Os resultados de um inquérito do movimento Missão Escola Pública são avassaladores: a maioria dos casos dizem respeito a agressões verbais, mas também há casos de ameaças, coação e até agressões físicas. Os alunos são mesmo os principais agressores
Pelo menos 59% dos professores ouvidos num inquérito do movimento cívico de docentes Missão Escola Pública (MEP) revelam já se terem sentido vítimas de bullying no exercício da sua profissão. Quinze por cento admitem mesmo já terem estado de baixa médica por causa do bullying que sofreram enquanto professores.
“Estes 15% de baixas médicas provocadas por situações de bullying é um dado muito importante, porque a falta de professores que existe leva a que seja muito difícil substituir estes docentes, agravando ainda mais a falta de profissionais qualificados nas escolas”, sublinha Cristina Mota, porta-voz do movimento, em declarações à CNN Portugal.
Apenas 18% dos inquiridos revelam ter reportado os incidentes à Escola Segura ou a qualquer outra autoridade. A ausência de denúncia, garante o movimento, deve-se ao sentimento de desamparo e de falta de apoio institucional sentido pelos docentes. “O estudo revela também que, embora a maioria dos professores reconheça o impacto do bullying no seu bem-estar e saúde mental, 70% dos docentes afirmaram que não existem medidas eficazes por parte das instituições para lidar com estas questões, o que aumenta o cansaço e a frustração profissional”, nota o movimento Missão Escola Pública, nas primeiras conclusões divulgadas esta sexta-feira e a que a CNN Portugal teve acesso em primeira mão.
“Estes professores sentem que, junto das direções, não vale a pena denunciarem. Sentem é que tentam abafar as situações”, sublinha Cristina Mota.
O MEP inquiriu professores de escolas de todo o país, entre 13 e 26 de janeiro de 2025. Obteve 2.529 respostas, uma “amostra, representativa de várias faixas etárias, regiões geográficas e grupos de recrutamento”, que “mostra que a classe docente é predominantemente envelhecida e feminina”, já que a maioria dos respondentes (46,1%) se situa na faixa etária entre os 51 e os 60 anos, seguida da faixa entre os 41 e os 50 anos (31,4%). “A amostra é predominantemente feminina, com 80,6% de mulheres e 19,2% de homens, refletindo a composição maioritária de mulheres na profissão docente em Portugal”, faz notar o movimento.
A maioria dos casos de bullying relatados pelos professores dizem respeito a agressões verbais (63,3%) e a ameaças (47%), mas também há casos de coação, perseguição e até agressões físicas. Questionados precisamente sobre se alguma vez já tinham sido vítimas de agressões físicas no exercício da profissão, 9,5% respondera afirmativamente, sendo que 87% dessas agressões provêm de alunos, mas também se registam agressões por pais (8%), de colegas de trabalho (2,7%) e até de elementos das direções escolares (2,4%).
“Embora o bullying por parte dos alunos não seja uma surpresa, o facto de os pais e encarregados de educação estarem também envolvidos sublinha a complexidade do problema e a necessidade de sensibilização para a importância do respeito nas relações familiares e escolares”, escreve o movimento, nas conclusões enviadas às redações.
Quase 45% dos professores já se sentiram ameaçados, sendo, mais uma vez, os alunos a estarem na origem da maioria dos casos de ameaças (57%), seguidos de pais e encarregados de educação (48%).
Cerca de 43% dos professores inquiridos dizem já ter sofrido coação no seu percurso profissional, com 59% dos casos atribuídos às direções escolares. A falta de professores tem reflexo nesta matéria, uma vez que 10% dos professores foram pressionados a aceitar horas extraordinárias de aceitação voluntária. “Há relatos de coação para o sobretrabalho, mas há também relatos de coação no sentido de atribuírem melhores notas aos alunos e a consequente progressão dos mesmos. Entendemos que isto é muito grave e só mostra que deve ser revisto o modelo de gestão das escolas, como temos vindo a apelar que seja feito”, sublinha Cristina Mota.
Só este ano letivo, 11% dos professores inquiridos admitiram já ter estado de baixa médica por causa do desgaste provocado pela indisciplina dos alunos, pela burocracia, pelo sobretrabalho e pela autocracia das direções escolares.
É em Lisboa (26,29%) que são relatados a maioria dos casos de bullying, seguida pelo Porto (18,11%) e Setúbal (15,36%). Sessenta e dois por cento dos casos dizem respeito a mulheres e 58% dos homens.
“Estas são só as primeiras conclusões. Temos muitos mais dados, que ainda estamos a analisar. Mas entendemos divulgar já estes dados para começarmos a debater o assunto, porque consideramos este assunto muito preocupante. Por exemplo, entre os dados que estamos a analisar, está a indicação de que é nas disciplinas com mais insucesso que estão mais casos de professores vítimas de bullying. Ou seja, é entre os professores de disciplinas como Matemática ou Português que estão mais casos de agressões, pressões, ameaças ou coação”, nota Cristina Mota.
“Notámos que muitos docentes recorreram ao inquérito como uma forma de desabafar. A última pergunta, que deixámos em aberto para as pessoas escreverem, houve pessoas que escreveram tanto, tanto, tanto. E que contaram histórias que nunca tinham contado a ninguém. Tivemos o caso de um colega que relatou que foi vítima de ameaça com arma de fogo, quando tentava evitar um assalto. Ele não nos deu indicação de que tivesse reportado a situação à Escola Segura”, acrescenta a porta-voz do MEP.
O MEP já solicitou uma audiência ao Ministro da Educação, Ciência e Inovação para a apresentação do relatório e pede ao Governo que tome ações imediatas para implementar as propostas e recomendações que apresentam. Os docentes pedem “um ambiente escolar respeitador e seguro para todos os docentes”. “Este é um problema que exige atenção e intervenção urgente para que a saúde física e emocional dos professores seja devidamente protegida”, sublinha o MEP.
Entre as medidas propostas pelo movimento, estão o regresso da figura do vigilante aos recreios das escolas, a criação de um gabinete jurídico nas autarquias “a que os professores possam recorrer para denunciar estas situações e aconselharem-se sobre o que fazer”, medidas de reforço da autoridade do professor e da responsabilização do aluno e disponibilização de apoio psicológico aos professores vítimas de bullying. O MEP pede ainda à Escola Segura que crie uma campanha nas escolas, “à semelhança das que têm sido feitas e que têm como objetivo evitar o bullying entre alunos”.