Uma jovem esteve 32 anos desaparecida. Agora, um programa de televisão identificou o seu corpo

23 mai, 21:00
O cartaz que a família divulgou aquando do desaparecimento (Massimiliano Minocri, El País)
MASSIMILIANO MINOCRI

Ninguém sabe o que aconteceu desde o momento em que a jovem de 19 anos abandonou a casa da irmã em Florença e apareceu morta em Espanha

Era uma quinta-feira banal. 30 de agosto de 1990. Hermann levou a sua filha, Evi Rauter, de 19 anos, à estação de comboio. O destino? A casa da irmã Cristina, que estudava em Florença. O pai não voltaria a ver a filha com vida.

Hermann e Karolina, um casal que vive em Lana, no norte de Itália, estiveram até agora sem saber o que tinha acontecido à filha. Durante 32 anos, Evi foi um cadáver anónimo em Espanha, mas o mistério foi desvendado por um programa televisão catalão de crime.

O desaparecimento

Evi esteve quatro dias com a irmã Cristina em Florença. No dia 3 de setembro de 1990, enquanto Cristina foi à faculdade, Evi deixou um post-it à irmã a dizer que foi passear a Siena, uma cidade italiana a cerca de 80 quilómetros.

Segundo Cristina, a irmã partiu às nove da manhã e saiu sem muitos pertences: "Apenas o documento de identificação, 60 mil liras, que eram cerca de 30 euros, e o cartão de estudante para o comboio”.

Ninguém sabe o que aconteceu desde o momento em que a jovem de 19 anos abandonou a casa em Florença. O que se sabe é que uma jovem com cabelos de comprimento médio e pele clara foi encontrada morta 23 horas depois, às oito da manhã de 4 de setembro de 1990. Evi Anna Rauter estava enforcada num pinheiro, num monte perto do cemitério de Portbou, em Espanha.

O corpo foi encontrado a mil quilómetros de Florença, por um menino que passava naquela zona. Seguiram-se 32 anos de anonimato - ninguém sabia quem era aquela rapariga.

Evi Rauter e Cristina

O fim do anonimato

Carles Porta é o jornalista por trás do programa de investigação criminal Crims, que permitiu identificar Evi Rauter 32 anos depois.

Foi uma investigação que durou dois anos e que contou com a colaboração do programa austríaco do mesmo género Unsolved, visto haver suspeitas de que a jovem fosse austríaca. O episódio foi para o ar a 23 de abril.

O momento-chave desta história foi quando uma mulher italiana, de férias em Viena, viu o episódio e conseguiu identificar Evi: “A mulher que a reconheceu não a conhecia pessoalmente. Lembrava-se da divulgação do desaparecimento que fizemos na época. Ela não é de Lana, mora em Bolzano [capital da província] e não conhece a família”, explica Cristina ao jornal El País.

Contactada pelo programa, Cristina afirma ter ficado em choque quando soube da identificação do corpo da irmã: “Pedi as fotos, e quando as vi… Bom, demorei um bocado a entender o que estava a acontecer. E aos poucos, com muita prudência, contei aos meus pais”.

Quando souberam da notícia, Hermann e Karoline tiveram de identificar a filha: "Foi difícil ver as fotos, mas tivemos de o fazer", afirma o pai, sobre quatro imagens do cadáver da jovem tiradas pela Guarda Civil espanhola. 

Hermann acrescenta que, após ver as fotografias, não restam dúvidas “Há fotos do rosto, de perto. É a Evi, com certeza", sendo que até as roupas do cadáver são familiares ao pai: “O sutiã é importante por causa da marca. A mãe comprou-o numa loja em Lana”.

Ter tido consciência do que realmente aconteceu à filha foi duro para Karolina: "A minha esposa esperava que um dia tocassem à campainha, abríamos a porta e era ela”, afirma Hermann ao jornal El País.

A família aguarda agora a identificação oficial do corpo de Evi através de impressões digitais, mas as perguntas ainda são muitas.

"É tudo muito misterioso. Não conseguimos perceber o que aconteceu desde que ela saiu de Florença e apareceu em Portbou. Não sabemos como foi lá parar. De comboio? Pedindo boleia?”, questiona Cristina. 

A opção do comboio poderá ser válida, visto que a família descobriu que naquele dia havia um comboio expresso que saía de Roma à uma da tarde e chegava a Portbou às 5:45 da manhã. Mas "em duas horas deu tempo para tudo?", questiona a irmã.

Evi Rauter em Florença. A última fotografia que a irmã Cristina lhe tirou.

Terá mesmo sido suicídio?

O suícidio de Evi é algo em que a família não acredita. "De forma alguma", diz o pai. Cristina chega até a levantar questões: “Não somos detetives, mas parece que a Evi teve de voar para se pendurar na árvore...”.

Em 1990, todas as entidades que investigaram as circunstâncias da morte de Evi declararam que a jovem tirou a própria vida. “A Guarda Civil disse que foi suicídio, o médico legista disse que foi suicídio e o juiz do caso disse que foi suicídio. Depois de 32 anos, temos que cumprir o que está escrito”, declara o tenente Alejandro, da unidade de polícia judiciária da Guarda Civil de Girona.

No entanto, Rogelio Lacaci, o médico legista que realizou a autópsia, afirma agora outra coisa: "Esqueça o suicídio, só posso dizer isso", confessa, em resposta às perguntas do jornal El País, não dando mais pormenores sobre o que o levou a mudar de ideias.

Este mistério será abordado em mais dois episódios de Crims, que irão para o ar em Espanha nos dias 13 e 20 de junho. No entanto, o programa austríaco Unsolved já revelou alguns detalhes desconcertantes acerca do caso. Em primeiro lugar, existe a questão do comprimento da corda com a qual Evi se enforcou. Isto porque a corda era muito curta, com cerca de 40 centímetros, o que dificultava a abertura para colocar a cabeça e depois amarrá-la na árvore. Para além disso, a corda tinha um nó de marinheiro, que requer algum conhecimento para saber fazê-lo.

Adicionalmente, quando foi encontrada, a jovem de 19 anos tinha os pés descalços, que não tinham qualquer vestígio de terra ou cascalho, como seria expectável visto encontrar-se numa zona de campo. Feridas no corpo, por ter subido à árvore e ter caído, também não foram encontradas.

Muitas são as questões que este caso levanta, porém o mais provável é que grande parte delas não tenha resposta. Isto porque o corpo de Evi foi enterrado numa vala comum há muitos anos e os seus restos mortais estão misturados com outros corpos.

Hermann e Karolina em sua casa, em Lana, em 2022. (Massimiliano Minocri, El País)

 

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