Tim Vieira fundou uma escola que é um "hub", na Raíz os alunos é que pedem os trabalhos de casa. Os novos métodos de ensino estão a ganhar popularidade

25 set, 12:00
Brave Generation Academy

Denominam-se como novos movimentos ou métodos alternativos de ensino e reclamam ser mais focados nas crianças. Muitos existem há décadas, mas tornaram-se populares nos últimos anos. Fomos conhecer a Brave Generation Academy e a Escola Raíz

Esta escola não é exatamente uma escola. Aqui, não há secretárias com lugares marcados, não há horários ou campainhas a assinalar a entrada. Aqui, a escola é chamada de ‘hub’ e assemelha-se muito mais a um espaço de coworking. Há salas onde os alunos se reúnem com outros alunos e com os seus learning coaches. Há salas de reflexão e de concentração. Há salas de descontração e há frases motivacionais espalhadas por todo o lado. Aqui cada um aprende ao seu ritmo e de acordo “com as suas paixões”.

“Paixão” é, aliás, a palavra que domina a conversa entre Tim Vieira, fundador da Brave Generation Academy (BGA), e a CNN Portugal.

“Precisamos de começar a ter crianças mais criativas, mais felizes, mais apaixonadas, mais empoderadas. Quando as nossas crianças vão para as universidades, por exemplo, são muito mais pro-ativas, mais confiantes”, alega o empresário e empreendedor Tim Vieira, que conhecemos do programa de televisão Shark Tank Portugal.

Tim Vieira fundou a BGA para responder às necessidades dos seus três filhos, as “cobaias” do projeto, como o próprio lhe chama. “Queria ter uma opção de um sistema de educação que fosse relevante para os meus próprios filhos. Eles estavam numa escola privada e corria tudo bem mas eu via neles e também nas pessoas que contratava para as minhas empresas que a escola não os estava a preparar para o mundo de hoje”, conta.

Nos hubs, as salas de aula não têm a composição típica a que estamos habituados. (Facebook BGA)

Tim diz que queria “uma escola flexível, onde as crianças pudessem encontrar e cultivar os próprios talentos” e “professores supermotivados a trabalhar atrás, numa plataforma”. “Misturei a tecnologia, a sustentabilidade, sítios onde os nossos estudantes pudessem fazer experiências, desenvolver os seus talentos e as suas paixões e também aprender”, revela Tim, em jeito de receita mágica de cozinha, daquelas que nunca falham. Foram as premissas que lhe serviram de base para fundar a BGA.

“De Cascais para o mundo”

No dia-a-dia, as crianças que frequentam a BGA estão fisicamente no hub e têm os chamados learning coaches (“pessoas que estão com os nossos jovens se certificam que estão a cumprir o seu percurso académico, mas também os ajudam a encontrar outros interesses, outras vocações, outras paixões”). Não são exatamente professores, porque esses estão com os alunos online, “através de uma plataforma”. São antes orientadores ou tutores, “a tradução em português que consideramos mais aproximada”, explica Tim Vieira.

Cada hub, tem 30 crianças e dois learning coaches. Mas nenhuma criança está presa a nenhum hub. “As crianças podem frequentar um hub hoje e ir a outro amanhã. Isto responde a uma série de necessidades da sociedade e das famílias atuais. Responde, por exemplo, às necessidades de uma família separada, em que uma criança frequenta um hub quando está com a mãe e outro quando está com o pai. E isso não tem mal nenhum”, exemplifica o fundador do projeto.

Aqui, não há período de férias grandes definido. Fecham duas semanas no Natal e uma na Páscoa. Mas as famílias é que decidem quando lhes é mais conveniente tirar férias em família: se um estudante tira férias em agosto, está tudo bem, mas, se outro tira férias em novembro, também está tudo bem.

Na Brave Generation Academy, os alunos são convidados a desenvolver paixões fora do currículo. (Facebook BGA)

A BGA nasceu há três anos, embora apenas em setembro do ano passado tenha arrancado de forma oficial. O primeiro hub nasceu em Cascais e já tem réplicas um pouco por todo o país: Porto, Braga, Coimbra, Leiria, Aveiro, Santarém, Lisboa, Algarve e Setúbal. E até já está presente no estrangeiro, nos Estados Unidos, África do Sul, Gana e Namíbia.

“Começou em Cascais e foi de Cascais para o mundo”, resume Tim Vieira.

Ao todo, são quase mil alunos em todo o mundo. Em Portugal, já são mais de 700.

Currículo reconhecido, mas à espera de equivalência

A BGA utiliza o British International Curriculum, “desenhado para responder às necessidades de todos os estudantes, desenvolvendo as capacidades dos mais brilhantes e dando suporte aos que necessitam de atividades de aprendizagem e ensino diferenciadas”. Tim Vieira reclama que é esta a filosofia que norteia a BGA, “reconhecida legalmente em Portugal, mas ainda à espera de equivalência no sistema de ensino português”. “Reconhecem o que estamos a fazer em termos de currículo, mas ainda não o conseguem enquadrar em termos de grau académico”, explica.

As aulas e o acompanhamento dos learning coaches é feita em inglês, mas ensinam-se outras línguas: vários níveis de português, espanhol, africânder e francês, por exemplo. Os estudantes têm entre 12 e 18 anos. “Até aos 12 anos, eu próprio considero que o modelo de ensino tradicional pode ser bom. Mas, a partir dos 12 anos, as crianças têm de ter paixões”, defende Tim Vieira.

Entre os 12 e os 14 anos, apesar de flexível, o currículo ainda é construído pelos tutores. “Ainda há História, Português, Matemática… o normal. Mas eles estudam ao ritmo deles. Ainda têm os livros, não é tudo online. Depois, é que se começa a dirigir mais para as capacidades de cada um.”

Frases motivacionais nas instalações da BGA, em Mombaça, no Quénia. (Facebook BGA)

A matrícula na BGA custa 600 euros e a mensalidade é de 485 euros. Não está ao alcance de todas as bolsas, admite Tim Vieira, mas aproveita para ressalvar que “nenhuma criança  que quer vir para a BGA não vem por falta de disponibilidade financeira dos pais”. O responsável explica que há uma estrutura de atribuição de bolsas e garante que 30% das crianças que frequentam a BGA recebem ajuda financeira.

“Líderes da própria aprendizagem”

Se na BGA se procura uma abordagem holística da criança, fomentando também a relação pro-ativa com o meio que a rodeia, na Escola Raíz, também se defende essa visão abrangente.

Margarida Silveira é psicóloga, diretora da Escola Raíz e diretora da Associação High Scope Portugal e High Scope trainer. A Escola Raíz, que se situa no Restelo, em Lisboa, foi a primeira instituição certificada no modelo High Scope em Portugal. “Mas já há muitos educadores a utilizarem o modelo. O processo de certificação é um processo muito moroso e nem sempre é possível fazê-lo ao ritmo que as instituições desejam”, admite.

Só na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, há 15 equipamentos em processo de implementação do modelo High Scope. Margarida Silveira garante que há muitas escolas na região do Minho a aplicarem já o modelo, e também nas zonas de Setúbal de Sintra. “E há muitos pedidos de certificação espalhados pelo país”, assegura a responsável da Associação High Scope Portugal, onde se dá formação a educadores sobre a aplicação do modelo.

Na Escola Raíz, aplica-se o método High Scope. (Facebook Escola Raíz)

Mas, afinal, em que consiste o modelo High Scope? Margarida Silveira explica que se trata de “um modelo de aprendizagem ativa, que tem por base a evolução da criança e todo o seu desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Valoriza as capacidades que as crianças têm de desenvolver a sua autoestima e a sua autoconfiança nas escolhas que fazem na sociedade.”

“Elas são líderes da própria aprendizagem”, resume.

Margarida Silveira explica ainda que o modelo assenta em quatro grandes áreas: interação entre criança-criança e adulto-criança, organização do espaço, avaliação e rotina. O modelo destaca-se também pelo sistema de avaliação da criança. “A avaliação da criança a partir do 1.º ano é feita em reunião com pai, professor e aluno”, exemplifica.

Quando as crianças pedem TPC

A Escola Raíz, com 24 anos de existência, acolhe crianças dos zero aos 12 anos. O currículo praticado é o mesmo das escolas tradicionais. O que a distingue é a forma do implementar. Os alunos são sujeitos aos mesmos exames nacionais dos estudantes das escolas tuteladas pelo Ministério da Educação. Margarida Silveira garante que os seus alunos têm resultados “habitualmente melhores”.

“A par com toda a aprendizagem ativa, em complemento, fazemos provas semelhantes ao do modelo transmissivo, para que os alunos estejam preparados para as provas nacionais. Os resultados são habitualmente melhores, porque têm aqui outras competências que estão a ser desenvolvidas. São crianças com mais autoestima, autoconfiança e capacidade de resolver problemas. São capazes de, perante uma adversidade, resolverem com competências que já usaram noutras áreas”, exemplifica.

Na Escola Raíz, não há TPC obrigatórios: “São as próprias crianças que os pedem, porque sentem que estão com mais dificuldades em determinada área.”

Margarida Silveira reconhece que a pandemia e os respetivos confinamentos fizeram aumentar a procura de informações pela escola e pelo modelo de ensino nela praticado. “Os pais perceberam a importância da autonomia das crianças, da confiança neles próprios e da capacidade de lidar com as adversidades. Os pais das crianças que já frequentavam a nossa escola ficaram admirados com a capacidade de reação e de resiliência dos seus filhos. Os pais tiveram a possibilidade de acompanhar as aulas dos filhos e de falarem com outros pais. Muitos vieram até nós também pela capacidade que tivemos de reagir às aulas online. Os nossos meninos não tiveram sequer um dia sem contacto com a escola”, enuncia.

“A parte emersa de um iceberg de mercado”

David Rodrigues conhece a escola e o sistema de ensino como poucos. Professor de Educação Especial, membro do Conselho Nacional de Educação e presidente da Pró-Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, vê com bons olhos a evolução de modelos de ensino ditos “alternativos”.

“São, no geral, muito positivos. Eles são alternativos a quê? Àquele ensino tradicional, de transmissão de conhecimento. É preciso apostar numa perspetiva mais ativa da aprendizagem, que envolva mais os alunos. E isso é um aspeto positivo destes novos métodos”, reconhece.

Contudo, David Rodrigues alerta para a mercantilização do ensino, que estes movimentos podem acarretar: “Muitos destes movimentos são a parte emersa de um iceberg de mercado. São programas que seduzem muito as pessoas, porque transmitem uma falsa sensação de segurança. Ainda assim, temos o exemplo do Brasil em que existem as escolas apostiladas – escolas que fazem parte de um movimento e as pessoas são formadas para esse movimento, os materiais são desses movimentos. É uma espécie de franchisado que felizmente não existe em Portugal.”

Defensor da escola pública, David Rodrigues assegura que “há muitas ideias alternativas nas escolas públicas”. “Há muitos projetos inovadores. Elas não estão paradas. A escola pública não está estagnada”, garante.

O especialista destaca ainda o papel dos pais na inovação do ensino. “Muitas vezes, quando a escola é muito inovadora, tem de combater pais conservadores. A participação dos pais é muitas vezes castradora dessa inovação. Os pais são muito importantes para a escola, mas não para serem professores ou diretores da escola.”

“É muito popular dizermos que temos uma escola do século XIV, com professores do século XX e alunos do século XXI. Não é verdade! Há novas ideias na escola, novas formas de aprender e novas formas de ensinar. A Educação sempre assumiu que tem de transmitir qualquer coisa. Isso torna a Educação um pouco mais reativa às mudanças que se operam na sociedade”, aponta.

David Rodrigues defende ainda que “é preciso que a educação continue a não estar estagnada e evolua, acolhendo ideias inovadoras”. E apela ao debate sobre educação dentro das próprias escolas.

Outros movimentos

A BGA e a Escola Raíz são dois exemplos de formas de transmitir o conhecimento fora da caixa. Mas há mais. Alguns movimentos ou modelos têm até muitos anos de aplicação, mesmo em Portugal, mas só agora começam a ser conhecidos. Eis mais dois já antigos e um mais recente:

Pedagogia Waldorf

A pedagogia Waldorf foi introduzida em Portugal na primeira metade do século XX, pela família luso-suiça, Abecassis/Leroi. Chegou a haver uma escola Waldorf em Lisboa que o regime de Salazar encerrou. Depois disso, o modelo manteve-se adormecido até 1980 aquando da criação da Associação Waldorf de Lisboa por Vera Leroi.

Em 1984, nasceu o Jardim de Infância S. Jorge nos arredores de Lisboa. Em 1988, nasceu a Escola Primavera no Algarve, que funcionou até 1996, do 1.º ao 8.º ano, e esteve na génese do Jardim de Infância Waldorf Internacional , sediado no concelho de Lagos. O jardim de infância tem capacidade para 44 crianças, entre os três e os seis anos.

Além do Jardim de Infância, há quatro escolas autorizadas pelo Ministério da Educação a lecionar entre o 1º e o 9º ano: a Escola Waldorf a Oliveira no Algarve, a Escola Casa da Floresta em Lisboa, a Escola da Terra em Sintra e a Escola do Jardim do Monte da HARPA, em Alhandra.

Movimento Pestalozzi

O movimento Pestalozzi está outra vez na moda, mas já tem mais de meio século de vida em Portugal. O Jardim-Infantil Pestalozzi foi criado, em 1955, por Lucinda Atalaya. Três anos depois, alargou a sua atividade à escolaridade primária, instituindo, desde sempre, a coeducação, oficialmente proibida na época.

O Jardim-Infantil Pestalozzi firmou-se, pode ler-se no site da instituição, “como uma escola que privilegiava a vivência das crianças, em contacto direto com o meio ambiente, e ainda a relação com os pais, baseada no diálogo e reflexão conjunta sobre as questões do desenvolvimento das crianças, bem como na sua participação em ações educativas”.

Método Vela Verde

O método surgiu em Itália, no início dos anos 80 do século passado. É aplicado em Portugal no Jardim Infantil Vela Verde, em Alfragide, uma cooperativa fundada há nove anos por um grupo de pais. Em termos curriculares, diferencia-se pela aprendizagem se fazer a partir da vontade das crianças, que “são estimuladas a pensar por si em vez de serem meros recetáculos das explicações dos adultos acerca do mundo”.

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