Sede do PSOE recebeu agentes da Guardia Civil esta manhã numa investigação sobre corrupção e obstrução à justica - mais um caso que parece beliscar o presidente do governo espanhol
Os agentes da Unidade Operacional Central (UCO) da Guarda Civil apareceram na sede do Partido Socialista Espanhol (PSOE), em Madrid, esta quarta-feira de manhã, para solicitar vários documentos relacionados com "uma conspiração para desestabilizar processos judiciais que afetam o partido ou o governo".
No centro da investigação está Maria Leire Díez, ex-militante do PSOE, envolvida num esquema criminoso para interferir na atividade da direção da Unidade Operacional Central (UCO) da Guarda Civil e da Procuradoria Anticorrupção, com o objetivo de obstruir e minar investigações judiciais envolvendo políticos ligados aos PSOE, como o caso Begoña Gómez, o caso Koldo e o processo contra o irmão de Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol.
O juiz do Tribunal Nacional, Santiago Pedraz, acredita que o ex-secretário de Organização do PSOE, Santos Cerdán, era o alegado líder da rede coordenada por Leire Díez e que "disponibilizou a própria estrutura do Partido Socialista à organização criminosa", acrescentando que o partido "arcou com os custos da atividade desde o início" e "permitiu que os seus funcionários fossem utilizados para funções administrativas".
O juiz coloca no centro da rede o empresário Javier Pérez Dolset e o ex-líder socialista Gaspar Zarrías, que terá levado a cabo "uma série de ações com o objetivo de desestabilizar processos judiciais que afetam o PSOE ou o governo".
Esta não é a primeira investigação sobre Maria Leire Díez, que fez também parte de um alegado esquema de corrupção que terá funcionado entre 2021 e 2023, envolvendo ainda Vicente Fernández Guerrero, o antigo presidente da SEPI, e o empresário basco Antxon Alonso, proprietário da empresa Servinabar: todos eles foram detidos em dezembro e são suspeitos de ter criado uma estrutura destinada à manipulação de contratos públicos e à cobrança de comissões ilegais, com o apoio de “diversos detentores de cargos públicos”.
O que se sabe sobre esta obstrução à justiça?
Maria Leire Díez reunia-se com procuradores, agentes da Guarda Civil e advogados, a quem oferecia promoções, favores judiciais ou outras vantagens em troca de informações. Díez negou ter agido por conta de qualquer dirigente da cúpula socialista e explicou que estava a fazer investigação para um livro sobre a fraude no seio da UCO.
Mas o juiz tem uma versão diferente desta história e afirma ter provas de que o PSOE (através de alguns dos seus militantes) fez pagamentos a Maria Leire Díez e a outras pessoas num alegado esquema para obstruir determinados processos judiciais. Tudo terá começado nos primeiros meses de 2024 e ter-se-á prolongado até maio de 2025.
Estes pagamentos terão sido feitos a mando do ex-secretário de Organização do PSOE, Santos Cerdán, que foi o número dois de Pedro Sánchez no partido de 2021 a 2025, e que é acusado de manter a “unidade de ação e direção” da alegada rede de corrupção.
Existem ainda outros pagamentos, feitos a outras pessoas e entidades. E foram também detetadas várias irregularidades nas contas do partido.
Esta quarta-feira o juiz indiciou mais uma mão cheia de suspeitos e autorizou buscas em algumas residências. Além de Leire Díez e Santos Cerdán, entre os investigados estão dirigentes de topo do partido, como a atual diretora de gestão do PSOE, Ana Fuentes, que é acusada de falsificar faturas para ocultar pagamentos a Leire Díez. O juiz considerou que existem indícios da sua "responsabilidade", "pelo menos como cúmplice na
De acordo com os jornais espanhois, o caso, que permanece sob sigilo, investiga crimes de organização criminosa, suborno, divulgação de segredos, indução a falso testemunho, falsa acusação, falsificação de documentos comerciais, prevaricação, tráfico de influência e crimes contra instituições estatais.
Pedro Sánchez está envolvido neste caso?
Não diretamente, por agora.
O juiz do Tribunal Nacional, Santiago Pedraz, afirma que a atividade criminosa levada a cabo por Santos Cerdán e Leire Díez começou depois da acusação contra a mulher do primeiro-ministro, Begoña Gómez. A primeira reunião dos militantes envolvidos neste caso aconteceu a 26 de abril de 2024, durante o período de reflexão determinado por Pedro Sánchez após a abertura do processo-crime.
No processo, o juiz Pedraz transcreve as mensagens de Leire Díez que indicam que Pedro Sánchez tinha conhecimento das suas atividades. No entanto, nada foi provado e Sánchez não está a ser investigado.
Quais foram as principais reações em Espanha?
Montse Mínguez, porta-voz do PSOE, procurou transmitir uma mensagem de "calma" e cooperação durante uma entrevista à Rádio Catalunha: "O Partido Socialista é diferente do PP, e já o demonstrámos em muitas ocasiões. Não há aqui destruição de provas. Por isso, todas as informações solicitadas serão fornecidas", afirmou.
Minutos depois de a operação se ter tornado pública, o líder da oposição, Alberto Núñez Feijóo, reiterou o seu apelo por eleições antecipadas. "A situação é de agonia política, o ambiente é irrespirável. Estamos a questionar a decência não só do governo, não só do PSOE, mas agora começamos a enfrentar o risco de contágio", disse o líder do PP no plenário do Congresso.
O ministro da Economia, Carlos Cuerpo, defendeu uma política de "tolerância zero" em relação a qualquer "atitude ou comportamento irregular ou ilegal", e, na mesma linha, defendeu o "respeito pelos processos judiciais e a presunção de inocência".
Como reagiu o presidente do governo espanhol?
Instado a reagir ao caso, Pedro Sánchez prometeu "total cooperação com o sistema judicial" e afirmou que não tem qualquer intenção de renunciar ou convocar eleições. "Não comprometem de forma alguma o que o governo e as forças progressistas estão a fazer para promover o progresso e as conquistas sociais. É isso que continuaremos a fazer até ao final deste mandato, sem diminuir a importância das investigações", disse. “Não posso convocar eleições por interesse partidário, o importante é o interesse geral dos cidadãos”.
Sánchez recordou que muitas das informações sobre estes casos já eram públicas e a principal suspeita já foi expulsa do partido. "Estamos a falar da ex-militante Leire. As decisões a seu respeito foram tomadas imediatamente quando o caso veio a público, há mais de um ano. A justiça é lenta. Vamos respeitar isso. O PSOE está empenhado em cooperar e garantir que, se surgirem novas irregularidades, agiremos com a mesma firmeza", declarou em resposta às perguntas dos jornalistas.
De recordar que todo este caso surge depois da investigação a José Luis Rodríguez Zapatero, antigo primeiro-ministro de Espanha, também ele do PSOE.
