Catalunha num "'stand by' complicado" cinco anos após declaração de independência

Agência Lusa , DCT
24 out, 07:43
Catalunha (AP Foto/Emilio Morenatti)

Em 2023, há eleições municipais em maio, que servirão para medir forças de cada partido no terreno, e legislativas em Espanha no final do ano, que ditarão aquilo com que a ERC e os independentistas poderão contar no Governo central

A coligação independentista no governo da Catalunha rompeu-se este mês e, passados cinco anos da declaração unilateral de independência, os partidos que querem o separatismo de Espanha assumiram a sua própria separação.

Foi em 27 de outubro de 2017 que o parlamento regional aprovou uma declaração unilateral de independência da Catalunha que levou, no mesmo dia, à suspensão, pelo Senado espanhol, da autonomia catalã, a que se seguiu a destituição do governo da região e, mais tarde, a detenção dos líderes da tentativa separatista.

Cinco anos depois, este mês, os dois partidos protagonistas da tentativa de 2017 - Juntos pela Catalunha (JxCat), do ex-presidente do governo regional Carles Puigdemont, e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) - assumiram a rutura, por defenderem caminhos diferentes para a independência, e o primeiro abandonou a coligação que estava no executivo.

Para o professor de Ciência Política na Universidade Autónoma de Barcelona, o catalão Oriol Bartomeus, o movimento independentista da Catalunha "ficou sem objetivo, sem realmente nada que oferecer aos seus" depois de 2017, havendo "desorientação e cansaço".

"Não se sabe muito bem qual é a proposta do independentismo, não se sabe muito bem como vai continuar o independentismo, como será a partir de agora, qual é o plano. Estamos num 'stand by' complicado", afirmou o politólogo à Lusa.

Em 2017, acrescentou, parece ter ficado provado que "a saída unilateral não funciona" e a via de negociar um acordo com o governo central de Espanha, para um referendo, agora defendida pela ERC, já foi ensaiada no passado, é um "plano que já tinha sido o plano" e, para boa parte dos independentistas, nunca levou a lado nenhum.

A rutura entre JxCat e ERC concretizou uma fragmentação que sempre existiu entre os independentistas que, no entanto, na última década, foram superando diferenças para unir cada vez mais forças em torno do objetivo da independência.

Outubro de 2022, com a passagem de um dos maiores partidos independentistas para a oposição a um governo do outro grande partido independentista (o JxCat tem 32 deputados e a ERC tem 33), é o fim de uma década de união e sinónimo de uma "mudança radical" ou de "um ponto de inflexão" na política catalã e do independentismo catalão, segundo os analistas que por estes dias vão escrevendo colunas de opinião na imprensa regional.

Não é, porém, "o fim do problema político", nas palavras de Josep Martí Blanch, colunista do jornal catalão La Vanguardia.

Blanch, antigo jornalista, foi responsável pela comunicação nos dois governos regionais de Artur Más, que presidiu à extinta Convergência Democrata da Catalunha (CDC), de ideologia liberal de centro-direita e uma das forças políticas independentistas que deu origem ao hoje JxCat.

Se a ERC tem duas bandeiras, a do independentismo e a da esquerda, o JxCat, explicou Blanch à Lusa, só tem a primeira, porque se tornou numa "amálgama de pessoas de convivência muito difícil", com "tendências diferentes", ainda hoje "emocionalmente sequestradas por Carles Puigdemont", fugido à justiça na Bélgica e que se mantém partidário da confrontação com o Governo espanhol, recusando o diálogo com Madrid por que aposta a Esquerda Republicana.

A declaração falhada de independência em 2017, que se sabia que não levaria “a lado nenhum”, fez, para o analista, perder simpatias no exterior e "o capital político" conseguido com a consulta popular (o referendo ilegal) de 01 de outubro daquele ano, que deveria ter sido usado para projetar o futuro e continuar a mobilizar forças. Isso não aconteceu e, neste contexto, a atual rutura entre os independentistas era "o caminho natural", defendeu.

Assim se deu a rutura, esta "mudança radical" na política catalã, a que ajudou, acrescentou Blanch, a covid-19, a inflação, a crise energética ou a guerra na Ucrânia, que colocaram outros debates, "de tónica de ideologia clássica", nas prioridades das agendas políticas e das preocupações da sociedade, retirando peso à questão nacionalista.

O JxCat, sem outra bandeira do que a do independentismo, dificilmente pode ser visto "como alternativa, por exemplo, na política fiscal, de segurança, de habitação", afirmou Blanch.

Já a ERC, neste momento, está a tentar reafirmar-se como partido de esquerda social-democrata.

O politólogo Oriol Bartomeus diz que o "'stand by' complicado" em que está a Catalunha é o culminar do "empate" eleitoral de 20 anos entre duas fações independentistas que hoje protagonizam ERC e JxCat e considera que "enquanto continuarem empatados, não se avançará em nenhum sentido".

O "cansaço" do eleitorado materializou-se nas últimas eleições regionais, em fevereiro de 2021, na perda de 700 mil votos por parte dos partidos independentistas. Mas o empate manteve-se.

Para Josep Martí Blanch, a ERC está "a tirar melhor a temperatura aos cidadãos de filiação independentista" e é "muito possível" que nas próximas eleições aumente a diferença entre os dois partidos, com o JxCat a perder terreno. Assim se acabaria o empate.

Mas para este analista, quem está a ganhar e tem ganhado mais é aquele que já foi o vencedor das últimas eleições regionais, o partido socialista (que elegeu os mesmos 33 deputados dos republicanos) e o seu líder na Catalunha, Salvador Illa, que "entendeu que o grande momento de divisão entre catalães foi em 2017 e que isso passou".

Illa percebeu também, diz Josep Martí Blanch, que para conquistar terreno no "campo Constitucionalista" (da integração com Espanha), é preciso "arrefecer" a tensão, "naturalizar o independentismo como ator politico que veio para ficar, procurar espaços de conciliação e esperar que as coisas passem".

Oriol Bartomeus acrescenta que do lado de Madrid e do governo de Pedro Sánchez, no poder desde 2018, os socialistas "tentaram dissolver o conflito, sem obviamente transigir nas reivindicações independentistas", e com indultos aos independentistas presos desde 2017 desbloquearam “uma possível normalização da situação na Catalunha".

"Hoje há conversações, uma mesa de diálogo", sendo que o plano do partido socialista espanhol (PSOE), diz o investigador, não passa por autorizar um referendo, como quer a ERC, mas pelo "regresso a uma situação de normalidade institucional, isto é, dizer que há [na Catalunha] um governo de uma autonomia, com o qual se podem tratar temas normais, financiamento, infraestruturas, o normal que se trata com um governo autonómico".

A legislatura tem quatro anos, mas ninguém parece acreditar hoje que a ERC resista tanto tempo a governar só com 33 dos 135 deputados regionais.

Só o próprio presidente catalão, Pere Aragonés, pode dissolver a assembleia e uma moção de censura para o derrubar obrigaria a unir uma oposição demasiado diversa, entre independentistas, extrema-direita e direita espanhola, socialistas e extrema-esquerda.

Em 2023, há eleições municipais em maio, que servirão para medir forças de cada partido no terreno, e legislativas em Espanha no final do ano, que ditarão aquilo com que a ERC e os independentistas poderão contar no Governo central.

A história destes dez anos diz que com a direita não há possibilidade de diálogo, mas que a tensão com Madrid dá força ao independentismo.

Segundo uma sondagem do Centro de Estudos de Opinião da Catalunha, em julho, 52% dos catalães era contra a independência, a percentagem mais elevada desde 2015.

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