Sofia, Nandhitha, Sara e Telma. Quatro vítimas dos erros "esporádicos" nos exames nacionais

20 jul, 19:30
Exames nacionais
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O ministro diz que são “esporádicos”, mas avolumam-se os relatos de erros nos exames nacionais. Alunos que esperavam uma nota a rondar o 14 e tiveram 4 valores. Alunos de 18 que tiveram negativa no exame nacional. Folhas de continuação em falta ou trocadas. Itens de escolha múltipla mal classificados. Estes são apenas alguns exemplos de falhas na classificação dos exames nacionais que se espalham nas redes sociais e chegam à redação da CNN Portugal

O ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI) diz que são “esporádicos” os erros na classificação dos exames nacionais. Mas Sofia, Sara, Telma e Nandhitha têm, por experiência própria e conhecimentos próximos, dúvidas que assim seja. Quatro alunas do 12.º e do 11.º anos que viram a sua vida suspensa nas últimas semanas e viveram um fim de semana de ansiedade e de dúvidas. A segunda fase dos exames nacionais aproximava-se a passos longos e as suas provas apareciam como suspensas ou com notas que claramente não estavam à espera.

Sofia, aluna da Escola Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, quer entrar em Direito. Tem duas universidades como alvo - ISCTE ou Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. As médias são exigentes. Caiu-lhe o coração aos pés quando, na sexta-feira, viu na pauta um -3 no exame de Português. “A Sofia já não dormiu, porque ninguém tinha explicado que era um código”, começa por dizer a mãe da jovem, em declarações à CNN Portugal.

“Mas depois de perceber que era um código para um exame não corrigido ou extraviado, não fiquei mais descansada. Como é que eu ia provar que fiz o que fiz se o meu exame tivesse desaparecido?”, acrescenta Sofia.

E depois de a nota não deixar de estar suspensa também não ficou descansada. Aluna de 17 e 18 tinha nove valores no exame de Português do 12.º ano. “Fomos à escola de manhã. Na secretaria, enviaram-nos para o secretariado de exames, que tem sido impecável. A escola tem sido impecável. O nove na pauta da Sofia tinha duas razões: corrigiram a versão errada do exame (ela fez a versão 2 e corrigiram a versão 1) e não tiveram em conta a dislexia dela, apesar dessa ressalva constar”, relata a mãe Patrícia.

Sofia viu esta segunda-feira a prova e pediu ajuda aos professores para avaliarem se os critérios de correção foram ou não bem aplicados. Ficou bem mais descansada depois de perceber que, “à partida, vou passar de um nove para 17”. Mas até o caso ficar resolvido, pelo sim, pelo não, a escola aconselha-a a ir fazer o exame de Português já esta terça-feira.

A aluna de 14 que teve um quatro

Também no exame de Português, Telma Souza encontrou uma surpresa desagradável. Aluna de 14, esperava que a nota do exame fosse mais ou menos equivalente. Na pauta, encontrou um quatro.

“No sábado, cheguei à escola e tinha a minha nota suspensa. Passadas uma hora ou duas horas, tive acesso à nota que eu obtive, um quatro. Acho que algumas questões não foram bem corrigidas. Eu contava ter uma positiva, só que, na realidade, tirei uma negativa”, revela Telma, à reportagem da CNN Portugal, em frente à Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada, onde estava para pedir a reapreciação da prova.

“Fico indignada e em baixo. Quem se esforça bastante para obter o resultado pretendido e passa dias e dias a estudar…”, lamenta Telma, sem saber se vai ou não fazer o exame na segunda fase já esta terça-feira, porque, simplesmente, não se consegue inscrever enquanto o problema não for resolvido.

Pais "em pânico"

Goreti Costa, representante do movimento SOS Escola Pública, garante que as histórias de Telma e de Sofia se repetem um pouco por todo o país. Sente-se “assoberbada” com a quantidade de pais e encarregados de educação que a têm contactado para reportar problemas com a classificação dos exames dos filhos. “Os pais estão em pânico”, garante.

Com prazos apertados para tomar decisões, Goreti Costa diz que muitos pais se queixam que “não sabem como vão arranjar tempo para ver as provas com os filhos e cumprirem as suas funções nos seus locais de trabalho”. Patrícia, a mãe de Sofia, corrobora: “Eu não fui trabalhar hoje de manhã. A Sofia tem fisioterapia por causa de uma lesão num cotovelo. Hoje não foi e amanhã, para ir fazer o exame, também não irá e faz falta para a sua recuperação”.

Goreti Costa diz ainda que “as provas digitalizadas estão a chegar a conta-gotas” às escolas para serem disponibilizadas aos alunos. “Ora chegam respostas aos itens, sem as provas (de Português), depois as de Matemática, depois chegam as provas digitalizadas cada uma na sua vez. Há muitos pais sem qualquer informação até à hora em que falamos [13:10], só têm os itens com a classificação ou só a prova digitalizada sem as classificações”, revela a representante do SOS Escola Pública.

“E registamos relatos mais graves: pais a receber provas digitalizadas que não pertencem aos seus educandos, mas alguns deles têm a mesma classificação (os pais não sabem se é ou não a nota dos seus filhos, portanto)”, acrescenta.

A "ansiedade" de Sara

A madeirense Sara Pereira passou o último ano no Porto, a preparar-se só para fazer os exames nacionais. Realizou as provas de Matemática B e de Física e Química, dois exames que revelaram problemas generalizados na classificação.

Os exames nacionais de Física e Química A tiveram de ser reclassificados, por causa de um erro na avaliação de um item - o 7.1. Numa informação enviada esta segunda-feira às escolas e a que a CNN Portugal teve acesso, o Júri Nacional de Exames explicou que foi identificado “um problema de parametrização relativo à leitura automática do item 7.1 da versão 2 da prova de exame nacional de Física e Química A (715)”. 

No caso de Matemática B, em causa estava o item 6.2.1. Sara foi uma das alunas que viu o item ser classificado com 0, quando, de acordo com os critérios de avaliação, que viu de fio a pavio, tinha assinalado de forma correta.

“Pelos meus cálculos, em Matemática B tenho menos 14 valores em 200 e, em Física e Química, tenho menos 10 em 200”, contabiliza. São pontos que podem ditar ou não a sua entrada em Medicina, com que tanto sonha.

Não vai pedir reapreciação da prova, porque acredita que não vai ser necessário, já que pediu a retificação e acredita que a verdade será reposta.

Sara, que fez também o exame de Biologia e Geologia, só teve acesso às classificações esta segunda-feira. Como era aluna externa, as notas não lhe foram enviadas por via eletrónica e só as conheceu quando as viu afixadas no painel da escola. “Fiquei muito ansiosa porque queria muito ter 19 a Biologia. Tinha muito medo de ter 14, como vi colegas minhas terem a Português, quando estavam à espera de mais. Felizmente, tive o meu 19 a Biologia”, festeja.

Resposta certa considerada errada

Do Porto viajamos até ao Algarve para conhecer a história de Nandhitha Kammath, aluna do 11.º ano da Escola Secundária de Vila Real de Santo António. No exame de Geografia, logo no primeiro item, assinalou uma resposta. Arrependeu-se e seguiu as orientações dadas: colocou uma cruz sobre essa resposta, anulando-a, e assinalou a resposta correta. Quando teve acesso às classificações e ao PDF da sua prova constatou que tinha zero nesse item e não os oito que devia ter.

São oito valores em 200, mas que podem subir a nota de 145 para 153 e ser determinantes daqui a um ano quando precisar de apresentar essa classificação na candidatura ao Ensino Superior, já que, obrigatoriamente, terá de apresentar a nota de um exame do 11.º e duas do 12.º. “Vou pedir reapreciação de prova ainda hoje”, garantiu.

Vai ter de pagar 25 euros para ver a prova reapreciada, já que o ministro recusa abolir a taxa afixada, que classifica de "taxa moderadora".

A jovem só fez o exame de Geografia. Foi a única falha que detetou, mas tem colegas a lamentarem muitos outros. “Um colega teve o exame de Física e Química trocado e tirou uma nota muito mais baixa do que estava à espera, porque, na verdade, não é a nota dele. Tenho também colegas na minha turma que tiveram exames mal corrigidos na parte de escolha múltipla a MACS e Geografia”, relata.

Outros relatos

À redação da CNN Portugal chegaram dezenas de outros casos. Alguns foi possível confirmá-los, mas pais, alunos e professores decidiram não os contar de viva-voz. É o caso de uma professora que testemunha a ansiedade dos alunos que viram falhas nas classificações dos itens de seleção de Português e Geografia. É também o caso, por exemplo, de uma jovem, “aluna de 18” que viu um dos seus exames serem classificados com 9,2. Tinha realizado a versão 1 do exame e a correção é da versão 2.

Tal como a maioria dos jovens, esta aluna podia inscrever-se já esta segunda-feira no Ensino Superior. Não o pode fazer. Vai ter de esperar pelo resultado da reapreciação, cuja data limite de afixação é 7 de agosto. A candidatura à primeira fase do Ensino Superior termina a 6 de agosto. O ministro assegura que “nenhum aluno será prejudicado”, mas estes jovens podem ter de se inscrever apenas na segunda fase de candidaturas ao Ensino Superior, que tem muito menos vagas do que a primeira.

Em antena da CNN Portugal, durante o fim de semana, Goreti Costa relatou o caso de um encarregado de educação que contactou o movimento e cujo educando tinha média de frequência a Matemática de sete valores. No exame, teve 19. Aqui, o aluno saiu beneficiado e, naturalmente, não deverá pedir reapreciação da prova. Os enganos que beneficiam os alunos criam outra desigualdade: estes jovens vão concorrer ao Ensino Superior em pé de igualdade com os alunos cujas notas são reais e verdadeiras. 

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