Enquanto os clubes de Ibiza fazem milhões com turistas em modo rave, os serviços de emergência da ilha estão em burnout. Um terço das ambulâncias serve para acudir a más viagens de MDMA e outras drogas — e o sindicato local avisa: o serviço de ambulâncias em Ibiza está à beira do colapso e já chega de pagar a festa
O serviço de ambulâncias em Ibiza está em risco de entrar em falência técnica. A culpa? "Clubbers" a mais, overdoses a rodos e uma conta que, segundo o sindicato local, está a ser paga pelos serviços públicos, enquanto os clubes lucram milhões.
De acordo com José Manuel Maroto, presidente do sindicato dos serviços de saúde da ilha, até um terço das chamadas de emergência são para discotecas — algumas com capacidade para 10 mil pessoas — e estão, maioritariamente, ligadas a consumos de drogas recreativas. Apenas uma grande discoteca, a DC-10, recorre a um serviço privado de ambulâncias. As restantes, diz, deixam a fatura para os contribuintes. “É inconcebível que empresas com lucros de milhões de euros por ano não assegurem este serviço, que está a saturar os serviços de emergência em prejuízo da população local”, criticou Maroto ao jornal El Diario. “Os clubes são obrigados a contratar enfermeiros e outro pessoal de saúde, mas não ambulâncias — e quem paga isso são os serviços públicos.” Para os 161 mil residentes permanentes, a qualidade do atendimento médico degrada-se à medida que os 3,6 milhões de visitantes anuais se acumulam nas pistas.
Ibiza é, desde os anos 80, um dos destinos de culto da cena eletrónica mundial. Amnesia e Pacha abriram caminho, mas hoje são dezenas os espaços a disputar DJ’s com cachês milionários — e clientes dispostos a pagar 100 euros para entrar e mais 25 por bebida. UNVRS, o maior clube da ilha, abriu no mês passado com Will Smith no corte da fita. A família Matutes, que detém três dos maiores espaços — Ushuaïa, Hï Ibiza e UNVRS — é a principal beneficiária da máquina turística. Abel Matutes, ex-futebolista e ex-político, fundou o grupo que gere os clubes e uma série de hotéis em Espanha, México e EUA.
Segundo o governo regional, 1,5 euros em cada 10 gastos pelos turistas vão diretamente para as pistas de dança. E a ilha é o terceiro destino mais caro do Mediterrâneo, atrás apenas de Saint-Tropez e Capri. Já as drogas, fazem parte do subtexto da noite ibicenca ((ou "eivissenca"; existem dois gentílicos) — e também da sua economia informal. Em 2023, foi apreendida mais de 1 milhão de doses de MDMA numa só operação. Entre 2010 e 2016, registaram-se 58 mortes por consumo de droga na ilha, segundo a European Psychiatry, sendo os jovens britânicos o grupo mais afetado (36%).
Enquanto isso, as ambulâncias continuam a correr contra o tempo — e contra o som do próximo drop.