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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Vamos viver até aos 100 anos mas... ainda falta pagar 33

6 abr, 10:24
Vida e Morte

Nos anos 80, os números eram magicamente equilibrados: 20 anos a crescer e estudar, 40 anos a trabalhar e 15 anos a descansar. Imagine agora aplicar a mesma fórmula daqui a uns anos: 25 anos a estudar, 60 anos a trabalhar e 15 anos a descansar. Consegue sentir a diferença?

A esperança média de vida aumentou quase 10% desde 1980. Um homem podia esperar viver até aos 70 anos em 1980, mas hoje já se pode “atirar” para os 76. Uma mulher, que dificilmente passaria dos 75 anos em 1980, estará a ser pessimista se achar que viverá menos de 82

É uma evolução notável em pouco mais de uma geração. A este ritmo, daqui por 20 anos poderemos ser considerados “cobardes” se nos programarmos para viver menos de 100 anos.

Tudo seriam boas notícias se não fossem notícias péssimas. Péssimas porque não há sistema de Segurança Social que consiga suportar uma inatividade produtiva por 35 ou 40 anos. Na era industrial, as contas eram simples: trabalhar 40 anos e descansar 15. Tudo parecia bater certo mas mesmo assim não foi suficiente para criar uma Segurança Social robusta. Tudo parece estar assente numa inatividade máxima de 15 anos. É a fórmula que nos parece mais possível.

Em breve estaremos a falar de trabalhar 40 anos e “descansar” outros 40 mas não há modelo que funcione. Aliás, haver até haverá, mas ainda não existe.

Isto significa que, quando chegarmos aos 67 anos, a atual idade da reforma, não estaremos perante o prémio de uma carreira contributiva que nos venderam, mas sim à beira de um abismo financeiro que nos escondem. A Segurança Social não vai retribuir nem o que descontámos nem o que precisamos.

O melhor investimento de sempre

Se calculássemos o retorno do capital investido na nossa saúde hoje, dificilmente encontrariamos melhor investimento. Com o atual modelo de reformas, aumentar a nossa vida em apenas um ano significa um retorno brutal. Um ano completo de proveitos sem fazer nada.

Quem investe no ginásio, numa dieta anti-inflamatória ou noutras melhorias de saúde, e com isso prolonga a sua capacidade de rendimento, está a ir buscar o “dinheiro mais fácil” de sempre. E, ainda por cima, com melhor qualidade de vida.

Projete isto para daqui a uns anos, quando a esperança média de vida chegar aos 100 e a Segurança Social nos obrigar a trabalhar até aos 85 e o retorno poderá ser, ainda assim, bastante interessante. Afinal de contas, cada ano adicional de produtividade corresponderá a um fôlego financeiro significativamente mais elevado e, esperemos nós, uma contribuição para a tal reforma.

Estudo, trabalho, reforma?

Pensar que o que estudamos aos 20 anos se vai transformar na nossa única carreira de vida é, já hoje, uma clara falácia geracional, económica e social. O que hoje se aprende na universidade será obsoleto muito antes de chegarmos aos 60 porque não há estudos que durem 60 anos sem uma atualização intensa. Daqui a 15 anos posso estar a executar arqueologia em vez engenharia ou gestão.

Temos um enorme problema pela frente. Por um lado, será motivacionalmente desafiador manter alguém focado décadas a fio a ser “engenheiro de qualquer coisa” ou “doutor de qualquer coisa”. Por outro, o corpo vai durar mais do que a mente estará preparada para aguentar numa determinada função por tão longo período.

Nos anos 80, os números eram magicamente equilibrados: 20 anos a crescer e estudar, 40 anos a trabalhar e 15 anos a descansar. Imagine agora aplicar a mesma fórmula daqui a uns anos: 25 anos a estudar, 60 anos a trabalhar e 15 anos a descansar. Consegue sentir a diferença? 

O renascer aos 60

É fundamental que cortemos as amarras de uma carreira única, estável e contínua. Mentalmente, será impossível reduzir um século de vida a uma única experiência profissional ou, pelo menos, a um único fio profissional. Vamos precisar de muito mais.

É essencial criar condições para que cada um de nós tenha multicarreiras. Porventura, teremos de frequentar a universidade não uma mas duas vezes. Provavelmente teremos de “renascer” algures por volta dos 50 ou 60 anos, reinventando-nos para alinhar ambições, em vez de nos resignarmos a um caminho escolhido na juventude e agarrados a uma reforma que começa a parecer estar a chegar.

A longevidade não nos dá apenas mais anos, dá-nos mais ciclos e, por isso, temos de desafiar a linha horizontal do tempo e curvá-la para unir um fim com um novo início.

A doença da poupança

Esqueça a poupança para a reforma da forma como sempre a idealizou. Vai ter de poupar, sim, mas não com base num sistema que não vai funcionar. Pode até ter de voltar a poupar para estudar, como fazemos hoje com os nossos filhos. Em complemento, pense como vai garantir o seu sustento nos 20 ou 30 anos adicionais que nos serão colocados pela frente. É assustador só de pensar, mas será mais assustador se não pensar já nisso.

Estamos preparados para uma maratona de 40 quilómetros, mas a meta acabou de ser empurrada mais 20 para a frente e nós ainda nem mudámos de sapatos.

O nosso corpo deixou de ser um robô e passou a ser uma infraestrutura económica na qual temos de investir se queremos que ela se mantenha atual. Sem o corpo certo não teremos a mente sã e sem a mente sã vamos andar a tirar fotografias analógicas à vida quando já não houver quem nos revele os rolos.

A nossa utilidade económica compete, e competirá, com algoritmos. O nosso currículo aos 60 anos pode já não servir para nada, mas ainda teremos duas décadas pela frente para assegurar a nossa subsistência. Ou mudamos o currículo ou mudamos de vida.

A Inteligência Artificial terá uma palavra a dizer e nós seremos, provavelmente, os maestros de uma orquestra de bots, coordenando sistemas, validando decisões automáticas e fazendo aquilo que os algoritmos não conseguem que é interpretar contexto e lidar com a imprevisibilidade humana. O bom é que deixaremos de ser o “bot” resignado que somos hoje, a executar tarefas automáticas anos a fio sem nos darmos conta do quanto robotizados já estamos.

Poderá ser uma vida melhor a que nos espera após os 60, mas não poderemos ver essa idade como uma pré-reforma. Teremos que a olhar como um verdadeiro renascer com a diferença que renascemos já com muito lastro.

Morre o modelo, mas nós ainda cá estaremos

A Segurança Social não é um fundo de pensões. É um fantasma do século passado que ainda não sabe que morreu. Temos de parar de contar os anos que faltam para parar e começar a contar as competências que queremos para continuar. Pensar em quem queremos ser antes do que queremos ser.

Viver 100 anos é uma bênção da ciência, mas chegar lá sem utilidade estratégica é o maior erro da nossa vida.

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