O craque que se tornou o ódio mais caro do mundo

3 mai, 09:33
Real Madrid-Getafe (Sergio Perez/EPA)

Gareth Bale, contratado em 2013 pelo Real Madrid como a maior transferência de sempre, disse que não participou na festa do título do Real Madrid por estar com dores de costas. Um último episódio bizarro numa relação que se tornou tóxica

A festa da conquista do título pelo Real Madrid fez-se em campo e no balneário, depois seguiu com milhares a saudar a equipa, das ruas até à Praça Cibeles. Só não teve Gareth Bale. A mensagem que o galês deixou nas redes sociais, na noite da consagração, a dizer que não estaria nas celebrações por estar com dores de costas, encerra num tom bizarro uma relação que há muito se deteriorou, a poucas semanas de terminar o contrato.

Ainda assim, a Liga espanhola de 2021/22 vai ficar no palmarés de Gareth Bale. É a terceira, a juntar às quatro Ligas dos Campeões, três Mundiais de clubes e mais uma mão cheia de títulos pelo Real Madrid. Ao longo de nove anos no Bernabéu, onde chegou como o jogador mais caro da história para completar um trio de luxo com Cristiano Ronaldo e Benzema, Bale foi crucial em várias conquistas, mas o percurso foi-se desgastando numa relação tóxica com adeptos e imprensa que dificilmente encontra paralelo. Também com treinadores, a começar por Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane. Entre golos e lesões, entre o campo, o banco e a bancada, entre amuos e assobios, provocações e braços de ferro, Bale foi ficando. Com um contrato longo, sob o peso do valor da transferência e um salário muito alto, esteve em várias ocasiões na iminência da saída, mas apenas deixou Madrid para um regresso temporário ao Tottenham. Pelo meio, foi protagonista dos melhores anos da seleção de Gales, que sempre assumiu como a sua grande paixão. O Maisfutebol escolheu dez momentos que contam o percurso surreal do galês no Bernabéu.

A transferência recorde e a BBC, trio de ouro

A 2 de setembro de 2013, Gareth Bale era recebido em festa no Santiago Bernabéu. Chegava como a contratação mais cara da história, 100 milhões de euros, ainda que em valores não oficiais, que superavam a transferência de Cristiano Ronaldo quatro anos antes. O galês que se formou no Southampton e encantou a Premier League com a sua velocidade e o talento explosivo vestindo a camisola do Tottenham juntava-se a Ronaldo e a Karim Benzema, para completar o trio ofensivo que levaria o Real de volta ao topo. Com a BBC, logo na primeira temporada, os merengues venceram no Estádio da Luz a primeira Liga dos Campeões em 12 anos. Na final com o At. Madrid, Bale marcou o golo a abrir o prolongamento que colocou o Real pela primeira vez em vantagem no jogo, o 22º daquela que foi a sua época mais produtiva com a camisola branca. Antes disso, tinha dado a Taça do Rei ao Real Madrid, com o incrível raide para o golo da vitória sobre o Barcelona na final.

Ancelotti e o princípio da «guerra»

Nem tudo eram rosas. Na segunda temporada, Bale começou a ouvir assobios das bancadas em várias ocasiões, por lances em que preferiu rematar em vez de passar a bola a Ronaldo ou Benzema. A relação com Ancelotti complicou-se e mais tarde o treinador chegou a dizer que foram os problemas com o galês que levaram à rutura da sua relação com o presidente do clube. «Em Madrid, as divergências com Florentino Pérez começaram com a substituição de Bale num jogo em Valencia. Ele podia ter passado a bola a Benzema, que teria feito um golo fácil, mas preferiu rematar. Tirei-o de campo e começou uma guerra», disse Ancelotti anos mais tarde ao site Napolitano. O Valencia venceu esse jogo, em janeiro de 2015, por 2-1. Pode recordar aqui o lance em causa. Na sua biografia, publicada em 2016, o italiano relatou de resto como em março desse ano foi chamado ao gabinete de Florentino porque o agente de Bale tinha-se reunido com o presidente para dizer que o extremo queria jogar numa posição mais central, atrás do avançado.

Das lesões à final da Champions no banco

No verão de 2015 chegou Rafa Benitez, mas o espanhol durou menos de seis meses no banco. Entrou então Zidane, que conduziu a equipa a nova conquista da Liga dos Campeões logo na primeira época. Numa temporada em que começaram também a tornar-se recorrentes as ausências por lesão – esteve dois meses e meio afastado entre janeiro e março de 2016 -, Bale jogou os 120 minutos da final com o At. Madrid e bateu com sucesso uma das grandes penalidades que deram o título ao Real. Na temporada seguinte, depois de um verão feliz com a seleção até à meia-final do Euro 2016 perdida para Portugal, Bale foi perdendo espaço no Bernabéu, ao ritmo das sucessivas lesões. Ainda assim, em outubro desse ano renovou, prolongando o contrato até 2022. Mas um mês mais tarde uma lesão no tornozelo em Alvalade forçou-o a uma operação e três meses de paragem. Voltou em fevereiro e voltou a parar. De fora desde meados de abril, fez um esforço para estar de novo na final da Champions, que se jogava em sua casa, em Cardiff. Mas começou a decisão frente à Juventus no banco, com Isco a titular. Entrou aos 77 minutos de jogo a render Benzema, para a consagração do Real, a primeira equipa a revalidar o título na era Champions.

O inédito bis na final da Champions e a rutura

Antes da quinta temporada no Bernabéu, já era clara a ausência de empatia com os adeptos mas também com a imprensa madrilena, com críticas que iam desde as sucessivas lesões à atitude indiferente de Bale no banco, ou até ao facto de o galês ainda não ter aprendido espanhol. Na verdade, ele diz que compreende bem o espanhol e fala o suficiente para se entender. «O que incomoda a imprensa é que não falo com eles», disse há um ano numa entrevista ao Times. Em campo, nessa época 2017/18, Bale continuou a ter presença irregular. Até Kiev. Voltou a começar a final da Liga dos Campeões no banco e substituiu Isco aos 61 minutos. Pouco depois, marcou a fantástica bicicleta que pôs o Real Madrid em vantagem frente ao Liverpool, antes de bisar a sete minutos do final, o primeiro da história a consegui-lo como suplente numa final da Champions. Após o jogo, Cristiano Ronaldo dominou as atenções, com o discurso a anunciar a despedida, mas Gareth Bale também disse que não estava contente, que queria jogar mais e que iria falar com o seu agente.

«Se sair amanhã, melhor»

Saiu Cristiano Ronaldo. E saiu Zidane. Bale ficou. Na imprensa espanhola escreveu-se que um dos motivos para a saída do treinador era precisamente Bale, que Zidane não quereria mais no clube. Na era pós-BBC, cinco anos em que os três avançados juntos marcaram mais de 400 golos, a vida no Bernabéu não melhorou para Bale, numa época em que o Real teve no banco Julen Lopetegui, depois Santiago Solari e por fim Zidane, de volta ao fim de nove meses. Em campo, o mal-estar do jogador era evidente: em fevereiro, por exemplo, recusou-se a festejar um golo marcado ao Levante. No final dessa época, Bale esteve muito perto da saída. Em julho de 2019, era pretendido pelos chineses do Jiangsu Suning quando se deu novo caso. Zidane disse que o jogador não quis defrontar o Bayern Munique num jogo de pré-temporada porque estava a negociar a saída. «Se sair já amanhã, melhor», disse o treinador francês. Dias depois emendou, afirmando que não se tinha expressado bem e que contava com Bale. Pelo meio, o negócio abortou. Segundo disse mais tarde o seu agente, Jonathan Barnett, o problema foi o valor da transferência pedido pelo Real Madrid.

Wales. Golf. Real Madrid

Portanto, Bale começou nova temporada, com Zidane no banco. Passou para segundo plano nas opções do Real Madrid, voltou a lesionar-se, mas não falhou à sua seleção. Não jogava pelo clube desde meados de outubro quando em meados de novembro de 2019 jogou as duas partidas finais de qualificação para o Euro 2020. E depois festejou com aquela bandeira. «Gales. Golfe. Real Madrid. Por esta ordem.» Foram os outros jogadores que a trouxeram da bancada e a frase aludia a declarações do ex-jogador merengue Pedja Mijatovic, a falar das prioridades de Bale, precisamente por aquela ordem. De nada adiantou Bale dizer que não partiu dele e foi só uma brincadeira. O caldo estava definitivamente entornado com a afición merengue. Zidane não o afastou da equipa, pô-lo em campo no jogo seguinte e, claro, Bale ouviu assobios em coro do Bernabéu desde que foi anunciado pelos altifalantes e sempre que tocou na bola frente à Real Sociedad. Em público, o treinador foi pedindo aos adeptos que não vaiassem o jogador e garantindo que se focava apenas no rendimento desportivo. Mas já não havia margem para pacificação. Depois da paragem imposta pela pandemia, Bale fez apenas mais dois jogos pelo Real Madrid, e acabou a época 2019/20 fora dos convocados para a segunda mão dos oitavos de final da Champions com o Manchester City, em agosto. Porque, segundo disse na altura Zidane, «preferiu não jogar».

As «cicatrizes» no Tottenham, com Mourinho

Bale e o Real Madrid precisavam de uma saída e ela chegou com o regresso a casa. Para 2020/21, o galês foi cedido ao Tottenham, por empréstimo. José Mourinho recebeu um jogador que, disse, trazia «cicatrizes» psicológicas. Mas em Londres Bale não deixou os problemas para trás das costas. Embora tenha tido bons períodos, voltou a ter vários problemas com lesões, numa temporada em que foi titular em apenas 10 jogos na Premier League. Em março de 2021 assumiu que iria voltar a Madrid no final da época e despediu-se com boas sensações, já depois da saída de Mourinho, a bisar na vitória sobre o Leicester que apurou os Spurs para a Conference League. Deixou Londres com 16 golos marcados em 34 jogos e à chegada ao Bernabéu tinha de novo Carlo Ancelotti para o receber. Começou a temporada 2021/22 a jogar, mas ao fim de três partidas voltou a parar. Lesões, regressos, covid, tudo com o mesmo resultado: Bale longe da vista e dos corações, cada vez menos relevante no Bernabéu. Entre agosto e fevereiro, esteve seis meses sem jogar.

A resposta do «parasita»

O último episódio aconteceu em março deste ano. Bale ficou de fora das opções do Real Madrid na pesada derrota caseira com o Barcelona (0-4), por não se sentir apto, segundo disse Ancelotti. Mas quatro dias mais tarde não só jogou como marcou dois golos na vitória sobre a Áustria que pôs a seleção de Gales na final do play-off de acesso ao Mundial 2022. Desta vez, Bale reagiu às críticas da imprensa espanhola, depois de um texto nas colunas do jornal Marca que lhe chamava «parasita». Nas redes sociais, criticou a agressividade dos media, dizendo que ele próprio já «desenvolveu uma carapaça», mas alertando para as consequências da pressão mediática: «Já presenciei a forma como os media podem afetar a saúde física e mental das pessoas». Duas semanas mais tarde, Bale voltava a jogar no Bernabéu pela primeira vez em quase dois anos. E sim, os assobios das bancadas repetiram-se, como de costume intercalados por alguns aplausos a tentar fazer contravapor às críticas. Conciliador, Ancelotti foi dizendo que compreendia os adeptos, mas que precisava de todos para a reta final da época e garantia que Bale é «um profissional sério».

Um final por definir

Mas Bale não voltou a entrar em campo desde então. Tudo somado, tem mais minutos esta época em cinco jogos pela seleção de Gales do que com a camisola do Real Madrid. Voltou a ser notícia pela aparente indiferença em relação à equipa, por exemplo na forma como não festejou a reviravolta em Sevilha que encaminhou de vez o Real para o título. Ou pelo facto de não ter sequer estado no estádio para o jogo com o Espanhol que garantiu matematicamente a conquista do campeonato. Há um mês, Ancelotti dizia que Gareth Bale «tem um lugar na história do clube pelos títulos e golos» que somou. Falando de troféus, isso é indesmentível. Ganhou ao todo 14 títulos e marcou golos decisivos, ele que sempre teve mais propensão para os grandes jogos. Com 258 jogos e 106 golos marcados pelo Real Madrid, Bale ainda não anunciou o seu futuro. Para já, faltam algumas semanas para terminar o contrato com o Real Madrid. E em junho há o próximo e talvez último grande objetivo de carreira de Bale, a final do play-off de acesso ao Mundial. Gales. Madrid. Por esta ordem.

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