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Víbora-de-fosseta, cobra-voadora e lagartixas entre as novas espécies descobertas em cavernas do Camboja

CNN , Amarachi Orie
26 abr, 17:00
Esta espetacular víbora-de-fosseta estava entre as 11 novas espécies descobertas nos carstes do Camboja — antigos penhascos de calcário com sistemas de cavernas escondidos. Embora o seu nome oficial ainda não tenha sido definido, o termo "fosseta" refere-se ao órgão termossensível na sua cabeça, que ela usa para detetar e rastrear presas de sangue quente. (Phyroum Chourn/Fauna & Flora)
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O biólogo de conservação Pablo Sinovas liderou a equipa da Fauna & Flora no Camboja, trabalhando com investigadores locais para ter uma ideia do terreno durante o dia e – a “parte divertida” – procurar criaturas como cobras e lagartixas à noite

As cavernas calcárias do Camboja, em grande parte inexploradas, estendem-se por milhares de quilómetros, abrigam inúmeras espécies ainda não descobertas e ecossistemas únicos, com criaturas que não se encontram em mais nenhum lugar da Terra.

Agora, um novo levantamento de cavernas na província de Battambang, no noroeste do país, revelou uma variedade de espécies que são uma novidade para a ciência, incluindo uma víbora-de-fosseta turquesa, uma cobra-voadora, diversas espécies de lagartixas, dois microcaracóis e dois milípedes.

A víbora e três das espécies de lagartixa recém-descobertas ainda estão a ser formalmente nomeadas e caracterizadas. As outras descobertas foram oficialmente reconhecidas ao longo do levantamento de biodiversidade, que explorou 64 cavernas em 10 colinas entre novembro de 2023 e julho de 2025, e cujos resultados foram publicados num relatório em março.

Cada colina e caverna na paisagem cárstica rochosa do Camboja – um termo para uma paisagem criada quando as rochas se decompõem, formando grandes nascentes em cavernas, riachos subterrâneos e dolinas – está isolada das demais. Cada uma funciona como um "laboratório insular" individual de evolução, abrigando inúmeras formas de vida distintas que se adaptaram ao seu nicho de habitat, indica a organização de conservação Fauna & Flora, sediada no Reino Unido, que liderou o levantamento juntamente com o Ministério do Meio Ambiente do Camboja e especialistas de campo.

Uma cobra voadora, documentada durante a expedição. foto Phyroum Chourn/Fauna & Flora

“Pense nisso como uma pequena amostra da biodiversidade, onde a natureza realiza a mesma experiência repetidamente e de forma independente”, adianta em comunicado o biólogo evolucionista Lee Grismer, professor de Biologia da Universidade La Sierra, na Califórnia, que apoiou a equipa de investigação.

“Nós vamos a esses locais distintos e analisamos o ADN das espécies, observando como a experiência se desenrolou”, acrescenta Grismer. “Algumas espécies são semelhantes, outras diferentes, e, ao analisar isso, podemos ter uma ideia das forças motrizes por trás da sua evolução.”

Por exemplo, embora os investigadores tenham identificado uma espécie de lagartixa-de-dedos-curvos listrada de Kamping Poi, chamada Cyrtodactylus kampingpoiensis, durante um trabalho de campo em 2024, eles encontraram quatro populações diferentes que estão a evoluir de maneiras distintas.

“Se realmente quisermos conservar a biodiversidade deste planeta, temos de entender o que existe”, destaca Grismer. “Não podemos proteger algo se não sabemos que esse algo existe.”

Espécies globalmente ameaçadas, como o pangolim-da-sonda, o pavão-verde, o macaco-de-cauda-longa e o macaco-de-cauda-de-porco-do-norte, também foram encontradas na região durante este último levantamento.

Ainda só ‘arranhamos a superfície’

O biólogo de conservação Pablo Sinovas liderou a equipa da Fauna & Flora no Camboja, trabalhando com investigadores locais para ter uma ideia do terreno durante o dia e – a “parte divertida” – procurar criaturas como cobras e lagartixas à noite, “quando elas estão mais ativas, quando saem dos seus esconderijos”, conta à CNN.

A equipa saía após o pôr do sol e passava horas a percorrer “terrenos rochosos e acidentados” com tochas, “espreitando em cada fenda, procurando cavernas na paisagem, rochas, galhos, vegetação, realmente em todos os lugares – era como uma divertida equipa de buscas”, diz Sinovas, que agora é responsável sénior de programas na organização de beneficiência.

Algumas cavernas na região abrigam até um milhão de morcegos, embora a equipa de pesquisa não tenha entrado em cavernas com grandes colónias de morcegos devido a preocupações com questões de saúde, é indicado no relatório.

As paisagens cársticas representam cerca de 9% da área territorial do Camboja, correspondendo a 20 mil quilómetros quadrados (ou 7.722 milhas quadradas), segundo o relatório, em que é destacado que “grande parte dessa área ainda é desconhecida pela ciência”.

Catorze cavernas que não haviam sido mapeadas anteriormente foram registadas numa colina cárstica no distrito de Banan, na província de Battambang.

“Ainda há muito a ser explorado”, afirma Sinovas, acrescentando que eles apenas “arranharam a superfície” em termos da biodiversidade que está à espera de ser descoberta nos ecossistemas da vasta paisagem do Camboja.

Caverna Laang Spean na província de Battambang, no noroeste do Camboja. foto Phyroum Chourn/Fauna & Flora

Além de abrigarem uma variedade de espécies, muitas das cavernas são usadas como santuários, para meditação e outros rituais, e são visitadas por turistas e peregrinos, adianta o relatório.

Mesmo assim, os habitats cársticos estão ameaçados por trabalhos de extração mal planeados para a produção de cimento, bem como pelo turismo excessivo, caça de animais selvagens, desmatamento e incêndios florestais.

“Há uma procura crescente por cimento e o calcário cárstico é útil para a fabricação de cimento”, explica Sinovas, “portanto, o carste fornece uma matéria-prima muito importante”.

“Mas, obviamente, se destruímos uma área onde certas espécies vivem, e essas espécies não vivem em nenhum outro lugar, isso pode levar automaticamente à extinção das espécies – em alguns casos, de espécies que ainda nem foram descritas”, contrapõe.

É por isso que Sinovas e a sua equipa estão “a trabalhar com o governo para garantir que essas áreas importantes são mais bem protegidas”, explica, acrescentando que há discussões em curso sobre “dar a essa área algum tipo de estatuto de proteção, para que ela possa ser preservada no futuro”.

Daniel Olivares Gallego contribuiu para esta reportagem.

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