Ministério Público tinha pedido 226 anos de prisão, mas, nas alegações finais que decorreram hoje, a procuradora do caso defendeu uma pena mais grave: prisão permanente reavaliada periodicamente
O Ministério Público espanhol pediu hoje para ser condenado a prisão permanente o português acusado de matar quatro pessoas e ferir nove num casamento em Madrid em novembro de 2022.
No arranque do julgamento, num tribunal de Madrid, o Ministério Público tinha pedido 226 anos de prisão, mas, nas alegações finais que decorreram hoje, a procuradora do caso defendeu uma pena mais grave: prisão permanente reavaliada periodicamente.
Trata-se de uma condenação prevista no Código Penal espanhol que pode traduzir-se, na prática, numa prisão perpétua se nunca for alterada pelos juízes nas sucessivas reavaliações.
O Ministério Público juntou-se assim às acusações particulares - que representam as famílias das vítimas mortais -, que também pedem prisão permanente para o acusado.
Segundo a Procuradoria espanhola, em 06 de novembro de 2022, o homem, nascido em 1987 e residente em Espanha, lançou intencionalmente o carro que conduzia contra convidados de um casamento em Torrejón de Ardoz, na região de Madrid.
A procuradora do Ministério Público reiterou hoje em tribunal, na última sessão do julgamento, que o homem acelerou o carro sabendo que havia pessoas perto e que as atropelou "com total vontade de lhes causar a morte ou assumindo que existia essa possibilidade".
Foi um ato "de brutalidade" e não se percebe arrependimento por parte do acusado, considerou a procuradora.
A defesa do português argumentou, durante o julgamento e nas alegações finais de hoje, que o português fugia de uma perseguição e agressão de convidados do casamento e pediu a absolvição, considerando que está justificada pelo "medo insuperável" e pelo "estado de necessidade" do acusado naquele momento.
As acusações particulares reiteraram o pedido de prisão permanente e realçaram que, na declaração que fez na quinta-feira em tribunal, o homem entrou em múltiplas contradições.
O português disse que entrou no carro, com dois filhos menores, para fugir dos convidados do casamento, que na sequência de uma discussão originada no interior do restaurante da festa o perseguiam e ameaçavam de morte com "navalhas e pistolas".
Segundo o relato que apresentou em tribunal, entrou no carro para abandonar o local, buzinou sempre para todas as pessoas se afastarem e foi quando ouviu tiros que se baixou e o veículo acelerou "com o peso" do seu corpo, negando assim a acusação de que o fez de forma intencional.
O homem garantiu que não teve consciência de ter atropelado pessoas e que só percebeu o que se tinha passado quando, horas mais tarde, a polícia o deteve numa outra zona da região de Madrid.
"O carro acelerou pelo peso do meu corpo. Eu não tinha intenção de atropelar [ninguém]. Queriam matar-me com as pistolas e as navalhas", disse, garantindo que ouviu um impacto, viu um espelho do carro partido quando voltou a levantar-se, mas não viu sangue.
"Não sabia que tinha atropelado essas pessoas", afirmou.
Questionado pela procuradora do Ministério Público se "pisou o acelerador", o homem respondeu que "automaticamente, o corpo, com o medo, acelerou" e garantiu que as pessoas que o perseguiam desde o interior do restaurante gritavam: "Português, vamos-te matar".
O português está acusado de quatro crimes de homicídio e mais nove de tentativa de homicídio.
Na acusação do Ministério Público, a que a Lusa teve acesso, lê-se que o arguido, conhecido como "o português" e com antecedentes penais, foi à festa de um casamento em Torrejón de Ardoz, com dois filhos e dois sobrinhos, tendo um destes menores protagonizado um incidente dentro do restaurante, pelo que o grupo foi convidado a abandonar o local, já na madrugada de 06 de novembro de 2022.
A discussão continuou fora do restaurante e foi então, segundo o Ministério Público, que o acusado se dirigiu ao carro que tinha estacionado nas imediações e "acelerou o motor, sabendo da presença das pessoas ali concentradas".
"Com total vontade de causar-lhes a morte ou assumindo a possibilidade de que isso acontecesse, atropelou várias delas", lê-se no documento.
No atropelamento morreram uma mulher de 66 anos, dois homens, de 68 e 37, e um menor, de 17 anos, todos espanhóis.
O homem foi julgado por um júri popular e não existe ainda data para um veredicto e, caso seja declarado culpado, para a sentença.
