ENTREVISTA || Mostrar-se vulnerável e colocar-se em risco ajuda a convencer os outros de que é de confiança, segundo a cientista comportamental Leslie John, professora da Harvard Business School
Kara Alaimo é professor de comunicação na Fairleigh Dickinson University e ensina pais, alunos a professores a gerir o seu tempo à frente dos ecrãs. O seu livro “Over the Influence: Why Social Media Is Toxic for Women and Girls — And How We Can Take It Back” [Acima da influência: porque é que as redes sociais são tóxicas para mulheres e raparigas – e como podemos dar um passo atrás, em tradução livre] foi publicado em 2024.
Contar ao seu chefe ou companheiro aquela coisa que não sabia se devia ou não revelar pode ser bom para si.
Segundo a cientista comportamental Leslie John, professora da Harvard Business School, as pessoas costumam, com frequência, reprimir demasiado os seus sentimentos.
Pelo contrário, deve partilhar coisas pessoais com outras pessoas, defende Leslie John no seu novo livro, “Revealing: The Underrated Power of Oversharing” [Revelação: O subestimado poder de partilhar em excesso, numa tradução livre]. No melhor cenário, poderão retribuir, alimentando uma troca constante. É deste modo que se cria margem para aprofundar relações, que são vitais para a nossa vida, mostra o livro.
Falei com Leslie John para entender porque motivo é que o ato de partilhar pode tornar as pessoas mais felizes e saudáveis. Além disso, quis perceber como decidimos se devemos ou não fazê-lo. E a razão pela qual esta académica leva lâmpadas extra quando viaja.
Esta conversa foi editada e condensada para se tornar mais clara.
Defende que, se partilharmos mais sobre nós próprios com os outros, conseguimos alcançar mais coisas daquelas que desejamos na vida. Como?
Precisamos que as pessoas confiem em nós para conseguirmos coisas como amor, amizade ou sucesso na carreira. Quando nos tornamos vulnerável, ao revelarmos algo sensível, isso faz com que as outras pessoas confiem em nós.
Fizemos estudos que mostram que, quando alguém diz ‘podes confiar em mim, podes dizer-me qualquer coisa’, as pessoas se sentem menos à vontade do que se ficarem caladas.
Queremos que nos mostrem que podemos confiar em alguém. Uma forma mesmo poderosa de demonstrá-lo é sendo vulnerável, colocando-nos em risco.
Deixa o alerta de que não devemos partilhar tudo. Então, como se decide o que se deve revelar?
Primeiro, temos de pensar no nosso objetivo? Qual é o nosso propósito? O que procuramos? Talvez essa pessoa seja um conhecido, mas com quem gostávamos de começar uma amizade.
É natural que pensemos nos riscos da partilha. Pensamos ‘meu deus, se eu contar isto ao meu chefe, vai despedir-me, vai pensar que sou incompetente’. Isso é ótimo, é uma consideração natural e importante. Precisamos, contudo, de garantir que pensamos nas desvantagens de esconder e nos benefícios de contar.
A principal coisa que ignoramos nestas decisões são as desvantagens de esconder. Por exemplo, ‘se eu não contar isto ao meu chefe, vou ficar a remoer, vai ficar na minha cabeça para sempre’. Desvalorizamos o custo psicológico de guardar um segredo. Guardar segredos é algo que está ligado a problemas de saúde física e mental.
Pode, por exemplo, fazer uma lista, com os pros e contras de revelar algo e também de não o fazer
Se começar a fazer isto com algumas decisões importantes, o processo acabará por tornar-se mais natural. E acabará por tomar essas decisões de uma forma mais esclarecida.
E porque é que a iluminação é uma parte tão importante deste processo?
Quando os investigadores colocam as pessoas numa sala acolhedora e fazem perguntas delicadas ou participam numa sessão de terapia, as pessoas mostram-se muito mais recetivas. Uma sala acolhedora seria um ambiente com iluminação abaixo dos 3000 kelvin, com objetos macios, mantas aconchegantes e tapetes, em vez de pavimentos de madeira.
A minha tese é de que, quando se alguém se abre da forma correta, se obtêm muitos benefícios. Por isso, se estou a ter uma conversa difícil com o meu marido, quero que estejamos na nossa sala, que é acolhedora. Não quero estar na nossa cozinha, que tem luzes muito brilhantes.
Levo lâmpadas comigo quando não estou em casa, porque os hotéis - e o próprio mundo - estão cheios de lâmpadas terríveis, nada acolhedoras, com mais de 3000 kelvin. É algo que eu pura e simplesmente não suporto. A iluminação é uma das formas mais fáceis de tornar as coisas mais aconchegantes.
Os perfis em aplicações de encontros são uma das exceções ao conselho que nos dá sobre a importância de revelarmos mais. Porquê?
Quando se coloca muita coisa no perfil, os pretendentes vão encontrar coisas que gostam mesmo e com as quais se identificam. Contudo, quanto mais informação disponibilizar, maiores serão as hipóteses de encontrarem coisas que os fazem pensar ‘esta pessoa não é para mim’. Encontrar algo com o qual não nos identificados ou que é diferente de nós, nestas fases iniciais, acaba por ser mais desencorajador do que encontrar pontos comuns que nos atraem.
Por isso, é muito melhor colocar apenas detalhes que o descrevam, mas que possam também ser relevantes. Torna-se melhor se despertar a curiosidade. Pode escrever ‘pergunta-me sobre aquela vez em que...", de modo a iniciar uma conversa.
Outra coisa que distingue os perfis que recebem mais visualizações, mas que é mesmo invulgar, passa por manifestar interesse em conhecer a outra pessoa. Algo do género ‘adoro ouriços e adorava saber qual é o teu animal favorito”.
Quando demonstramos interesse por alguém, essa pessoa gosta mais de nós. Gostamos de ser questionados sobre nós próprios. Isto sinaliza também algo mais profundo: que somos criteriosos, seletivos. E isso é um grande atrativo.
Depois, à medida que as coisas avançam, queremos aprofundar e não ter a sensação de que estamos a conter-nos.
Diz que a “expectativa de ler a mente” faz com que as pessoas em relações de longa duração acabem por se afastar. Como é que isso acontece?
Os relacionamentos de longa duração terminam por várias razões. Ainda assim, por mais surpreendente que seja, é mais provável que terminem por haver um distanciamento do que por algo dramático, como um caso extraconjugal.
Há pessoas acabam por se sentir sozinhas em casamentos. Um dos motivos está no facto de que, quando estamos com alguém há muito tempo, conhecemos melhor essa pessoa à medida que o tempo passa. Contudo, a nossa confiança de que a conhecemos acaba por superar o nosso conhecimento real sobre essa pessoa.
É aí que começam os problemas. Se acredita que sabe o que o seu cônjuge está a pensar e a sentir, quais são as suas preocupações momentâneas, deixa de perguntar. Se não perguntar, a outra pessoa não partilha e, como consequência, também deixa de partilhar. Esta é a mecânica. Depois, um dia acorda e sente que já não conhece essa pessoa.
Isto é agravado por algo chamado expectativa de leitura da mente — a crença de que o seu parceiro deve pura e simplesmente saber aquilo que pensa e sente. Que devia ser capaz de ler a sua mente. Quando o dizemos desta forma, percebemos o quão absurdo é. Estas crenças são, todavia, realmente insidiosas e profundas.
Percebi, enquanto escrevia este livro, que eu própria as tinha. Percebi que tenho de parar de presumir. Tenho de continuar a perguntar, de continuar a partilhar, de dizer ao meu parceiro como me sinto, porque ele não consegue adivinhar o que se passa na minha cabeça.
Argumenta ainda que o ato de falar sobre experiências dolorosas com um amigo ou terapeuta pode ajudar mesmo a nossa saúde e bem-estar. Porquê?
Muitos estudos demonstraram que, quando se revelam pensamentos e sentimentos sensíveis, isso faz com que nos sintamos melhor física e mentalmente. Como cientista, não uso a palavra “faz” de ânimo leve.
Se alguém não tem dinheiro para um terapeuta e escreve as coisas que o incomodam num diário, com o tempo, acabará por sentir-se melhor em relação a elas. Será mais feliz e terá maior bem-estar.
Há uma razão psicológica pela qual isto é tão útil: dá sentido a estes acontecimentos. Quando escrevemos as coisas ou quando falamos sobre elas em voz alta, isso força naturalmente uma estrutura narrativa. E esta estrutura narrativa é aquilo que nos ajuda a lidar com as situações, a encontrar um sentido, a crescer.
Além disso, se falarmos com alguém que se preocupa connosco, processamos melhor as coisas, pelo simples facto de sabermos que temos um ouvinte, uma vez que precisamos de lhes dar mais sentido. Ter alguém que nos ouça ativamente é também mais eficaz para ajudar-nos a sentirmo-nos apoiados e a ultrapassar as dificuldades.