O que dizem os espanhóis sobre o gasoduto ibérico para a Europa

13 ago, 11:29
Pedro Sanchez e Olaf Scholz

Impulso dado pela Alemanha foi aproveitado pelo governo de Madrid que já fez as contas e diz que o projeto, que pode diminuir substancialmente a dependência energética russa da Europa, ronda os 370 milhões de euros

O chanceler alemão, Olaf Scholz, pediu uma nova rota de transporte de gás para a Europa e Lisboa e Madrid não tardaram a mostrar o seu apoio. Se em Portugal já se prevê que o projeto, um novo gasoduto de 162 quilómetros entre Celorico da Beira e Vilar de Frades, demore 30 meses a ser construído, em Espanha a vontade é ter uma infraestrutura pronta em oito ou nove meses na costa catalã. Mas, no meio disto, é preciso desbloquear um obstáculo chamado Paris.

Esta sexta-feira, a terceira Vice-Presidente do governo espanhol e ministra da Transição Ecológica, Teresa Ribera, indicou que a atual situação de “emergência energética” reanimou o projeto do gasoduto Midcat entre Espanha e França, que passaria pelos Pirenéus catalães e que estava na gaveta há anos. "A interligação poderá estar operacional dentro de oito ou nove meses na fronteira sul", garantiu a ministra um dia após Olaf Scholz ter proposto a construção de uma infraestrutura para importar gás da Península Ibérica como alternativa aos abastecimentos russos.

No entanto, o governo de Madrid esclareceu que o timing para a criação das infraestruturas refere-se apenas às operações no lado sul dos Pirenéus, não contemplando o tempo que o governo de Macron demoraria, eventualmente, a construir as instalações que tornariam viável o abastecimento para chegar ao resto da Europa. O chamado Midcat, cujas linhas básicas foram traçadas há uma década, acabou por não sair do papel devido a uma falta de interesse tanto por parte de França como de Espanha, que reclamaram custos elevados e baixa rentabilidade, deixando o projecto morrer.

Também por causa disso, a ministra Teresa Ribera defendeu, na sexta-feira, que o gasoduto deve ser considerado um projeto europeu e receber financiamento de Bruxelas e acrescentou que já houve conversações "solitárias" mas de "alto nível" entre Madrid e Paris para estudar o projeto. Berlim foi também convidada para participar nestas análises.

Ao jornal El País, fontes da Enagás, o gestor do sistema de gás espanhol, explicam que o custo do projecto seria de cerca de 370 milhões de euros e confirmam os prazos do governo de Pedro Sánchez de que seriam necessários entre oito e nove meses de trabalho para completar as infraestruturas no lado ocidental dos Pirinéus.

A ir para frente, o novo gasoduto seria uma solução para Espanha reforçar as suas escassas interconexões de gás - há apenas um gasoduto duplo para França através do País Basco, com uma capacidade anual de 7 bcm (mil milhões de metros cúbicos de gás). Do governo Espanhol há também a possibilidade de instalar "um compressor adicional" para aumentar essa capacidade em 20-30%. Por outro lado, o país tem uma grande capacidade de regaseificação, a maior da Europa, sendo que pode importar e regaseificar 60 bcm por ano graças aos seus seis terminais de regaseificação. 

O fantasma deste novo gasoduto está enterrado em Hostalric, uma aldeia com pouco mais de 4.000 habitantes a meio caminho entre Barcelona e Girona e a conclusão desta nova infraestrutura vai implicar a colocação de 106 quilómetros de tubagem até La Jonquera e depois mais 120 quilómetros de El Pertús até à cidade de Barbaira, ao lado de Carcassonne. Os elevados custos de instalação de uma conduta de 90 centímetros de diâmetro enterrada a mais de meio metro de profundidade foram uma das principais razões que levaram à paralisação do projeto em 2019.

Foi em França que o projecto encontrou mais obstáculos. O regulador espanhol também os levantou, entre outros problemas, porque, para que o gás chegue à Europa Central a partir de Espanha, a rede francesa de gasodutos deveria primeiro ser reforçada. Como o plano REPowerEU indica, a forma como o combustível é tratado em Espanha e França para o transporte (é odorizado, ou seja, adiciona-se um odor forte como medida de segurança) requer uma "unidade de desodorização para permitir o fluxo de gás de oeste para leste".

O reforço da rede francesa acabou por inviabilizar o projecto ao torná-lo muito caro, um custo que também foi parcialmente suportado pela Espanha. Isto significou que quando o regulador espanhol realizou um inquérito obrigatório para ver se havia procura suficiente entre as companhias de gás, encontrou pouco entusiasmo. Mas os tempos eram outros e Moscovo continuava a ser solução na altura. Consciente destas circunstâncias, fonte oficial da União Europeia disse ao jornal El Mundo que o projeto “não vai avançar sem o apoio do público, e é por isso que existe agora um momentum".

Com a iniciativa da Alemanha, Espanha poderia aumentar a sua capacidade de exportação de gás para o resto da UE em 30%. Actualmente, o país está praticamente isolado dos seus parceiros comunitários, apesar de ser a principal porta de entrada do gás da Argélia e Marrocos e o país com mais instalações de regaseificação da União. O seu alcance é limitado nos Pirenéus, uma vez que só está ligado à França por dois oleodutos de alcance mínimo. Os contactos entre os dois executivos para desvendar o debate intensificaram-se nos últimos meses, devido à guerra na Ucrânia. Por enquanto, no entanto, o Eliseu permaneceu em silêncio sobre a proposta alemã.

Macron crê que novo gasoduto pode entrar em conflito com transição energética

Sem o apoio de França, contudo, a ambição ibérica de se tornar a principal porta de entrada de energia da UE desvanece. Paris sempre se mostrou relutante em construir um gasoduto com Espanha, considerando que esse projeto representa um contraciclo à transição ecológica e que a iniciativa gera rejeição nas cidades fronteiriças que acolheriam as infraestruturas. O próprio Presidente Emmanuel Macron exprimiu publicamente a sua rejeição em 2018, citando a sua inviabilidade económica. A opção preferida dos gauleses para as interconexões elétricas é transportar gás natural liquefeito por navio para outros portos europeus e de lá por gasoduto para países sem litoral. 

O ponto-chave para o qual a Comissão Europeia aponta agora é que a infraestrutura deva servir também para transportar hidrogénio verde, uma fonte de energia na qual Portugal e Espanha veem um grande potencial, razão pela qual o primeiro-ministro português António Costa aplaudiu as palavras de Scholz. A médio prazo, espera-se que a utilização desta fonte se torne generalizada como matéria prima e fonte de calor em indústrias como a química, mas também a da mobilidade, para uso residencial e como combustível. A Europa estima que até 2050, 25% da energia seja produzida através de hidrogénio limpo.

Até ao momento, contudo, a Comissão Europeia tem evitado comentar a iniciativa de Olaf Scholz, mas tem vindo a dar umas pistas sobre aquilo que se discute em Bruxelas. "Apoiamos e encorajamos as autoridades em França e Espanha a acelerar a implementação dos três projectos em curso destinados a aumentar a capacidade de interconexões entre a Península Ibérica e França", disse um porta-voz da UE ao El Mundo. O plano energético que o executivo europeu apresentou em Maio, baptizado Repower Europe, já exalta as interligações entre os estados membros como uma das bandeiras para soltar o jugo da dependência energética em relação à Rússia.

Benefício é maior para o centro da Europa do que para Portugal

Já este sábado, em entrevista ao jornal Público, Jorge Moreira da Silva, que fez parte das negociações para a criação de um corredor energético para ligar Lisboa ao resto da Europa quando foi ministro do Ambiente entre 2013 e 2015, revela que já em 2014 tinha sido assinado um acordo para reforçar as interligações de eletricidade e gás na Península Ibérica para que a Europa pudesse beneficiar destas ligações, mas estas intenções nunca saíram do papel. O antigo ministro clarifica que a “interligação de gás entre Espanha, França e centro da Europa tem benefício principalmente para os países do centro da Europa — não para Portugal”.

Por causa dessa balança de vantagens, Moreira da Silva diz que, à semelhança da ministra espanhola Teresa Ribera, deve ser a Europa a pagar o gasoduto. Ainda assim, o antigo ministro afirme que o projeto “permitiria reduzir custos para os consumidores portugueses” e criar condições para que Portugal “possa vir a ser fornecedor de hidrogénio verde para Europa”. 
 

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