A escola deixou de ser um lugar feliz: “As salas de professores parecem um velório”

20 jan, 07:00
Regresso às aulas em confinamento

Esta sexta-feira, há nova ronda negocial entre o ministério da Educação e os sindicatos dos professores. Entretanto, a tristeza e o cansaço destes profissionais, a falta de meios materiais e humanos, currículos extensos e horários pesados parecem sobrepor-se ao riso e às brincadeiras das crianças. Ouvimos alunos, professores, pais, assistentes operacionais e psicólogos e o retrato não é bom: a escola está a deixar de ser um lugar feliz e as carências do ensino público adensam o fosso da desigualdade social

Mara tem 13 anos, um sorriso fácil, irradia boa disposição e apresenta um discurso coerente e escorreito, de quem sabe bem o que quer. Estuda no 7º ano no Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, em Óbidos, e é atleta de alta competição. Depois de um intenso dia de aulas e do treino de natação, já a noite vai adiantada, Mara arranja tempo para nos falar da escola. Queixa-se do peso dos horários e dos currículos escolares.

“Temos demasiados trabalhos de casa, pouco tempo livre e pouco tempo para nós. E não é exclusivo do meu ano. Tenho colegas mais velhos, que já estão no 9º ano, que também dizem que se sentem cansados”, relata.

E, confessa, gostava de encontrar mais compreensão dos professores em relação a este assunto: “Tenho a sensação que, às vezes, não se colocam no nosso lugar. Não pensam na quantidade de trabalhos que nos dão e na carga horária que temos.”

“E gostas da escola, Mara?”

“Depende dos dias. Dos horários, dos professores que tenho nesse dia.”

Mara sabe que os professores também estão cansados e desmotivados e que isso se reflete no ensino. Professores sem tempo e sem capacidade para dar espaço à inovação e à criatividade, fatores imprescindíveis para a motivarem a ela e aos colegas.

Corpo docente envelhecido

Joana Marcão, mãe de Mara, até já foi professora. Foi educadora de infância e depois professora de ensino especial. Mas desistiu de andar a percorrer o país, com a casa às costas. Andou por Felgueiras, Vila Nova de Santo André, Santiago do Cacém e Lisboa. A família ia ficando sempre em Óbidos e nas Caldas da Rainha.

Há cinco anos, disse “basta!”. Tirou um curso de design de interiores e agora tem um atelier em Óbidos e trabalha com decoração de interiores e com gestão de alojamentos locais.

Joana Marcão já foi professora. Cansou-se de "andar com a casa às costas". (Arquivo pessoal Joana Marcão)

É como mãe que agora olha para o ensino público com preocupação: “Sinto que o corpo docente está muito envelhecido e cansado, o que é legítimo, mas impede os professores de acompanhar os alunos nas novas tecnologias, nos ecrãs, por exemplo. E essa é a linguagem deles agora. Os professores mais novos, quando são colocados, até vêm com uma lufada de ar fresco, mas depois não têm condições para trabalhar e depressa desmotivam.”

“Os professores estão em luta e eu apoio completamente. Ou isto muda, ou dentro de muito pouco tempo a qualidade do ensino público está em risco”, acrescenta.

Ricardo Silva, 58 anos, professor de História na Escola Secundária D. Carlos I, em Sintra, agradece o apoio e pede a todos os pais que se juntem aos docentes nesta luta pela escola pública. Reconhece a desmotivação e o cansaço dos professores e lembra: “Se não ganharmos esta luta, são os nossos filhos que perdem, porque estamos aqui a lutar também pela escola pública.”

“Um país que não investe na educação é um país sem futuro”, sublinha.

Professores “em sofrimento a dar aulas”

Ricardo está no sétimo escalão da carreira docente. Mas teve a carreira congelada muito tempo e duvida que algum dia chegue ao topo. O salário que vê na conta parece ter congelado também: “Em 2010, levava limpos para casa 1605 euros. Doze anos depois, levo 1625 euros líquidos”.

E reconhece algum privilégio, tendo em conta o panorama geral. “Os contratados estão a trabalhar um ano ou 20 anos e o salário é o mesmo!”, realça.  

O discurso de Ricardo reflete a mágoa, o cansaço e o desalento. Mas é também o espelho do amor à profissão. Não desiste porque a escola é a sua paixão. “Mas já começamos a reservar as nossas forças para dentro das salas de aula. Entregamo-nos de coração e damos o melhor aos nossos alunos”, confessa.

“Tenho colegas em sofrimento a dar aulas, com depressões profundas. E não podem meter baixa, porque o salário já é curto. E em vez de os colocarem com componente não letiva a fazer outros serviços fundamentais nas escolas e para os quais seriam muito válidos, insistem em pô-los diante de turmas com 30 alunos”, acrescenta.

“As salas de professores, hoje em dia, parecem um velório. Os professores estão deprimidos e doentes”, retrata.

Assistentes operacionais: paus para toda a obra, poucos, sem formação e mal pagos

Ricardo Silva é também presidente da Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino (APEDE). A mulher também é professora. Ambos conhecem bem a escola pública. E não é só nos professores que se reflete a carência do ensino público.

“Sinto-me mal quando entro numa escola e olho para os assistentes operacionais, sabendo o que eles ganham. Estão há 20 anos numa escola, vem um colega novo e vem ganhar o mesmo que eles”, lamenta Ricardo.

Isabel Nunes confirma. Tem 64 anos, é assistente operacional há 35 e está há 32 na Escola Secundária Alfredo dos Reis, no Seixal. “Desde a troika que estrangularam vencimentos, carreiras, tabelas remuneratórias. No mês passado, trouxe para casa mais cinco euros do que o ordenado mínimo nacional”, conta.

“Nós agora para chegarmos ao topo da nossa carreira temos de descontar 100 anos. Ninguém desconta 100 anos. Eu trabalho há 35 anos e não estou no topo da carreira e nem vou lá chegar.  Qualquer assistente operacional que inicia agora inicia no índice 5, os outros 4 foram engolidos. A diferença entre quem entra agora e quem lá está há 30 anos é de cinco euros. Isso tira-nos o brio”, acrescenta.

Isabel Nunes queixa-se de trabalhar há mais de 30 anos e ganhar pouco mais do que o salário mínimo. (arquivo pessoal Isabel Nunes)

À semelhança de Isabel, Sónia Almeida faz um retrato de uma profissão que é pau para toda a obra: “Limpa o chão, limpa as lágrimas, limpa as feridas, ouve desabafos… somos multifunções”.

Sónia tem 36 anos e 15 de serviço. A escola onde trabalha é um "paraíso", reconhece, comparada com relatos de colegas que vai ouvindo. Sabe que há escolas onde não há profissionais e a formação é escassa. “Lidamos com casos sociais complicados – fome, assédios sexuais… Aqui, ainda vamos tendo psicólogos, nutricionistas e formação. Mas há escolas onde isso não acontece”, diz.

Isabel corrobora: “Muitas vezes somos os primeiros psicólogos deles. Connosco é que eles vêm ter. Se o pai foi duro, se não têm dinheiro para lanchar… às vezes estamos lá para colocar um pouco de bom senso na cabeça deles. Já me aconteceu jovens que iam iniciar a sua vida sexual virem ter comigo pedir conselhos.”

“A escola pública é inclusiva, tem de ter todos os alunos, com especificidades muito variadas e nós não estamos preparados. Não estamos preparados para lidar com as educações especiais e com o que elas necessitam, por exemplo”, acrescenta Isabel Nunes, lamentando o “esquecimento” a que são votados os assistentes operacionais.

Sónia Almeida, assistente operacional há 15 anos, diz que não desiste da profissão porque gosta da escola. (Arquivo pessoal Sónia Almeida)

Sónia diz que é confrontada muitas vezes com a possibilidade de mudar de profissão: "Dizem-me muitas vezes 'és nova, porque não mudas?' e eu respondo 'porque gosto!". Está de baixa, a recuperar de uma cirurgia, e sente tanta falta da escola que pondera pedir ao médico para regressar ao trabalho.

“Há uns 30 computadores e só uns oito funcionam”

Mara ouve estas queixas das assistentes operacionais diariamente. E assina por baixo: “Há só uma assistente operacional para cada bloco. E, às vezes, acontecem coisas aos alunos e não encontro adultos para ajudar”.

Mas há mais. Mara queixa-se de falta de Internet. “Não há replicadores de sinais e há muitas salas onde não há sinal de Internet e não conseguimos sequer abrir um site”.

“Se eu pudesse, mudava a carga horária e punha tecnologia mais avançada na nossa escola. Na sala de TIC, há uns 30 computadores e só uns oito é que funcionam”, contam.

O professor Ricardo Silva assina por baixo. Fala em escolas com “computadores lentos, muito antigos, sem software, sem antivírus”, em “projetores com mais de 15 anos”, em que “as luzes já deram a volta ao conta quilómetros várias vezes”.

Os professores têm aproveitado a luta profissional para elencar, nas redes sociais, as lacunas que identificam na escola pública. 

“Há aquecimento, mas não se pode ligar porque não há dinheiro para pagar o acréscimo na conta da eletricidade. As escolas até têm ar condicionado, mas os quadros não suportam os aparelhos a funcionar. Para arranjar um estore, a escola tem de pedir um ticket à autarquia. Demora, às vezes, meses a arranjar”, relata Ricardo Silva.

O professor sublinha que “tudo isto prejudica a aprendizagem” e tudo isto adensa o fosso da desigualdade.

A importância do bem-estar

David Rodrigues é um profundo conhecedor da escola pública, da qual se confessa “defensor feroz e comprometido”. Também ele professor, é especialista em educação e presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial. David Rodrigues resume as carências da escola pública em três grandes áreas que vê como fundamentais:

“Desde logo, a autonomia. A importância de fortalecer a autonomia das escolas. É um fator extremamente importante de qualidade e de adequação às necessidades que a escola tem de responder. E a autonomia do currículo – a escola poder escolher melhor o currículo que melhor serve aos seus alunos e a forma de apoio aos alunos com mais dificuldades”, começa por enumerar.

“Mas há ainda a carência de meios. Meios humanos - precisaríamos de mais adultos, mais meios humanos nas escolas para responder a mais necessidades e a mais áreas de enriquecimento curricular. E mais recursos materiais - muitas escolas equipamentos laboratoriais e informáticos com problemas grandes”, acrescenta.

“E falta bem-estar. O bem-estar docente – os professores sentirem-se estimados e bem na sua carreira. O bem-estar dos alunos – as crianças e os jovens sentirem-se acolhidos na escola. E o bem-estar de todos os outros técnicos”, remata.

A falta de psicólogos

E o bem-estar emocional dos agentes escolares é outra das preocupações. Até porque é apontada à escola pública uma carência de psicólogos, que foi acentuada pela pandemia. “Tivemos uma crise pandémica e uma guerra com as consequentes crises económicas. Triplicaram o número de sinalizações nos serviços de psicologia das escolas”, destaca Sofia Ramalho, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

À falta de psicólogos nas escolas, soma-se a escassez de recursos nos centros de saúde. E muitas crianças e jovens têm necessidades de intervenção individual clínica. “Os psicólogos estão mais sobrecarregados ainda. Veem-se a braços com a necessidade de fazer intervenção clínica dentro das escolas, que é algo que não compete ao psicólogo escolar”, acrescenta.

Para Sofia Ramalho, é também importante um olhar transversal para a distribuição dos psicólogos no país: “Algumas comunidades são mais afetadas pelas consequências socioeconómicas e essa particularidade não é tida em conta na maior parte dos casos”.

A participação das famílias

David Rodrigues sublinha também a importância da participação das famílias e exorta as escolas a “criar ambientes que não sejam abrasivos”.

“A escola tem um estatuto benigno. Podemos desenvolver nas escolas ideias que não sejam discriminatórias, mas sim humanistas. As escolas têm de criar modelos que os aproximem das famílias. Muitas vezes, a nossa relação com as famílias é muito formal. Podemos ir buscar exemplos práticos a outros países, promover encontros de pais que não sirvam só para falar dos filhos, promover os lanchinhos… é preciso que as escolas levem os pais às escolas não só para falar dos comportamentos dos filhos e do horário do ano seguinte”, exemplifica.

Ricardo Silva também pede a colaboração dos pais e das famílias. Mas pede, acima de tudo, confiança. O professor de História fala da importância do “triângulo Alunos, Professores e Famílias, que tem de funcionar de forma harmoniosa, e onde cada um tem de saber quais os seus limites”.

“Qualquer encarregado de educação, hoje em dia, tem liberdade para dar palpites sobre métodos de ensino, sobre forma de dar aulas. Não vejo isto a acontecer com outros profissionais. Ninguém diz a um médico como fazer um diagnóstico”, exemplifica.

David Rodrigues e Ricardo Silva destacam a importância de uma escola pública sólida na sociedade. Elimina desigualdades e acolhe todos, sem olhar a estratos sociais. “A escola pública nunca pode ser substituída por uma escola privada. Porque nós nunca fazemos seleção de alunos”, diz Ricardo Rilva.

“É importante falarmos também dos méritos da escola pública. Tem dado as referências da nossa educação. Não é da escola privada que vêm as referências da nossa educação, a inclusão, o perfil de saída dos alunos, a escola em tempo integral, os 12 anos de educação, combate à desigualdade. Balizas que são depois seguidas pelas escolas privadas”, acrescenta David Rodrigues.

Para o especialista em Educação, “quem desvaloriza este mérito só o pode fazer por despeito ou frete político”.

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