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Jornalista nascido em Madrid de mãe portuguesa. Comentador da CNN Portugal e correspondente do canal espanhol La Sexta.

Os bons, os vilões e o emplastro

20 jul, 21:35
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‘La Roja’ manteve o sangue-frio e o civismo, sem protestos nem reações proporcionais à pancadaria e as inúmeras manhas da Argentina, a pior seleção da história numa final. Os jogadores de Luis de la Fuente não só foram os que mais rápido fizeram circular a bola, os que melhor souberam anular os rivais. Também foram os campeões do desportivismo, do saber estar e do bom senso

A Espanha - e, talvez ainda mais, a Inglaterra e o Brasil - é um país feliz com o desfecho do mundial de futebol. Acho que não me engano quando digo que o mundo inteiro, com a exceção da Argentina, respira melhor graças à vitória dos espanhóis - e, sobretudo, à derrota dos alvicelestes.

A Argentina de Scaloni foi uma equipa que não quis jogar à bola, que não tentou marcar golos, que fez tudo para arrastar o jogo até aos penáltis. Não só desprezou o futebol e as regras da modalidade com rasteiras, mãos e puxões muitas vezes ignorados pelos árbitros nos 120 minutos que durou a partida. O jogo sujo continuou nas celebrações, quando os derrotados viraram as costas para não ter de ver a Espanha a levantar o troféu. Muito piores ainda foram as várias ações, vergonhosamente violentas, protagonizadas por alguns jogadores (nomeadamente Nahuel Molina e Leandro Paredes, que já tinha destacado pela abundância de porrada neste jogo e nos anteriores). Mas não só: um membro da equipa técnica, Roberto ‘Ratón’ Ayala, esmurrou Dani Olmo, o camisola 10 espanhol, sem qualquer motivo.

Há vídeos e fotos que comprovam a falta de nobreza de boa parte da equipa argentina. Paredes é reincidente, porque também foi dos futebolistas mais violentos e manhosos no mundial de Catar (sugiro ver o resumo do Argentina-Países Baixos em 2022). Nicolás Otamendi, o mesmo que encobriu Gianluca Prestianni nos insultos racistas a Vinícius Júnior no inverno passado, chamou chorão a Rodri, o melhor jogador do mundial, acusando-o de ter falado dos árbitros dias antes da final. Mal? Bem? Ninguém sabe. Pura frustração e mau perder.

A verdade é que, horas antes da partida decisiva, o selecionador espanhol foi perguntado pelo “jogo sujo” da Argentina e De la Fuente esquivou a resposta. Em vez de confirmar ou desmentir, disse que a Argentina mereceu ser finalista e elogiou o seu antigo aluno e ainda hoje amigo, apesar de rival: Lionel Scaloni. Evitou, portanto, qualquer polémica, qualquer comentário sobre as artimanhas, as ajudas dos árbitros, a permissividade perante as agressões - mais ou menos disfarçadas - a jogadores ingleses, egípcios e cabo-verdianos, entre outros.

O pior finalista da história

A Argentina jogou mal em muitas fases deste mundial e protagonizou a final mais pobre de que há memória, pelo menos desde 1950. Há quem diga que o pior finalista da história foi a Argentina no jogo contra a Alemanha em 1990, mas agora os dados mostram uma seleção ainda mais indigente: a alviceleste no MetLife Stadium em 2026, com 2 remates em 120 minutos e nenhum deles enquadrado (a Espanha tentou 20, 12 deles enquadrados). O primeiro remate argentino só chegou depois do único golo, no minuto 106. A posse de bola foi de 35% e os jogadores só deram seis passes na área contrária, contra 31 da Espanha.

Otamendi caiu misteriosamente ao chão num dos golos anulados à Espanha. ‘La Roja’, contudo, não se deixou enredar nas provocações: nem antes, nem durante, nem depois do jogo. Os jogadores passaram os quatro dias prévios à final com a cabeça “num balde de gelo” para evitar distrações. Conseguiram esquivar os perigos e cumprir fielmente a missão: jogar como sabem e fintar o antijogo, as más decisões arbitrais e o ruído dos muitos adeptos argentinos (eram a grande maioria) que encheram as bancadas na Nova Jérsia.

Não foi só o cartão vermelho perdoado a Messi (no jogo contra a Argélia) mas não, por uma ação idêntica, a Folarin Balogun, o avançado dos EUA de origem nigeriana que pôde jogar contra Bélgica graças à intervenção mafiosa de Donald Trump. Foram inúmeros os cartões amarelos que ficaram por marcar contra a Argentina neste campeonato do mundo, nomeadamente nas meias-finais e na final. Ainda assim, a Espanha manteve o sangue-frio e o civismo, sem protestos nem reações proporcionais à pancadaria argentina. No final, não só foram os campeões da competição — os que mais rápido fizeram circular a bola, os que melhor souberam anular o jogo dos rivais. Também foram os campeões do desportivismo, do saber estar e do bom senso.

Quando Rodri, capitão da Espanha e MVP do torneio, tinha o troféu dourado nas mãos e toda a sua equipa à espera da icónica foto de família, com a clássica e lógica explosão de alegria, teve o discernimento de esperar a que Donald Trump saísse de cena para levantar a taça. Trump tentou a todo o custo aparecer na celebração, mas a maioria da imprensa mundial ignorou as fotos dos bicampeões com o presidente norte-americano a fazer de emplastro.

Abraçado ao avançado do Celta de Vigo e da seleção espanhola Borja Iglesias, o ator Javier Bardem, que acompanhou praticamente todos os jogos de ‘La Roja’ nos EUA, aplaudiu o jogo da Espanha já campeã: “Jogou limpo, bonito, unido... com educação, respeito e valores. Que o exemplo deixado, para milhões de crianças em todo o mundo, seja esse, é o mais importante”.

Noutra rádio, na brasileira Mix FM (“a rádio oficial da Copa do Mundo da FIFA 2026), o locutor Bruno Cantarelli explodiu com o único golo da partida. Num relato que já é história do futebol, Cantarelli gritou ao mundo: “Tá dentro! Um gol para sempre, um gol para a história! Ferran Torres, muito, mas muito, mas muito obrigado, cara. Eu te amo demais! O futebol vence a catimba!” E acrescentou: “Eu quero ver anular agora! (...) Uma seleção que se acovarda numa final, que joga atrás o tempo inteiro, que não chutou uma vez no gol, não merece ser campeã do mundo! Viva o futebol, viva a escola espanhola de posse de bola!”.

Depois de narrações assim, palavras para quê? A Espanha festeja o título, mas suspeito que o Brasil e a Inglaterra são os países mais aliviados depois do golo de Ferran Torres, filho de um eletricista e nascido em Foios, uma aldeia agrícola da província de Valência que nunca mais será a mesma.

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