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"Traidor. Demissão. Revolução!" Dezenas de milhares protestam em Madrid contra o governo de Pedro Sánchez

8 jun 2025, 18:30

PSOE atravessa sucessão de casos de corrupção envolvendo governo, partido e família do primeiro-ministro. A direita tradicional de Feijóo organizou o protesto e pede já novas eleições, porém, também a contas com escândalos e suspeições, pode ser até mais a extrema-direita (da família política do Chega) do Vox e de Abascal, e não o PP, a beneficiar de uma ida às urnas

A Praça de Espanha, no centro de Madrid, no final da Gran Vía, uma das principais avenidas da cidade, foi tomada este domingo por uma multidão que exigia eleições antecipadas e o fim do governo liderado por Pedro Sánchez. Entre cartazes que chamavam “traidor” ao primeiro-ministro e apelos à demissão do executivo, o ambiente era mais do que de contestação — era de ruptura.

A mobilização, convocada pelo conservador Partido Popular (PP) sob o lema “máfia ou democracia”, terá reunido entre 45 mil e 50 mil pessoas, segundo dados da delegação do governo central na região. Os organizadores, por sua vez, falam em mais de 100 mil.

O pano de fundo é denso e persistente: ao longo do último ano, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o executivo e até o núcleo familiar de Sánchez têm sido alvo de sucessivas suspeitas de corrupção — numa espiral que a oposição explora e que agora parece ter encontrado eco nas ruas.

Nos últimos dias, a pressão adensou-se. Leire Díaz, ex-militante do PSOE, foi apanhada em gravações onde supostamente oferecia favores judiciais em troca de informação comprometedora sobre altos quadros da Guardia Civil — a mesma unidade que investiga a mulher do primeiro-ministro, Begoña Gómez, o irmão, David Sánchez, e o antigo ministro dos Transportes, José Luis Ábalos. Díaz demitiu-se e negou agir em nome do partido ou de Sánchez, alegando estar apenas a fazer pesquisa para um livro sobre corrupção.

"Queremos votar, porque ninguém votou nisto"

Na praça fervente, ao meio-dia, Alberto Núñez Feijóo, líder do PP, subiu o tom: “Espanha precisa de uma revolução de decência e liberdade — e seremos nós a liderá-la, nas ruas e nas urnas”, afirmou, em discurso inflamado. “Sánchez, pare de se esconder, de mentir e de fugir. Espanha já sabe quem é e o que fez. Submeta-se à democracia. Convoque eleições: queremos votar, porque ninguém votou nisto — nem sequer os seus.”

Sánchez, por sua vez, tem acusado adversários políticos e mediáticos de conduzirem uma “operação de assédio e demolição” contra si e a mulher. Alega que as acusações são infundadas e têm um único propósito: provocar o seu colapso pessoal e político.

A investigação a Begoña Gómez nasceu de uma queixa da associação Manos Limpias (Mãos Limpas), um grupo com ligações à extrema-direita e histórico de recorrer aos tribunais para atingir alvos políticos. Acusam-na de usar a sua posição como mulher do primeiro-ministro para conseguir patrocínios para um curso de mestrado universitário que coordenava. Sánchez classificou o processo como uma “encenação grotesca”, orquestrada por “forças radicais”.

David Sánchez, o irmão, enfrenta também um processo por alegado tráfico de influências, igualmente originado em denúncias de Manos Limpias e outras entidades. David  nega todas as acusações.

Já o antigo ministro Ábalos — outrora aliado próximo do primeiro-ministro — viu o seu nome arrastado para a lama quando, no ano passado, se soube que um seu assessor fora detido por suspeitas de receber pagamentos em troca de facilitar contratos de máscaras durante a pandemia.

Mas nem o PP, que agora pede uma “revolução”, escapa ileso à maré de suspeição. O partido, que perdeu o poder há sete anos precisamente devido a escândalos de corrupção, está novamente sob escrutínio. Um dos focos é a gestão das inundações mortais em Valência, região que governa. Outro é a actuação durante os primeiros meses da pandemia em lares de idosos na Comunidade de Madrid, onde morreram mais de 7.200 pessoas.

Isabel Díaz Ayuso, presidente regional de Madrid e uma das vozes mais agressivas contra Sánchez, continua a ser questionada sobre os protocolos seguidos nos lares e viu ainda a sua vida privada atravessar o debate público. O companheiro, Alberto González Amador, está a ser investigado por vários crimes — incluindo duas acusações de fraude fiscal e uma de falsificação documental relacionadas com comissões recebidas numa empresa que importava máscaras. Ayuso alega que ele está a ser alvo de uma perseguição movida por “todos os poderes do Estado” apenas por ser seu parceiro. Um membro do seu governo lembrou recentemente que “a presunção de inocência deve ser respeitada”.

Do lado do executivo, a estratégia parece ser a de desvalorizar o protesto. O ministro dos Transportes, Óscar Puente, partilhou imagens aéreas da praça para mostrar que não estaria cheia. Já Óscar López, ministro da Transformação Digital, acusou o PP de orquestrar uma manifestação para esconder o fraco desempenho de Feijóo e os problemas judiciais de Ayuso.

“Estão mesmo nervosos”, escreveu López na rede X. “Encheram a Praça de Espanha de insultos, mas não de gente. Enquanto eles lançam lama, nós seguimos em frente.”

Extrema-direita à espera dos derrotados

É no ruído da praça e nas fissuras do sistema que o Vox (da família política do Chega) floresce. Quando o centro se enreda em casos, suspeitas, escândalos — e a direita tradicional se mostra mais ocupada a limpar os estilhaços do que a propor —, a extrema-direita observa, cresce, espera. Uma antecipação eleitoral em Espanha, neste momento, teria mais do que um derrotado. Mas talvez só um verdadeiro vencedor.

O Vox, partido que começou por ser nota dissonante no parlamento e hoje se apresenta como batuta da ordem e da “Espanha una”, poderá ser o maior beneficiado de um regresso às urnas. Alimenta-se do desgaste do PSOE, da fragmentação do PP e da raiva que alastra — nas ruas, nas redes, nas conversas de bar onde já não se fala de esquerda e direita, mas de “eles” e “nós”.

Para uma parte do eleitorado, Sánchez já não é apenas um político — é um símbolo a abater. Para outra, Feijóo já não representa alternativa — é um eco gasto. Entre os dois, o Vox surge como grito de guerra, solução simples para tempos embaraçosamente complexos.

E se há coisa que o partido de Santiago Abascal sabe fazer, é capitalizar o caos. É por isso que, num cenário de eleições antecipadas, quem mais pode ganhar não é quem governa nem quem protesta. É quem aguarda — punho fechado, discurso afiado, bandeira hasteada — pelo colapso de ambos.

Mas Santiago Abascal já não quer só protestos; quer um país “ingovernável”. Antecipando a manifestação deste domingo em Madrid, o líder do Vox deixou cair o verniz institucional e empurrou o Partido Popular para o abismo da ruptura total. Segundo Abascal, já não basta apenas criticar Pedro Sánchez nem convocar multidões: é preciso sabotar os acordos que o PP tem com o PSOE, travar nomeações no Tribunal Constitucional, cortar pontes em Bruxelas e minar o sistema até que o Governo caia. O que Abascal propõe é um cerco prolongado à democracia tal como ela existe, até que ela ceda ao peso da sua própria paralisia.

Num discurso inflamado, o líder da extrema-direita apelou a uma desobediência política generalizada: que se esvaziem instituições, que se negue legitimidade a um executivo eleito, que se erga um país contra o seu primeiro-ministro. Não é apenas uma crítica, é uma estratégia de desgaste total. 

Para Abascal, quanto mais caótica (ou como ele mesmo diz, “ingobernable”) for a Espanha de Sánchez, mais urgente se torna a sua própria ascensão. E quanto mais hesitar Feijóo, mais o Vox se alimenta da ideia de que só a dureza serve. Não se trata de governar — trata-se, agora, de impedir que mais alguém o faça.

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