Provas de aferição vão ser em formato digital. Vai correr tudo bem? Há escolas onde “até as tomadas de ligação à Internet estão danificadas”

11 mai 2023, 07:00
Criança no computador (foto Ryutaro Tsukata/Pexels)

À partida, está tudo previsto e as provas podem até ser realizar-se offline e depois colocadas no sistema do IAVE (Instituto de Avaliação Educativa). Há professores e diretores de escolas relativamente otimistas. Mas há também quem afirme que as provas de aferição em formato digital vão colocar a nu as fragilidades tecnológicas e as desigualdades das escolas

Vamos chamar-lhe ‘Carla’, porque esta professora responsável pela gestão do programa Escola Digital num estabelecimento da Margem Sul prefere manter o anonimato. Dá aulas de uma disciplina que nada tem a ver com as novas tecnologias e é ela que, além de ser responsável pelo programa, dá apoio a alunos e professores quando há algum problema com os computadores que o Ministério da Educação atribuiu.  

“Foram dados milhares de computadores, mas não foram atribuídos técnicos de informática às escolas. Os pais quando têm um problema, não têm apoio. Contam com a boa-vontade dos professores. Sou professora de uma área que nada tem a ver com as novas tecnologias e estou a prestar apoio informático. Os computadores quando avariam vão à fábrica e estão três meses para serem arranjados. As garantias estão a acabar e os computadores da Fase Zero que avariam estão a ser guardados nas escolas em caixotes, porque ninguém nos diz o que devemos fazer com eles”, conta ‘Carla’, em declarações à CNN.

Esta professora da Margem Sul teme que as provas de aferição em formato digital venham revelar as fragilidades das escolas quer no que diz respeito à qualidade da rede de Internet, quer no que toca aos equipamentos fornecidos aos alunos e à sua manutenção. “Se acontecer alguma coisa no dia das provas, se algum computador avariar ou algum aluno não trouxer computador, as escolas têm equipamentos extra, mas são limitados. Os equipamentos, no caso do primeiro e segundo ciclos, são tão fracos que os alunos colocam um dedo num monitor e ele parte. Se houver 11 alunos sem computador ou com o computador avariado e a escola só tiver 10 portáteis em condições de serem usados, há um aluno que não vai conseguir fazer a prova”, exemplifica.

Os ‘problemas técnicos’ e a memória dos Magalhães

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), acredita que não será por falta de computadores que as provas deixem de se realizar, mas concorda com ‘Carla’ no que diz respeito à sustentabilidade do programa e manutenção do material. “Neste momento temos milhares de computadores entregues aos nossos discentes, aos docentes e nas escolas. Urge dotá-las de um técnico de informática, ou outra figura, que lhes faça a respetiva manutenção, para não acontecer o que sucedeu com os computadores Magalhães, e tirar a máxima rentabilidade de um esforço enorme feito pelo Governo”, alerta.

Paulo Guinote, professor do 2º Ciclo e autor de blogues como A Educação do Meu Umbigo e O Meu Quintal, onde debate assuntos relacionados com a educação, aponta falhas aos ‘kits tecnológicos’ fornecidos aos alunos e professores pelo Governo. “Todos os meses há dias dedicados a aulas em que os alunos trazem os ‘kits tecnológicos’ para desenvolver atividades e boa parte do tempo é gasta a resolver ‘problemas técnicos’ desses equipamentos, sendo que um dos principais é o da ligação à Internet, seja pela sua baixa fiabilidade, seja pela dificuldade dos alunos lidarem com essas questões, pois a sua literacia digital é bastante reduzida, nomeadamente no caso do 5º ano”, denuncia.

Paulo Guinote tem dúvidas que “os equipamentos low cost fornecidos aos alunos” sejam os mais apropriados para a resolução das provas de aferição. “Nem sequer falo em termos ideais”, reforça.

“Sobrecarga de trabalho”

Filinto Lima reconhece também que “a rede da internet nas escolas não é fiável” e alerta que “o sinal deverá ser reforçado”. Sublinha o responsável que já no dia-a-dia, isso traz constrangimentos ao trabalho de professores e alunos. “Em diversas situações os professores levam para as aulas dois planos: o plano A, com recurso aos meios digitais, e o plano B… digamos que é a aula com recursos aos meios tradicionais. É mais uma sobrecarga de trabalho para os docentes e que lhes retira tempo para lecionar, envolvendo-os em trabalho administrativo e burocrático”, alerta.

O presidente da ADAEP diz que “não custa a crer” que este cenário se possa refletir no bom decurso das provas de aferição, apesar de todas as medidas tomadas pelo Ministério da Educação e pelas escolas para evitar constrangimentos.

E se Filinto Lima prevê a possibilidade de constrangimentos, Paulo Guinote não tem dúvidas de que eles irão acontecer e denuncia que os problemas não foram acautelados: “Neste momento não é possível saber quantas escolas têm essas condições ou não [para a realização das provas de aferição em formato digital], pois não foi feito, de modo atempado, um diagnóstico da situação.”

“Há muitas escolas em que até as tomadas para a ligação da net estão tão danificadas que nem nas aulas regulares se consegue ligar os computadores dos professores. No caso dos routers dos alunos (ou dos cartões SIM inseridos nos portáteis), uma quantidade que também se desconhece (nos meus 115 alunos andará pelos 25-30%), não estão operacionais ou com um desempenho que garanta fiabilidade”, alerta o professor Paulo Guinote.

“Em princípio, as provas devem ser feitas com os recursos dos alunos, o que significa que dependerão da banda larga das operadoras contratadas para fornecer esse serviço. Se fosse com a rede Minedu não seria possível suportar a ligação simultânea de dezenas ou centenas de equipamentos, exceto em casos muito pontuais”, acrescenta

Um plano 'A' com planos 'B' dentro

António Castel-Branco, diretor do Agrupamento de Escolas Ferreira de Castro, em Sintra, e presidente do Conselho de Escolas, prevê constrangimentos, mas nada que impeça o bom decorrer das provas. “Vai haver alguns constrangimentos, até porque, em alguns casos, estamos a falar de crianças muito pequenas e podem ter dificuldades em ligar-se, por exemplo. Mas está tudo a ser preparado pelas escolas e estão a ser constituídas equipas de apoio para prestar auxílio nesses dias”, assegura.

O responsável garante que “foi tudo previsto” e que foram e estão a ser preparadas soluções para as possíveis falhas. E, já para prevenir problemas nas redes das escolas, o plano A tem uma espécie de vários planos B dentro.

“Em termos nacionais, há várias realidades. E para evitar problemas em escolas com maiores condicionamentos de rede, já está prevista que a prova se realize em dois turnos, por exemplo. Além disso, há várias modalidades: as provas podem ser feitas online ou offline. Em muitas escolas, vai ser adotada a modalidade de fazer download da prova e colocá-la encriptada na rede da escola e eles resolvem offline e depois carrega-se na rede do Ministério. Há ainda a possibilidade de descarregar as provas no computador do próprio aluno, como um ficheiro normal, e eles resolvem e depois faz-se o upload. Esta última será uma modalidade de recurso, para quando tudo o resto falha, quando a internet da escola é má e o a ligação através do hotspot fornecido pelo Ministério aos alunos também é fraca, por exemplo”, explica o responsável.

Exercícios feitos “à vez”

Soraia Pires, professora do 1º Ciclo há 29 anos, confessa que ainda não tem opinião formada sobre as provas diagnósticas se realizarem em formato digital. Mas sabe que todos estes planos B a deixam mais descansada, bem como as condições técnicas da escola onde leciona, a E.B.1/JI Major David Neto, em Portimão. “Considero que a escola onde leciono possui todas as condições técnicas para que se possam realizar as provas. Até porque o problema de a internet suportar muitos computadores ao mesmo tempo não se irá colocar, uma vez que já sabemos que se podem realizar offline e, posteriormente, serem exportadas sem sobrecarregar a Internet”, diz.

“É claro que, se quisermos realizar as provas online, haverá constrangimentos, pois as escolas não estão preparadas para tal. Nas aulas, quando é necessário aceder à Internet com todos os computadores, temos que fazê-lo de forma faseada, pois não se consegue colocar 24 computadores online, ao mesmo tempo. Organizamos as atividades de forma parcelar, a pares, sendo que cada aluno realiza à vez, por exemplo”, acrescenta Soraia Pires.

Otimista, Soraia acredita também que os equipamentos fornecidos aos alunos pelo Ministério da Educação estejam aptos para a realização das provas de aferição em suporte digital, “mas tudo dependerá, mais uma vez, da natureza das mesmas”. Se forem provas com perguntas de resposta curta ou escolha múltipla, tudo será mais fácil. Já as questões forem sobretudo de resposta mais longa, que impliquem uma maior capacidade de escrita das crianças, a professora teme que possa ser mais difícil. Ainda assim, está disposta a experimentar: “Vamos experimentar este ano e tirar essas ilações depois. Tudo se pode ajustar e melhorar sempre. Sem experimentar, não podemos afirmar, com toda a certeza, se estão ou não aptos.”

“Propaganda ‘modernizadora’”

Para Paulo Guinote, nem se devia sequer “abandonar a avaliação em suportes mais convencionais”, até porque “há competências dos alunos que não são estimuladas por ambientes exclusivamente digitais”.

Mas, já que é para avançar, que se prepare esse cenário com tempo e se aposte na formação e na literacia digital. Mas não só: “Faz sentido que o equipamento de escolas e alunos não seja feito pelo preço mais baixo possível, que se aposte na formação dos alunos em literacia digital (o que choca com a falta de professores na área e pela muito reduzida carga horária no currículo) e que se tenha uma visão de médio prazo, que permita a consolidação dos progressos, em vez de um voluntarismo que tem mais de propaganda ‘modernizadora’ do que de atenção ao interesse dos alunos.”

Também Filinto Lima fala numa necessidade de adequar as provas às idades dos alunos e de uma utilização mais frequente do material digital no dia-a-dia. Mas, sobretudo, é necessário “reforçar a rede wifi das escolas e mudar as mentalidades, principalmente de alguns adultos, que diabolizam o digital”: “O equilíbrio entre o físico e o digital deverá ser o objetivo.”

‘Carla’ lembra que “isto é só uma prova de aferição”, sem caráter avaliativo para o aluno. “O aluno não sai prejudicado. Mas pensar isto para os exames nacionais, como já estão a falar para 2024, é assustador. Estamos a por em causa a equidade entre os alunos. Se um aluno tem um bom equipamento e outro tem um equipamento muito fraco, não há igualdade entre eles”, alerta.

 

As provas de aferição do 1º Ciclo já arrancaram, com os exames de Educação artística e Educação Física. Na segunda quinzena deste mês, arrancam as provas com recurso ao digital, com a disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação, entre 16 e 26 de maio.  A 2 de junho, será a grande prova de fogo desta inovação, com a prova de Português do 5º ano, que também tem a prova de História e Geografia de Portugal, igualmente em formato digital, a 6 de junho. Os alunos do 2º ano têm a prova de Português e Estudo do Meio a 15 de junho e de Matemática e Estudo do Meio a 20 de junho.

A CNN Portugal questionou o Ministério da Educação sobre a capacidade tecnológica das escolas para suportar a modalidade digital nas provas de aferição e sobre se há ou não um verdadeiro plano B previsto para o caso de, no dia da prova, as hipóteses do plano A falharem. Até à hora do fecho deste artigo, não obtivemos resposta. 

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