É o resultado de um inquérito junto dos docentes da escola pública do país inteiro, realizado pelo Movimento de Professores em Monodocência e pela plataforma Metaprof
São poucos, muito poucos, os professores em monodocência (docentes do 1.º ciclo e educadores de infância) que se sentem satisfeitos com a profissão. A esmagadora maioria – 98% - demonstra sentimentos negativos em relação ao dia a dia de trabalho. O tom emocional é de “exaustão”, “indignação” e “sobrecarga”, de acordo com os resultados de um inquérito realizado pelo Movimento de Professores em Monodocência (MPM) e pela plataforma Metaprof junto dos docentes das escolas públicas e agrupamentos de escolas nacionais com ensino do pré-escolar e 1.º ciclo do ensino básico.
O inquérito reuniu 7072 respostas válidas de docentes dos grupos de recrutamento 100 (Educação Pré-Escolar) e 110 (1.º Ciclo do Ensino Básico), recolhidas entre 27 de fevereiro e 4 de março, “revelando um retrato consistente de desgaste profissional”. Os dados recolhidos revelam um cenário preocupante: 86% dos participantes afirmam que a monodocência é vivida como uma profissão de desgaste rápido, enquanto 72% consideram insuficientes os recursos humanos disponíveis nas escolas. O estudo revela ainda que os docentes acumulam, em média, 6,8 horas semanais de trabalho extra não reconhecido nem remunerado e quase metade dos inquiridos admite que pondera “algumas vezes” ou “frequentemente” abandonar a profissão. O inquérito mostra ainda um setor da docência envelhecido, já que 73,5% dos inquiridos dizem ter mais de 20 anos de serviço.
“Este relatório dá voz a milhares de profissionais que enfrentam uma sobrecarga muito acima do razoável, acumulando funções pedagógicas, emocionais, administrativas e assistenciais. A monodocência continua invisível e em profunda desigualdade face aos restantes ciclos de ensino”, resume Luísa Brandão, administradora do movimento.
Entre os fatores desgaste apontados destacam-se a acumulação de múltiplas funções pedagógicas e assistenciais, o aumento da burocracia e a indisciplina em contexto escolar, a par com turmas com demasiados alunos. Fatores que tornam também este regime profissional pouco atrativo para jovens em início de carreira.
“Não existe atualmente qualquer atratividade para captar novos candidatos para a educação pré-escolar e para o 1.º ciclo. Esta realidade, somada à rutura no número de docentes, já visível de norte a sul do país, deve constituir uma prioridade política urgente, sob pena de a muito curto prazo não existirem educadores e professores em número suficiente para assegurar as aprendizagens das crianças”, sublinha Paula Costa Gomes, também do MPM.
Assim, o Movimento de Professores em Monodocência pede uma revisão urgente do Estatuto da Carreira Docente, garantindo equidade para os grupos 100 e 110, e equiparação da componente letiva e reduções letivas aos restantes ciclos de ensino ou, em alternativa, criação de um regime especial de aposentação que reconheça o elevado desgaste associado à monodocência. Além disso, reclamam uma redução do número de alunos por turma e a constituição de um grupo de trabalho nacional com o objetivo de simplificar processos burocráticos e repensar o atual modelo organizacional das escolas.