desceu a maior velocidade. 

A análise sugere que a concentração média de espermatozoides caiu de 101,2 milhões por mililitro para 49,0 por mililitro entre 1973 e 2018, e a contagem total de espermatozoides caiu 62,3% durante o mesmo período. Estudos anteriores sugerem que a fertilidade fica comprometida com concentrações de espermatozoides inferiores a 40 milhões por mililitro. 

Sobre a velocidade de redução da qualidade do esperma, o estudo mostra que, desde 1972, se registou uma queda na concentração de espermatozoides de 1,16% ao ano. Mas, a partir de 2000, o declínio já foi de 2,64% a cada 12 meses.

"Julgo que este é outro sinal de que alguma coisa está errada com o globo e que precisamos de fazer alguma coisa sobre isto. Portanto, sim, considero que é uma crise que devemos enfrentar agora, antes de chegarmos a um ponto em que deixe de ser reversível", disse ao The Guardian Hagai Levine, autor principal do estudo da Universidade Hebraica de Jerusalém. 

"Um declínio como este representa claramente um declínio na capacidade de a população se reproduzir", acrescentou. 

As causas do declínio são, aparentemente, pouco claras: uma das hipóteses colocadas pelos investigadores tem a ver com a possibilidade de químicos desregularem o sistema endócrino, ou outros fatores ambientais que condicionem o feto ainda no útero, quando os testículos estão a desenvolver-se. O estilo de vida também terá um papel: fumar, beber álcool, obesidade ou uma dieta pobre podem comprometer a fertilidade e ajudar a diminuir a contagem de espermatozoides. 

Ainda que alguns cientistas assinalem que é muito difícil fazer contagem de espermatozoides de forma tão precisa, especialistas em saúde reprodutiva masculina admitem que a tendência para diminuição da qualidade do esperma parece ser um fenómeno global. Richard Sharp, investigador da Universidade de Edimburgo, disse ao Guardian que os novos dados indicam que poderá levar mais tempo a engravidar e, para muitos casais que adiam o primeiro filho para os 30 ou 40 anos, será ainda mais difícil. 

"Estas questões não são um problema apenas para os casais que estão a tentar ter filhos. São também um enorme problema para a sociedade nos próximos 50 anos", assinalou o especialista.

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