Pais boicotam provas de aferição em formato digital: “A minha filha acusou grande ansiedade e resolvi não a sujeitar a isso"

1 jun 2023, 07:00
Crianças na escola

As provas de aferição estão a gerar polémica, sobretudo por se realizarem, pela primeira vez, em formato digital. Especialmente em crianças mais pequenas, do 2.º ou do 5.º ano. Os pais consideram que, apesar de serem nativos digitais, ainda lhes falta literacia e maturidade suficiente para realizarem um exame nestes moldes. Antes de se avançar para a digitalização das provas, consideram, muito há a fazer ainda nas escolas em matéria de inovação tecnológica. Por isso, há muitos pais que se recusam a levar os filhos à escola para realizarem as provas

Em casa de Susana Alves, a gestão do stress de final do ano letivo não é fácil. A mãe é professora do 1.º Ciclo e há duas crianças, uma com 10 (a frequentar o 5.º ano) e outra com sete (no 2.º ano). Este ano, o stress é acrescido, potenciado pelas provas de aferição.

A primeira etapa, a das provas de Educação Física, já está ultrapassada, mas, esta semana, arranca mais um desafio: ‘Bernardo´ (nome fictício) tem prova de Português já esta sexta-feira, dia 2 de junho, e ‘Júlia’ (também nome fictício) tem prova de Português e Estudo do Meio no dia 15. E estas provas não vão ser realizadas com caneta e papel. São digitais e vão ser realizadas no computador.

  • Calendário das provas de aferição:

Enquanto professora e mãe, Susana considera as provas de aferição em formato digital “uma aberração” e, por isso, já decidiu que nem ‘Bernardo’ nem ‘Júlia’ vão ser sujeitos a mais esse fator de stress acrescido.

“Nesta idade, o importante é a caligrafia, o saber ler e escrever. O computador deve ser usado, mas para ferramentas digitais práticas como consolidação das aprendizagens. E, antes deste processo, deviam chegar às escolas especialistas em TIC [Tecnologias da Informação e da Comunicação]”, argumenta Susana Alves.

As desigualdades

Também Raquel Rodrigues Pereira, jurista, decidiu que o filho mais velho, de sete anos e a frequentar o 2.º ano, não vai fazer as provas de aferição. Os motivos não são muito diferentes dos de Susana: “São crianças que ainda estão a consolidar a leitura e a escrita e das quais se pretende que preencham questões que mal sabem preencher à mão. Para piorar a situação, foi-me dito que as respostas e as provas têm tempo limite. Não considero de todo que isto traga qualquer tipo de vantagem à aprendizagem dos alunos.”

Para Raquel Rodrigues, há razões adicionais que a levam a condenar a realização das provas em formato digital, nomeadamente exporem as desigualdades entre escolas.

“Não houve qualquer preparação que possa justificar provas nessa modalidade. Conheço pais cujos filhos têm aulas com computador uma vez por semana e outros, como a turma do meu filho, que começaram a mexer no computador uma hora por semana no mês passado”, exemplifica.

“45 minutos para 19 ou 20 perguntas”

Tânia Correia é psicóloga, autora do blogue 3m’s e mãe de Letícia, de sete anos, que frequenta o 2.º ano. Além de decidir que a filha não iria realizar as provas, tem feito, na sua página do Instagram, uma verdadeira campanha contra as aferições em formato digital.

“Já no ano passado, com as provas em formato papel, a minha filha estava no primeiro ano e chegou a casa a contar como as crianças entraram ansiosas na sala para realizar as provas. Tinham medo de chumbar o ano. Os mais velhos passaram a ansiedade aos mais novos. Este ano, a característica digital das provas ainda me fez ficar mais revoltada”, começa por relatar.

“Este ano, um dos TPC que ela trouxe foi resolver um modelo de prova de aferição da Escola Virtual. Eram 45 minutos para resolver 19 ou 20 perguntas! Em quase todas tinha de escrever respostas. Não eram simples questões de escolha múltipla! Não mesmo! E era uma prova de Matemática, em que, por escrito, tinham de explicar o raciocínio para chegar ao resultado. Até para mim, adulta, havia algumas questões complexas”, exemplifica.

No mesmo dia, Tânia partilhou com os seguidores a indignação que sentia e diz que foi inundada de relatos de pais a quem tinha acontecido o mesmo. Alguns com o acréscimo do peso da responsabilidade que é incutido às crianças: “Na escola da minha filha, os professores até nem fazem grande pressão, mas há escolas onde os professores até incutem às crianças que passar ou não de ano depende destas provas.”

E o medo e o stress dos mais novos começa muito antes das provas. A psicóloga diz que, por esta altura, recebe muitos relatos “de pais com crianças que voltaram a fazer xixi na cama, estão na escola e sentem falta de ar ou que sofrem alterações alimentares”. “Muitas das escolas estão a fazer treinos e as crianças saem de casa em pânico com o computador, com medo de o partir. Não é um bem que levem para a escola de ânimo leve”, exemplifica.

Computadores não chegam a todos

Ana Isabel Marques tem duas filhas em idade escolar. Uma frequenta o 11.º ano e a outra o 5.º. A mais nova também deveria fazer as provas de aferição (a de Educação Física, que já aconteceu, a de Português já na sexta-feira e a de História e Geografia de Portugal no dia 6 de junho. Estas últimas em formato digital). Mas a mãe já decidiu que, na hora das provas, a filha não vai à escola.

“Decidi que a minha filha não fará as provas por não lhe ter sido atribuído kit informático para o efeito. Também por considerar que deveria existir um período de transição. Os alunos não têm a literacia digital necessária, porque a escola não lhas proporciona. A minha filha acusou grande ansiedade com toda esta situação e resolvi não a sujeitar a isso, porque alguém fechado num gabinete, sem a mínima noção da realidade, achou que teria de ser desta maneira”, justifica.

Ana Isabel assegura não ser contra o formato digital e sublinha que não é fundamentalista. Mas considera que “não se deve perder o equilíbrio entre o físico e o digital”: “Penso que não devemos perder a capacidade de ler, pensar, escrever”.

Anabela Sousa, professora, corrobora e sublinha que “nem todos os alunos possuem os computadores que o ministério ‘prometeu’ e há muitas escolas que não estão devidamente preparadas para este formato”. “É tudo feito em cima do joelho, como se costuma dizer. Não há a devida preparação dos alunos, o que provoca em muito deles ansiedade e stress completamente desnecessários. Antes de se tomarem decisões destas, devem-se preparar devidamente as escolas, bem como os agentes que estão a trabalhar nelas. Fornecer-lhes os meios e as condições necessárias à sua realização”, alerta.

Contra as provas de aferição, seja em que formato for

E se Ana Isabel admite que “provavelmente levaria” a filha à escola no dia das provas se elas fossem em formato tradicional, Anabela Sousa, que também é mãe de uma pré-adolescente a frequentar o 5.º ano, já tinha decidido que a filha não ia sujeitar-se a estas provas fossem em que formato fossem. “Além de não interferirem na avaliação final das disciplinas, não considero que a sua realização traga qualquer benefício ao aluno. Os resultados saem tardiamente, são transmitidos e explicados de forma muito abstrata e não lhes é dado nenhum tipo de importância. Principalmente, não contribuem de forma nenhuma para a melhoria das aprendizagens dos alunos. São um mero gasto de dinheiro e um acréscimo de trabalho para os professores sem nenhuma utilidade”, justifica Anabela Sousa, que, além de mãe, também é professora.

Uma opinião secundada por Susana Alves: “Não concordo mesmo com as provas de aferição. O seu objetivo não tem qualquer sentido numa educação baseada na flexibilidade curricular”.

“Não favorecem a criatividade das crianças. Pelo contrário, são um bom exemplo daquilo que não defendo enquanto meio de educação. As provas são castradoras da criatividade e não servem rigorosamente para nada, além do trabalho adicional para os professores. Não revelam o trabalho que é realizado dentro de uma sala de aula”, acrescenta Susana.

Uma espiral de esforço

O filho de Ruth Sá (que também é professora) é mais crescido e frequenta o 8.º ano. Mas também ele não vai realizar qualquer prova de aferição, porque a mãe não concorda com a realização das mesmas. “Não consigo encontrar um motivo para que estas se realizem a não ser a de os diretores e Ministério da Educação quererem mostrar resultados perante uma entidade que desconheço. E, aos alunos, mais propriamente ao meu filho, acresce-lhe a responsabilidade de não querer falhar perante os seus professores e de ser bem-sucedido, mesmo sabendo que não conta para nada. Assim, o stress e a ansiedade que estas provas provocam são inevitáveis, o que me preocupa imenso, pois não se justifica e é algo que pode trazer problemas emocionais no futuro. O meu filho não pode ser cobaia de um sistema que deveria ter em conta os principais interesses dos alunos, mas não tem”, explica.

“Estes alunos já foram avaliados durante o ano letivo, pois a avaliação é continua. Estão cansados e ainda vão fazer uma prova, quando as aulas ainda nem acabaram?”, questiona.

A psicóloga Tânia Correia até aceitaria as provas de ânimo leve se servissem para o Ministério da Educação “avaliar e perceber que estamos a exagerar e, assim, decidir abrandar nos conteúdos e nos programas”. “Mas o que vai acontecer é que os miúdos vão esforçar-se muito para conseguirem corresponder. E só vai fazer com que o ministério só escale mais o nível de esforço e de exigência dos conteúdos”, considera.

Desconhecimento sobre a não obrigatoriedade das provas

A maioria dos pais desconhece que as provas não são obrigatórias e que as crianças podem não as realizar. Por isso, Tânia Correia mantém a campanha de informação aos seguidores na sua página do Instagram.

“Só é obrigatório se a criança estiver na escola. Acho que o ministério não tem sido honesto com os pais, explicando que têm opção de os filhos não fazerem as provas”, diz.

Tânia garante que Leticia está muito mais tranquila e fez as pazes com a escola, desde o dia em que a mãe lhe garantiu que não precisava de ir fazer as provas de aferição. Entretanto,”até já realizou uma prova-treino de Português e resolveu-a com mais tranquilidade”.

A decisão, tomada em família, já foi comunicada à professora titular de Letícia e Tânia nem se preocupou em ocultar o motivo: A filha não vai fazer as provas de aferição porque não concorda com elas e, sobretudo, não concorda que sejam feitas em formato digital.

Problemas técnicos já não são só uma probabilidade

Esta quarta-feira, a Associação Nacional de Professores de Informática (Anpri) fez saber que a maioria dos alunos não conseguiu realizar a prova de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no tempo estipulado. Cerca de 80 mil alunos do 8.º ano foram chamados a realizar a prova de TIC entre 16 a 26 de maio e, segundo a Anpri, o teste decorreu com muitos problemas técnicos.

Apenas um em cada quatro alunos conseguiu realizar a prova nos 90 minutos definidos, avança a Anpri, com base num levantamento junto de mais de duas centenas de professores de Informática.

A maioria dos alunos ultrapassou o tempo, sendo que em muitos casos (49%) teve de ser dado “todo o período da manhã ou da tarde” para concluir a prova de aferição.

A maioria dos alunos viu o seu computador “totalmente bloqueado”, não conseguindo manusear o rato ou o teclado ou ficando sem acesso ao sistema operativo, lê-se no relatório hoje divulgado.

Nestes casos, foi preciso encerrar e voltar a iniciar o portátil, tendo esta anomalia ocorrido várias vezes e “em alguns casos, mais de uma vez ao mesmo aluno”, acrescenta a Anpri.

Houve também estudantes que durante a prova viram a aplicação encerrar “de forma inesperada” ou que ficaram com o ecrã do monitor completamente branco, sendo preciso reiniciar o computador.

Em todas estas situações, houve casos de alunos que, quando acederam de novo à prova, descobriam que as suas respostas não tinham ficado gravadas, tendo de voltar a resolver as mesmas questões.

Segundo os professores, “foram muito raros” os grupos onde não se registaram problemas.

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