Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

O irmão, a mulher e o antecessor. Tudo sobre os casos de corrupção que ameaçam o governo Sánchez

CNN Portugal , JAV
28 mai, 18:24
Pedro Sánchez (AP)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Chefe do governo espanhol defende a idoneidade das pessoas que lhe são próximas, mas os problemas estão só a começar – e os três casos não foram os únicos a abalar o atual executivo socialista no último ano. Quando falta um ano para as próximas eleições legislativas em Espanha, oposição exige a demissão imediata de Pedro Sánchez, que fala na instrumentalização do judiciário

O verão ainda não começou mas já está a provar-se muito desafiante para Pedro Sánchez, líder do governo do PSOE em Espanha há oito anos. Em causa estão processos de investigação em curso a várias pessoas próximas do primeiro-ministro espanhol por suspeitas de corrupção, incluindo a sua mulher e o seu irmão, bem como o seu antecessor socialista, José Luis Rodríguez Zapatero, que esteve à frente do executivo espanhol entre 2004 e 2011. E não são os únicos

Os potenciais problemas são muitos, a cerca de um ano das próximas eleições legislativas em Espanha. Nas próximas semanas e meses, cada um dos casos será analisado pela justiça, depois de, há dois dias, a polícia espanhola ter apreendido joias no valor de entre 30 mil e 50 mil euros num cofre durante buscas à residência de Zapatero. Ontem, foram feitas buscas à sede do PSOE no âmbito de um outro caso a envolver suspeitas de corrupção.

Eis tudo o que já se sabe sobre os processos a envolver o PSOE.

Que suspeitas recaem sobre o irmão de Sánchez?

O caso que envolve David Sánchez Pérez-Castejón, o irmão mais novo do primeiro-ministro, foi movido por suspeitas de tráfico de influência e abuso de poder, após uma denúncia apresentada pelo Manos Limpas (Mãos Limpas), uma organização com ligações à extrema-direita que, segundo os media, tem um longo historial de recorrer aos tribunais para processar aqueles que considera uma ameaça aos interesses do país. Outras dez pessoas enfrentam as mesmas acusações que David Sánchez.

David Sánchez (ao centro) e Miguel Ángel Gallardo, ex-líder do PSOE na Extremadura (esquerda), foram presentes esta quinta-feira a um juiz do Tribunal Provincial de Badajoz. foto Andres Ballesteros/EFE pool/AFP via Getty Images

Segundo a denúncia do Manos Limpas, o irmão mais novo de Pedro Sánchez terá sido nomeado para um cargo na autarquia socialista de Badajoz em julho de 2017, quando o seu irmão mais velho era então o secretário-geral nacional do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), mas ainda não primeiro-ministro.

David Sánchez, que nega todas as acusações, enfrenta até três anos de prisão se for declarado culpado. O julgamento de Sánchez e de Miguel Ángel Gallardo, ex-líder do PSOE na Extremadura, começou esta quinta-feira no Tribunal Provincial de Badajoz. Ambos foram presentes ao juiz para responder às acusações.

E sobre a mulher do primeiro-ministro?

Como o cunhado, Begoña Gómez também está a ser investigada na sequência de uma denúncia da Manos Limpas. No mês passado, ao final de uma investigação de dois anos, um juiz de Madrid acusou formalmente a mulher de Pedro Sánchez de peculato, tráfico de influência, corrupção e apropriação indevida de fundos.

Sánchez fotografado com a mulher numa visita à China em abril deste ano. foto Andres Martinez Casares/Pool via AP

Gómez é suspeita de ter usado a sua influência enquanto mulher do chefe do governo para obter um cargo na Universidade Complutense de Madrid, bem como de usar recursos públicos e ligações pessoais para promover outros interesses privados. A par dela, e no âmbito do mesmo processo, o juiz Juan Carlos Peinado também acusou formalmente a sua assistente pessoal, Cristina Álvarez, e o empresário Juan Carlos Barrabés.

O processo a envolver Zapatero está relacionado com algum destes casos?

Não. O antigo primeiro-ministro socialista, cujas suspeitas de corrupção fizeram manchetes nos últimos dias dentro e fora de Espanha, está a ser investigado por alegado tráfico de influência e outros crimes, alegados crimes que remontam a 2021 e que, este mês, levaram um juiz a acusar formalmente Zapatero.

Ainda uma figura influente e emblemática para o centro-esquerda espanhol, o político socialista é acusado de supervisionar “uma estrutura hierárquica de tráfico de influência” com o objetivo de “obter benefícios económicos por meio de intermediação e do exercício de influência perante órgãos públicos a favor de terceiros”, disse o juiz de instrução – “principalmente a Plus Ultra”.

O caso contra o antigo líder espanhol foi aberto no âmbito de um inquérito ao resgate estatal dessa companhia aérea, no valor de 53 milhões de euros, executado em março de 2021. A procuradoria está a investigar se a empresa fez “uso inadequado” dos fundos públicos que o governo recebeu para pagar o resgate. A polícia anticorrupção, por sua vez, está a examinar se a Plus Ultra usou o dinheiro desse mesmo resgate para lavar dinheiro da Venezuela através de contas em Espanha, França e na Suíça.

Em declarações aos jornalistas, Zapatero rejeitou todas as acusações e disse que está disponível para colaborar totalmente com a investigação. “Gostaria de reafirmar que toda a minha atividade, pública e privada, sempre foi conduzida com absoluto respeito pela lei”, disse na semana passada, garantindo que nunca realizou “qualquer ação” relacionada com o resgate da companhia aérea espanhola em questão.

Zapatero, então chefe do governo espanhol, fotografado com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em 2018, em Caracas. foto Ariana Cubillos/AP

Estes são os únicos casos a manchar o governo Sánchez?

Não. Há precisamente um ano, em junho do ano passado, um caso a envolver o braço-direito do primeiro-ministro, Santos Cérdan, então secretário de organização do PSOE, levou Sánchez a ordenar a sua renúncia. Em causa esteve um processo do Supremo Tribunal envolvendo “indícios sólidos” do possível envolvimento de Cérdan num caso de “luvas”, sendo suspeito de ter recebido dinheiro em contratos de obras públicas. Cerdán continua a rejeitar as acusações.

Este caso está ligado ao de outros dois homens, ambos outrora próximos de Pedro Sánchez – José Luis Ábalos, ex-ministro dos Transportes, e o antigo assessor deste, Koldo García. Os dois homens, a par do empresário Victor de Aldama, são suspeitos de terem recebido pagamentos indevidos em contratos públicos para equipamentos sanitários durante a pandemia de Covid-19. 

Ábalos e García negam qualquer irregularidade, enfrentando uma pena máxima de 24 anos e 19 anos, respetivamente, caso sejam declarados culpados. Aldama, por sua vez, já admitiu a sua participação no alegado esquema de corrupção e enfrenta uma pena de até sete anos de prisão.

Na quarta-feira, uma equipa da polícia anticorrupção que investiga uma alegada conspiração para desestabilizar processos judiciais contra o PSOE e o próprio governo fizeram buscas à sede do partido em Madrid, com o juiz responsável pelo processo a afirmar que Cerdán está entre os investigados pelos possíveis crimes – entre eles abuso de poder, tráfico de influência, suborno e indução de falso testemunho.

Há mais alguma suspeita a envolver figuras do PSOE?

Sim. Em novembro passado, Álvaro García Ortiz, que era o procurador-geral de Espanha desde 2022, foi afastado do cargo após ter sido declarado culpado de passar informações confidenciais à imprensa sobre um caso fiscal a envolver um empresário que namora com uma proeminente figura de direita, Isabel Díaz Ayuso, líder do Partido Popular (PP) na região de Madrid. Ortiz foi multado em 7.300 euros e condenado a pagar uma indemnização de 10 mil euros ao empresário Alberto González Amador, companheiro de Ayuso.

O ex-procurador-geral insiste que não passou quaisquer informações, com a sua defesa a alegar que não havia “absolutamente prova nenhuma” de que fosse ele a fonte da delação. Jornalistas chamados a depor em tribunal também negaram que Ortiz lhes tivesse fornecido quaisquer dados sobre o caso. 

A saga deferiu um duro golpe para Pedro Sánchez, que foi quem indicou García Ortiz para liderar a procuradoria-geral.

Álvaro García Ortiz foi forçado por Sánchez a renunciar ao cargo de procurador-geral de Espanha ao final de dois anos, após ter sido condenado por passar informações confidenciais à imprensa sobre um processo a envolver o companheiro de uma figura de renome do PP. foto Jesus Hellin/Europa Press via Getty Images

Como é que o primeiro-ministro espanhol reagiu aos casos?

Em abril de 2024, quando foi noticiado pela primeira vez que a sua mulher estava a ser investigada por tráfico de influência e outros crimes, Pedro Sánchez cancelou toda a sua agenda pública para os cinco dias seguintes para “refletir” sobre o seu futuro político. Quando voltou à tona, acusou os seus inimigos políticos e os media de terem lançado uma “operação de assédio e intimidação” contra a sua família, anunciando que pretendia permanecer no cargo.

Segundo Sánchez, quer Begoña Gómez quer o seu irmão mais novo estão a ser vítimas de campanhas difamatórias com motivação política. “No final, a verdade virá ao de cima”, declarou em setembro do ano passado numa entrevista televisiva. “O meu irmão e a minha esposa são inocentes.” O chefe do governo também questionou abertamente a independência do ramo judiciário, dizendo que “não há dúvida de que existem juízes a fazer política e políticos a tentar fazer justiça.”

Já esta semana, Sánchez também saiu em defesa do seu antecessor político, afirmando que não tem “nenhum motivo” para retirar o seu apoio a Zapatero e voltando a rejeitar convocar eleições antecipadas, sob o argumento de que Espanha precisa de “estabilidade”.

Num comunicado divulgado esta semana após buscas à sua sede, o partido no poder disse que “manterá sempre uma posição de máxima colaboração com o sistema judiciário e de absoluto respeito pelas ações judiciais”.

O que diz a oposição?

Perante o mais recente capítulo das polémicas a envolver o governo, os opositores estão a exigir que as eleições legislativas do próximo ano sejam antecipadas. “A única opção que resta é deixar o povo espanhol pronunciar-se agora”, disse ontem Alberto Nuñez Feijóo, líder do PP, o principal partido da oposição. “Não podemos tolerar mais isto.”

Santiago Abascal, líder do partido de extrema-direita Vox, foi um passo mais longe, exigindo que os suspeitos sejam detidos e julgados. “Não passa uma semana, um dia, uma hora sem que surjam  novos detalhes sobre a máfia que governa Espanha. Têm de ser detidos e levados à Justiça.”

O que acontece a seguir?

A próxima audiência judicial já agendada para 9 de junho envolve a mulher de Sánchez, Begoña Gómez, que será presente ao juiz Peinado para uma audiência preliminar.

Também em junho, Zapatero será presente à Audiência Nacional, o mais alto tribunal criminal do país, para prestar depoimento. A audiência está marcada para os dias 17 e 18 de junho.

Já o irmão mais novo de Pedro Sánchez teve esta quinta-feira a sua audiência preliminar em Badajoz, para responder pelas suspeitas do crime de tráfico de influência relacionadas com a sua nomeação para um cargo na autarquia da cidade, controlada pelo PSOE.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa