O racismo e uma espiral que assombra a dança de Vinícius Júnior

8 fev, 09:14
4.º Vinícius Júnior (Real Madrid): 190.5 ME

Agora foi em Maiorca. Um crescendo de hostilidade em torno do jovem craque brasileiro que, entre críticas à forma como celebra os golos ou acusações de provocação por parte dos adversários, tem como denominador comum a sombra do racismo. E evidencia um problema no futebol espanhol

Vinícius Júnior voltou a ouvir gritos de «Macaco» vindos das bancadas. Voltou a ser o foco dos rivais, da bancada ao relvado. Ele é o jogador que sofre mais faltas em todos os grandes campeonatos da Europa. Agora foi em Maiorca, antes aconteceu em vários estádios espanhóis. Vai para lá do campo, como aconteceu antes do dérbi de Taça com o At. Madrid. Um crescendo de hostilidade em torno do jovem craque brasileiro que, entre críticas à forma como celebra os golos ou acusações de provocação por parte dos adversários, tem como denominador comum a sombra do racismo. Vinícius reage fora de campo e reage lá dentro. Mas, enquanto as autoridades desportivas anunciam processos, para já sem sanções relevantes, a espiral prolonga-se e não dá sinais de abrandar.

«Está a criar-se um ambiente à volta dele que não é bom para ninguém. Nem para o jogador nem para a equipa. Os adeptos metem-se com o miúdo e é preciso deixar as polémicas e os disparates de lado, porque não são bons para ninguém», disse Nacho Fernández, o capitão do Real Madrid, depois da derrota de domingo com o Maiorca.

Esse jogo espelhou todo o ambiente que rodeia Vinícius. Em Son Moix, ele passou o jogo a ser vaiado, sempre que tocava na bola. Ao intervalo, a caminho do balneário, reagiu apontando para o símbolo do Real Madrid. Em campo sucederam-se altercações e provocações. O lateral Maffeo perseguiu-o fazendo o gesto de chorar, o capitão Raillo quis que ele beijasse o símbolo do Maiorca. Vinícius sofreu 10 faltas nesse jogo, um recorde da época na Liga espanhola.

O ambiente hostil estava criado antes do jogo. Na época passada, o brasileiro já tinha ouvido insultos racistas no estádio do Maiorca, coisas como «vai apanhar bananas». Houve denúncia e investigação, mas o caso foi arquivado. Já nesta época, foi também depois do encontro da primeira volta com o Maiorca, em setembro, que o debate sobre a forma como Vinícius celebrava os golos trouxe o tema do racismo de novo para primeiro plano, depois de um comentador dizer na televisão coisas como «Vinícius tem de deixar de fazer macacadas.»

Vários jogadores saíram em sua defesa, uma onda de solidariedade a que até Pelé se associou, sob o lema «Baila, Vini Jr.». Dias depois, Vinícius reagiu, num vídeo em que assumia uma posição forte. «A felicidade de um preto brasileiro vitorioso incomoda», dizia: «Repito para você, racista: eu não vou parar de bailar.»

 

Mas as críticas a Vini Jr. não pararam. Por esses dias, o capitão do Maiorca insistia, a dizer que «quando lhe chamam provocador, Vinícius usa a carta do racismo». E agora, antes do jogo, Raillo voltou a visar o extremo brasileiro: «Se tivesse de apontar um exemplo ao meu filho, seria Modric ou Benzema, mas nunca Vinícius. O que levou Carlo Ancelotti a sair, uma vez mais, em defesa do jogador. «Os jovens gostam deste tipo de jogadores, com qualidade e espetaculares com a bola. Tenho quatro netos e todos têm a camisola de Vinícius. Não querem outra», disse o treinador do Real Madrid.

Na Europa, ninguém sofre mais faltas

Vinícius sofre mais faltas no campeonato espanhol do que qualquer outro jogador nas principais Ligas europeias.

 

Esses dados não têm correspondência com o que acontece, por exemplo, na Liga dos Campeões. Em seis jogos na edição deste ano, o avançado do Real Madrid sofreu no total 11 faltas no total, bem menos do que as 18 do primeiro da lista, o croata Bruno Petkovic.

É uma pressão brutal sobre o miúdo que o Real Madrid garantiu em 2017, após apenas dois jogos pelo Flamengo, para passar a contar com ele mais de um ano depois, quando atingiu a maioridade. O miúdo que andou pelo Castilla, antes de seduzir em definitivo os adeptos no Bernabéu e que explodiu com Carlo Ancelotti, até coroar em maio uma temporada de sonho com o golo que valeu a 14ª Liga dos Campeões para o Real Madrid.

Vinícius, o craque de energia contagiante que se expressa nas fintas, na alegria e nas danças, falou sobre a forma como vive o jogo e a pressão dos adversários antes do Mundial, numa entrevista à Reuters. «Quando começamos a tornar-nos jogadores importantes, os adversários são mais duros connosco. Temos de aprender a lidar com isso. Aprendi muito com o Neymar quando jogou pelo Barcelona, ele sofreu muito também. E o Cristiano também, quando jogou pelo Real», disse. «Mas foi o Karim que me disse para ficar calmo e ter paz de espírito, porque se os rivais te perseguem é porque és relevante, por terem medo de ti. É por isso que quando pego na bola e avanço o faço com determinação. Sim, posso magoar-me. Mas estou preparado para o desafio.»

«Todos apertam com ele»

Ancelotti foi procurando conter algum do ímpeto de Vinícius, procurando que ele não perca o foco. Frente ao At. Bilbao, em janeiro, dirigiu-se-lhe, depois de ter sido avisado pelo árbitro, a dizer para ele moderar os protestos. «Disse-lhe: ‘Fala comigo, fala comigo. Disse-lhe para fazer o seu jogo.» Mas nessa altura o técnico também defendeu o seu jogador, admitindo que tudo isto está a afetá-lo: «Vinícius é grande jogador e muito sensível. A verdade é que todos apertam com ele, os rivais, os adeptos, às vezes o árbitro, mas a verdade é que também lhe fazem muitas faltas.»

Aquele jogo em San Mamés ficou também marcado por insultos das bancadas a Vinícius. Aconteceu em todos os jogos do Real Madrid fora de casa depois do Mundial. Mas já vinha de trás. Já tinha sido assim por exemplo em novembro de 2021, no Camp Nou. Esta época voltou a acontecer em setembro, no interior e no exterior do estádio antes do dérbi com o Atlético Madrid.

Um problema do futebol espanhol

E aconteceu no final do ano, após o encontro com o Valladolid, incidentes que motivaram uma reação de Vinícius nas redes sociais: «Os racistas continuam a ir aos estádios e assistindo ao maior clube do mundo de perto e a Liga segue sem fazer nada», escreveu.

E depois aconteceu em San Mamés, mais uma vez insultos racistas das bancadas e tensão com Vinícius no relvado. E a seguir houve a tarja e o boneco de Vinícius pendurado de uma ponte em Madrid, antes do dérbi com o Atlético. Em campo, ele respondeu com o golo que selou a vitória do Real Madrid.

Agora, aconteceu em Maiorca e há uma nova investigação anunciada aos incidentes do último domingo. E há, para lá da questão de Vinícius, um problema com que o futebol espanhol tem de lidar. Como disse Carlo Ancelotti, que voltou a falar do tema já em Marrocos, na estreia do Real Madrid no Mundial de clubes. «Parece que ele é culpado, quando na realidade é vítima. É um problema do futebol espanhol, de que faço parte e creio que temos de o resolver. É algo que não entendo.»

Casos aumentam, com efeito viral e sem sanções relevantes

Não acontece apenas com Vinícius. Nos últimos anos houve vários casos de racismo envolvendo outros jogadores, como Iñaki Williams. Mas esta época eles estão a aumentar. Segundo o jornal AS, a Liga já denunciou em meia temporada quatro atos de racismo, quando nos oito anos anteriores o total foram 15.

As manifestações de ódio e violência nas bancadas aumentam, com um efeito viral. «Em muitos casos acontecem com crianças à volta. A questão de Vinícius viralizou-se e é preciso travá-la porque está a extrapolar-se para outros âmbitos onde não havia problemas. Agora parece divertido ir ao estádio insultá-lo», disse ao AS um responsável do Conselho Superior do Desporto espanhol, Raúl Rodríguez: «Estamos a assistir a uma descarga muito forte dos adeptos, não sei se por frustração ou por que motivo. Os cânticos não vêm todos de zonas de ultras, também vêm de bancadas onde estão pais com filhos. É preocupante.»

A Liga espanhola garante que tem identificado e denunciado todos os casos, não só junto das autoridades desportivas mas também das instâncias judiciais. Mas até agora foram quase nulas as consequências. Algumas das situações ainda não têm um desfecho, outras foram arquivadas. Como a dos cânticos no Metropolitano por parte de alguns adeptos do At. Madrid, em setembro. O Ministério Público espanhol considerou que os insultos «duraram apenas alguns segundos» e que não podiam ser atribuídos a nenhum adepto em concreto. Também não tem havido sanções para os clubes, como interdições parciais do estádio. No caso de Valladolid, foram identificados alguns adeptos, com ajuda do clube, para os quais o Conselho Superior de Desportos recomendou multas de 4000 euros e proibição de entrar em estádios durante um ano.

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