Rumo à proclamada digitalização do sistema de ensino em Portugal, a maioria das provas de final de ciclo neste ano letivo de 2025/2026 já vão ser realizadas em formato digital. As do Ensino Secundário (11.º e 12.º anos) vão ser realizadas em papel e corrigidas digitalmente, num misto de correção automática e humana. Desconhece-se mais do processo do que aquilo que se sabe e isso está a suscitar várias dúvidas
Os exames nacionais do 11.º e do 12.º anos já dão azo a muitas preocupações por parte dos pais e dos professores e muita ansiedade entre os alunos. Afinal, as classificações podem ser decisivas no futuro académico e profissional de milhares de jovens. Os exames deste ano letivo arrancam já no próximo dia 16 de junho, com as provas de Português, Português Segunda Língua e Português Língua Não Materna do 12.º ano e ainda Economia A do 11.º. E terminam a 26 de junho, com Desenho A do 12.º ano e Filosofia do 11.º ano. (Veja aqui o calendário completo dos exames nacionais do atual ano letivo)
O caminho para a digitalização de vários procedimentos no ensino leva a que a avaliação das provas finais seja feita em formato digital, com a exceção precisamente do Ensino Secundário, onde as provas serão preenchidas em papel, posteriormente digitalizadas e corrigidas em parte automaticamente e, noutra parte, corrigidas também digitalmente por professores classificadores.
Cada um destes profissionais não vai ser responsável por um exame na totalidade. As questões entretanto digitalizadas vão ser distribuídas aleatoriamente, o que faz com que um professor classificador possa corrigir só uma resposta de vários exames ou várias respostas de vários exames.
O ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI), Fernando Alexandre, está confiante no processo. Em declarações à TSF, esta quarta-feira, disse que a operação está a ser levada a cabo por “entidades com muita experiência” e que “Portugal é exemplar nesta matéria”, considerando “alarmistas” as questões que têm sido colocadas em torno desta matéria.
Um dia antes, numa resposta por escrito a questões colocadas pela CNN Portugal, o MECI garantiu que “assegura os meios, a segurança e a fiabilidade do processo de digitalização, cujos aspetos organizativos e administrativos não serão divulgados por razões de segurança, com vista à proteção da integridade da avaliação externa e do interesse dos alunos”. Deixou, assim, muitas questões por responder: quem faz a digitalização das provas? Onde é que essa digitalização vai ser feita? Como fica garantida a correção clara dos itens de seleção no caso de engano do aluno na resposta? Como vai ser feita a distribuição das questões a corrigir pelos professores classificadores? Estas são apenas algumas das questões que subsistem.
As preocupações
Nas declarações que fez esta quarta-feira à TSF, o ministro Fernando Alexandre reforçou a ideia que já tinha deixado aquando da apresentação deste novo modelo de avaliação digitalizada. "Teremos uma avaliação mais rigorosa, mais objetiva, mais equitativa", voltou a garantir.
As declarações provocaram um sentimento de revolta entre os docentes. “O ministro está a pôr em causa o rigor e a competência dos professores. Está a colocar em causa o trabalho de milhares de professores classificadores nos últimos anos. Essa questão da equidade nem nunca sequer se colocou. Temos critérios de correção muitos específicos. Seja uma ou várias perguntas vamos guiar-nos sempre por esses critérios e nada vai alterar o rigor dos professores. Não é por um exame ser corrigido por vários professores que vai haver maior equidade”, assegura à CNN Portugal Cristina Mota, porta-voz do movimento Missão Escola Pública (MEP).
“O ministro está a usar um argumento para justificar esta mudança toda que não pode sequer se colocar. Qualquer erro que possa acontecer por parte de um professor classificador nunca será voluntário. Deve-se muito ao grau de cansaço e ao curto espaço de tempo que tem para corrigir as provas que lhe são atribuídas”, acrescenta.
A porta-voz da MEP teme mesmo que a correção em formato digitalizado possa dar azo a mais enganos: “Exige uma maior concentração. O professor estar a corrigir os itens no computador vai implicar maior esforço e maior desgaste.” “Tenho vários colegas a dizerem-me que vão imprimir as respostas para as corrigir primeiro em papel”, sublinha.
A MEP questiona ainda o modo (ainda desconhecido) como vai ser feita a digitalização das provas. “O ministro diz que ‘nenhum professor tem acesso ao original em papel dos alunos’. Nós não sabemos quem é que vai mexer nas provas porque não sabemos quem e onde é que vão ser digitalizadas. Nas escolas, enquanto professores classificadores, somos questionados se temos algum familiar a fazer os exames nesse ano, seja naquela ou em qualquer outra escola do país. Neste momento, se não sabemos quem vai ter acesso aos exames, como é que se vai fazer esse controlo?”, questiona Cristina Mota.
A MEP considera que há "opacidade em torno do processo de digitalização das provas e exames nacionais" e ameaça recorrer à Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) se o Ministério de Fernando Alexandre não der respostas. "Professores, alunos e encarregados de educação têm o direito de saber como decorrerá este novo modelo, que entidades terão acesso às provas e se existem, ou não, entidades externas envolvidas no processo de digitalização", defende.
Mais trabalho para os professores
As preocupações da MEP são partilhadas pelos sindicatos. “Importa assegurar que a introdução de ferramentas de correção automática nunca substitui o papel central dos docentes na classificação e validação pedagógica das provas. A avaliação dos alunos exige contexto, interpretação e sensibilidade pedagógica que não podem ser totalmente automatizados”, sublinha Pedro Barreiros, secretário-geral da Federação Nacional de Educação (FNE), em declarações à CNN Portugal.
“Preocupam-nos as condições técnicas e operacionais do processo: a fiabilidade das plataformas digitais, a proteção de dados, a segurança da informação, a possibilidade de erros de digitalização e o impacto que eventuais falhas possam ter na justiça da avaliação dos alunos”, reforça.
Mas as preocupações da estrutura sindical vão mais além e prendem-se com a própria preparação dos professores classificadores. “Há também questões relacionadas com a carga de trabalho dos professores classificadores, a necessidade de formação adequada para utilização destas ferramentas e a definição clara de responsabilidades em caso de erro ou discrepância nos resultados. A FNE entende que qualquer alteração neste domínio deve ser previamente testada, avaliada e negociada com os representantes dos professores, garantindo sempre confiança no sistema e igualdade de tratamento para todos os alunos”, sublinha Pedro Barreiros.
A FENPROF (Federação Nacional de Professores) junta-se ao coro de preocupações e diz que a digitalização das avaliações “exige muito estudo, muito debate, muita participação”. “Isto acarreta grandes perigos”, resume José Feliciano da Costa, um dos secretários-gerais.
“Olhamos para isto com alguma preocupação, alguma cautela. Pode conduzir a situações complicadas, até caóticas e à desvalorização do pessoal docente”, aponta. José Feliciano da Costa lembra que a digitalização tem mostrado algumas fragilidades e que a realização das provas ensaio em formato digital revelou alguma impreparação do sistema: “Temos relatos de problemas como falta de material e crianças que não conseguiram entrar porque a rede não aguentou ou era muito fraca. Temos até o relato de, numa escola, o diretor ter sido obrigado a ir ao chinês mais próximo comprar extensões, porque não havia tomadas suficientes para os alunos ligarem os computadores.” A FENPROF teme que estes sinais de impreparação para o digital se alastrem a este sistema de correção dos exames do 11.º e 12.º anos.
Mais burocracia e menos transparência
Cristina Mota teme que o processo tenha o efeito contrário ao desejado e traga ainda mais burocracia. “Acreditamos que este processo se vai traduzir num maior número de reapreciação das provas. Como desconhecemos como, onde e por quem vai ser feita a digitalização, entendemos que há riscos que criam a insegurança nos alunos e vai aumentar os pedidos de revisão, o que vai trazer mais trabalho para os professores que vão ter de rever os exames e mais burocracia para as escolas”, sublinha a porta-voz da MEP.
Alberto Veronesi, diretor do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais, em Lisboa, partilha algumas das preocupações e reconhece no processo “alguma falta de transparência”. “Os professores classificadores começam a questionar-me e eu não lhes consigo dizer mais nada além do que vai saindo nas normas enviadas. Acho que há aqui uma determinada obscuridade e pouca transparência que acaba por deixar as pessoas com dúvidas. Dá azo a que as pessoas levantem dúvidas, inventem ou digam o que lhes apetece”, defende.
O diretor escolar admite mesmo que este sistema de correção possa eliminar “algum enviesamento” que pudesse haver no sistema adotado até agora. Mas teme que traga outros. “Um professor classificador corrigir só uma pergunta de vários exames vai trazer enviesamentos. Qualquer coisa que seja feita em retalhos vai colocar a descoberto mais fragilidades. Um professor que viu a prova do princípio ao fim tem uma noção maior do que o aluno valerá e conseguirá fazer uma avaliação mais completa”, argumenta Alberto Veronesi.
O que se sabe e o que falta esclarecer
Mas, então, o que é que se sabe sobre o novo modelo de correção de exames do Ensino Secundário? Tal como nos outros graus de ensino, o processo está a ser conduzido pelo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), o novo organismo público responsável pela gestão da avaliação externa das aprendizagens, e pelo Júri Nacional de Exames (JNE).
“No caso dos exames nacionais, os alunos realizam as provas em suporte papel, em folhas de resposta preparadas para serem posteriormente digitalizadas. As folhas de resposta são posteriormente digitalizadas e colocadas numa plataforma informática, onde são classificadas por professores. A cada professor são atribuídos itens anonimizados para classificar”, explica, por escrito, o MECI.
As provas são realizadas num caderno de folhas com um QR code atribuído a cada aluno. Se os alunos necessitarem de mais folhas para as respostas de desenvolvimento, ser-lhes-ão distribuídas “folhas de continuação” que devem ser associadas ao QR code do aluno pelo professor vigilante, através do preenchimento de um novo campo.
Depois de preenchidas, as provas são recolhidas pelas autoridades (PSP e GNR) e conduzidas aos agrupamentos de exames (que foram, entretanto, reduzidos, o que também provoca algumas preocupações). “A partir do momento que as provas saem de cá, já não sei como se processa. O mais certo é que sejam digitalizadas no agrupamento de exames e distribuído por eles pelos professores. Calculo que não seja centralizado no Ministério, porque seria necessária uma estrutura muito grande que não sei se existirá”, adivinha Célia Almeida, diretora adjunta e responsável pelo departamento de provas e exames do Agrupamento de Escola de Portela e Moscavide, em Lisboa.
“Dos professores classificadores que as escolas apresentam ao agrupamento de exames, eles escolhem os que necessitam e distribuem por eles as perguntas a ser corrigidas”, acrescenta Célia Almeida.
Nas questões de seleção, depois de digitalizadas, serão colocadas numa plataforma que as corrige automaticamente. Os cadernos das provas estão preparados para isso. A informação que está a ser passada aos alunos é que devem “preencher uma bolinha”, assinalando a resposta correta. Se se enganarem, devem inutilizar a resposta dada, desenhando um quadrado à volta e assinalar nova resposta. Se voltarem atrás ou resolverem assinalar uma terceira opção, devem escrever ao lado a opção final. A CNN Portugal perguntou ao MECI se a plataforma de correção automática estaria preparada para reconhecer estas trocas e de que forma é que isso estaria assegurado, mas até ao momento da publicação deste artigo, não obteve qualquer resposta.
Este processo não se aplica às provas de Geometria Descritiva e Desenho, que serão corrigidas no modelo tradicional.
Célia Almeida lembra que a prova de Filosofia do ano letivo 24/25 já foi feita neste sistema e “não correu mal”. Por isso, tem esperança que tudo “corra bem” este ano. No Agrupamento de Escolas da Portela e Moscavide, já houve reuniões de esclarecimento com o EduQA, que deixou direção e professores “mais tranquilos”.
“Já foram pedidos os enunciados, já temos a imagem dos modelos de papel, até porque temos de os divulgar junto dos alunos. Precisamos de saber mais algumas coisas muito específicas. Quando estamos com um processo totalmente novo e ao qual somos alheios, porque a digitalização é da responsabilidade do EduQA, há sempre pequenas dúvidas que é necessário esclarecer”, acrescenta Luísa Belo, responsável pela avaliação externa das aprendizagens da Escola Secundária António Damásio, do Agrupamento de Escolas de Santa Maria dos Olivais.
Cristina Mota considera que ainda há muito a esclarecer, sobretudo sobre o processo de digitalização das provas e distribuição pelos professores. “Quem é que está a ganhar com este sistema de digitalização? Alunos e professores não são garantidamente!”
