Para entrar no mercado imobiliário deste bairro de Madrid, os compradores precisam de ter bolsos largos. E é precisamente isto que trazem os recém-chegados da América Latina
Uma grande cidade que se preze costuma ter a sua própria área dedicada ao mercado de luxo. Nova Iorque tem a Quinta Avenida, Paris tem os Campos Elísios, em Madrid destaca-se uma área conhecida como “Milha de Ouro”.
A "Milha de Ouro” é uma rede de ruas localizada no bairro de Salamanca, na capital espanhola, onde se concentram algumas das marcas de vestuário e joalharia mais exclusivas do mundo. É um ambiente que atrai estrangeiros interessados em investir em imobiliário, sendo uma grande parte deles oriunda da América Latina.
“É como um centro comercial a céu aberto”, diz à CNN Cristina Lanzarot, diretora da Associação de Comerciantes do Bairro de Salamanca, em Madrid, que reúne cerca de cem lojas de luxo. “Se não for o centro comercial mais especial do mundo, é certamente um dos mais especiais”.
Não é só a “Milha de Ouro” aquilo que atrai os estrangeiros. É antes uma tendência que se estende às seis áreas que compõem o bairro de Salamanca. Torna-se percetível ao percorrer as ruas, onde uma atmosfera elegante cativa os peões com as suas amplas avenidas e edifícios majestosos.
O verdadeiro choque vem com preços — não apenas do custo de uma tarde de compras, mas também da habitação. Este bairro tem o preço por metro quadrado mais elevado de toda a cidade de Madrid: cerca de 10 mil euros, em comparação com a média da cidade de 5.800 euros, segundo dados compilados pela Câmara Municipal de Madrid em fevereiro.
São valores que assustariam muitos compradores espanhóis, mas que estão ao alcance das fortunas estrangeiras, que têm vindo a ganhar uma importância crescente no bairro ao longo da última década. Tarek Mure, consultor da imobiliária Gilmar, em Salamanca, descreve-a como uma forma “invulgar” de gentrificação. “Não é uma gentrificação de pobres para ricos, mas de ricos para ainda mais ricos”.
Em 2015, os residentes nascidos no estrangeiro representavam 18% da população do bairro. Em 2025, o número subiu para quase 30%, de acordo com dados da câmara municipal.
Aquilo que chama à atenção é o facto de que, dos 44.680 residentes estrangeiros do bairro, quase metade — 21.740 pessoas — vem de países da América do Sul. “Agora, em vez de irem para Miami, estas fortunas estão a vir para Madrid”, diz Lanzarot. Os mexicanos somam 3.549 residentes, segundo dados de 2025 da Câmara Municipal de Madrid.
Lanzarot destaca “a beleza da arquitetura neoclássica” do bairro, bem como “a língua [comum] e a segurança existente, com a possibilidade de passear tranquilamente” como algumas das razões que provocaram a entrada de riqueza estrangeira.
Como são os novos compradores em Madrid
Para entrar no mercado imobiliário deste bairro de Madrid, os compradores precisam de ter bolsos largos. Segundo Mure, é precisamente isto que trazem os recém-chegados da América Latina.
Segundo ele, são “enormes” e “impossíveis de igualar”. Para ilustrar, refere a recente venda de um apartamento de 460 metros quadrados na Plaza de la Independencia — onde se situa a icónica Puerta de Alcalá – por mais de 15 milhões de euros.
“Estamos a falar de mais de 30 mil euros por metro quadrado, para uma casa que nem sequer é nova e que foi comprada como segunda habitação”, detalha Mure, acrescentando que os compradores estão a gastar, em média, 2 a 4 milhões de euros.
Estes compradores ricos também costumam partilhar o gosto por determinadas características: casas com uma fachada virada para o exterior, cozinhas e salas de estar integradas e quartos amplos com casas de banho privativas, dado que, como observa Mure, “têm uma vida social ativa e estão sempre a convidar pessoas para os visitar”.
Tirar o lugar ao dinheiro espanhol
A chegada destas novas fortunas acabou por modificar o ecossistema comercial da região. “Agora, estão a abrir muito mais lojas de luxo, e um número incrível de joalharias internacionais muito importantes”, destaca Lanzarot.
Esta mudança está também a alterar os hábitos de quem já vivia no bairro há anos. “Se for à procura de uma cerveja num sítio agradável, com boas tapas, já não vai encontrar, Em Recoletos, pelo menos, não vai encontrar”, conta Mure. “Agora há apenas restaurantes sofisticados onde uma cerveja pode custar 15 dólares e onde não servem nada para acompanhar”.
A título de exemplo, Mure explica que há antigos moradores do bairro de Salamanca que optaram por investir o dinheiro da venda das suas casas em chalés no empreendimento de luxo La Moraleja, no município vizinho de Alcobendas, ou em El Viso, no bairro de Chamberí.
Contudo, esta tendência, como nota Mure, também cria um efeito indireto: os preços dos imóveis acabam por subir nas zonas para onde os residentes deslocados se mudam.
