Miluxa leva os alunos ao Teatro. Helena faz cinema com eles. Estas professoras transformam a arte em arte de ensinar

13 jun, 08:00
Maria Helena e Miluxa
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O ensino é uma paixão para ambas. Ensinar é uma missão. Levam o mundo para dentro da sala de aula e trazem a escola para fora de muros. Helena e Maria Emília usam a arte para motivar os alunos, fomentar a relação pedagógica, transmitir conhecimento e "construir melhores seres humanos"

São 19:30 e começa a agitação junto aos portões fechados da Escola Secundária de Casquilhos, no Barreiro. É noite de Teatro e os alunos da professora Maria Emília, Miluxa para os amigos… e os alunos são amigos, chegam. Uns a pé, outros trazidos pelos pais. Não é a primeira vez para nenhum deles, mas o entusiasmo é de quem vai viver uma experiência inédita. As conversas dividem-se entre o balanço do dia, o fim de semana que agora começa e a peça de que os espera no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

‘Um Assobio no Escuro’, escrita pelo dramaturgo irlandês Tom Murphy, promete ser uma peça “pesada”. Passa-se na Inglaterra dos anos 60 do século passado, mas o cenário podia ser qualquer país do mundo em 2026. Fala sobre imigração, sobre o papel das mulheres, sobre a importância da família, sobre orgulho, luta de classes… uma verdadeira reflexão sobre o mundo, que a professora Miluxa promete aproveitar na próxima aula de Filosofia. “O Teatro tem tudo a ver com a Filosofia, porque, uma vez que se trabalha os textos (e mesmo quando não se trabalha os textos), quando se trabalha performances, coisas mais soltas, mais underground, mais fora, há sempre um olhar sobre o mundo. Há sempre um ponto de vista do individual ou do coletivo, que é o Teatro. São olhares críticos sobre toda a realidade. E o Teatro pode ser explorado do ponto de vista filosófico, da lógica, da narrativa, dos aspetos críticos e criativos”, explica Maria Emília Santos, numa conversa com a CNN Portugal.

“É sempre uma mais-valia. Trabalhamos sempre os textos até de perspetivas históricas, do contexto, do tempo e do espaço. O Teatro é um manancial de exploração”, acrescenta.

Beatriz Nunes e Sidnelma Trindade já não frequentam a Escola Secundária dos Casquilhos, mas juntam-se aos grupos que vão ao Teatro com a professora Miluxa, sempre que possível. (DR)

Aos alunos de Miluxa, juntam-se amigos dos alunos que vêm de outras escolas, outros professores da Escola Secundária dos Casquilhos e até quem já tenha seguido outros caminhos e não resista a mais uma noite de Teatro. “Cada vinda aqui é uma forma de rever pessoas antigas, rever ambientes antigos. Isso acaba por ser também a nossa motivação. E obviamente a cultura que nos traz é sempre uma mais-valia, qualquer que seja a altura em que estamos na vida”, dizem Beatriz Nunes e Sidenelma Trindade, que já não são alunas de Miluxa e já seguiram outros caminhos, mas, sempre que podem, juntam-se ao grupo.  

Novos públicos para o Teatro

Maria Emília é professora há mais de 30 anos. Chegou a andar com a casa às costas. Deu aulas no Algarve e em Santarém, antes de se fixar no Barreiro. Desde essa altura que leva os alunos ao Teatro, primeiro com a Companhia de Teatro Arte Viva, no Barreiro, e agora também com a Companhia de Teatro de Almada. “Começámos de uma maneira menos organizada. Neste momento, vamos todos os anos, uma ou duas vezes por período. Também tive muita sorte, porque, tanto no Barreiro como em Almada, o Jorge Cardoso, que é o fundador da Companhia Arte Viva, e o Rodrigo Francisco, que é o diretor artístico da Companhia Joaquim Benite, têm sido incansáveis em ajudar, muitas vezes em arranjar convites para alunos que são mais carenciados”, agradece.

As idas ao Teatro da professora Miluxa são uma espécie de favores em cadeia. “Temos estes professores que são uma espécie de professores-heróis, que abdicam do seu tempo livre para acompanharem os alunos ao Teatro. É o caso deste grupo da Escola dos Casquilhos. Mantemos este diálogo ao longo do ano, quer com visitas nossas à escola, quer com vindas de outros públicos aqui ao teatro”, diz Rodrigo Francisco, diretor da Companhia de Teatro Joaquim Benite.

Rodrigo Francisco, diretor artístico da Companhia de Teatro Joaquim Benite, defende que o trabalho de professores como Maria Emília Santos, ajuda a formar novos públicos para o Teatro. (DR)

“Construir melhores seres humanos”

Maria Emília Santos defende que “ensinar é muito mais do que transmitir conhecimento” e aproveita as idas ao Teatro para se “aproximar dos alunos”. “Desde coisas tão simples como ir sentado ao lado de um aluno no autocarro, poder falar com ele no percurso até ao teatro… todos esses momentos são muito produtivos para a relação. E nós sabemos hoje que ensinar passa mais do que simplesmente ensinar e aprender, do ponto de vista científico, os conteúdos. Passa muito pela relação, pela emoção, pelo cultivo da sensibilidade”, sublinha a professora.

A docente de Filosofia diz ter também esperança de estar a contribuir para um mundo melhor e ajudar a “construir melhores seres humanos”. “Os textos também interpelam muito para os problemas, não só do passado, mas contemporâneos. Ajuda-os a pensar sobre como ser mais multicultural, como podem estar perante outro que é diferente, afastarem os preconceitos, tentarem ser mais pacíficos”, diz.

Miluxa sempre “cuidou dos filhos dos outros” com “todo o amor” que encontra no coração. E é por isso que se diz “preocupada”. “Sabemos que as redes sociais estão a potenciar muito o conflito entre os jovens. E acho que essa partilha no Teatro é uma forma de, pelo menos, alertar para que se olhe a realidade de uma forma mais construtiva para que sejamos todos melhores pessoas”, sublinha.

“Sinto que há uma grande falta de esperança nos jovens porque tudo em seu redor é muito conflituoso e é muito negativo. E isso é muito preocupante. Precisamos de jovens com esperança para o futuro, porque são eles que vão ter de ter coragem para alterar muitas linhas que estão demasiado complexas”, considera.

Da Filosofia para a História. Do Teatro para o Cinema

Na mesma escola de Miluxa, há outra professora que recorre à arte – desta feita, à sétima arte – para motivar os alunos, contruir relações pedagógicas e transmitir conhecimento. Helena Pereira, professora há “34 ou 35 anos, já nem sei bem!”, começa por sublinhar o amor à profissão. “Adoro! Adoro ser professora! Adoro ser professora”, repete com um brilho no olhar.

Gosta tanto de ensinar como gosta de Cinema. Ensina História na Escola Secundária dos Casquilhos e sempre procurou partir “da História local para a História mundial”: “A nossa História local é aquela que está mais próxima. É aquela a que, efetivamente, estamos mais ligados. E aí, a partir da História local, é mais fácil depois chegar à História nacional e à História mundial. E, portanto, acho que isso é uma grande mais-valia para eles que gostarem da disciplina”.

“Começámos pelas Jornadas Pedagógicas de História Local. Os alunos investigavam e apresentavam temas de história local, mas não tinha nada a ver com cinema. As primeiras jornadas pedagógicas aconteceram há cinco anos, dentro do Museu Industrial do Barreiro. Foi muito interessante. Contou com a contribuição da Universidade da Terceira Idade. Eles também passaram experiências aos alunos e os alunos fizeram trabalhos excelentes a partir dessa experiência. Mas o cinema veio acrescentar valor. O cinema traz uma magia que acrescenta muito”, descreve.

Convidou os alunos a fazerem pequenos filmes sobre o passado e o presente do Barreiro, sobre as suas tradições e as suas gentes. O Cine Clube do Barreiro contribuiu com a experiência, com os meios e com a formação necessária aos alunos. Quando deram conta, os alunos estavam a apresentar as suas criações numa iniciativa chamada Barreiro em Curtas, que se realizou pela segunda vez no último dia 2 de junho e juntou alunos de várias escolas do concelho.

A professora Helena Pereira convida os alunos a fazerem pequenos filmes sobre a História do Barreiro. (@_oaorosa)

O Barreiro em Curtas tem dois anos de vida e já é mais do que um festival, onde ganhar ou não, não é sequer relevante, como disse Helena Pereira aos alunos, antes de serem anunciados os vencedores deste ano: “Vocês já passaram por uma experiência que vos deu uma aprendizagem espetacular e que me fizeram a chorar a mim e a muita gente. Os vossos filmes foram incríveis e eu digo-vos sinceramente, a coisa melhor que um professor pode ouvir é aquilo que vocês disseram aqui - depois da experiência que passaram no Barreiro em Curtas, vocês já não são os mesmos”.

Menção honrosa do Global Teacher Prize

Helena pensa fora da caixa e leva as aulas para fora das portas da escola. Organiza visitas de estudo e coloca os alunos a investigar previamente os locais visitados e a transmitir o que aprenderam aos colegas. Afinal, ensinar é muito mais do que transmitir conhecimento e avaliar é muito mais do que corrigir testes. “O teste é importante, mas é muito importante fazer este tipo de trabalho, que é um trabalho de campo. É um trabalho em que os alunos têm de meter a mão na massa”, considera.

E as curtas desenvolvem nos jovens outras competências que vão além da disciplina de História: “Têm de aprender a filmar, aprender a editar, aprender a escrever um guião, aprender a dar importância à música e a perceber e a importância do som. Tudo isto traz para a História, para a sala de aula e para a Educação um valor que não se mede”.

Afinal, a História e o Cinema têm em comum muito mais do que se pensa. “Fazem um casamento perfeito porque, na verdade, o cinema é a sétima arte. É som, é imagem, é narrativa. E a História e o património, sobretudo aqui no Barreiro, têm muito para contar”, considera.

Helena Pereira já foi distinguida com uma menção honrosa do Global Teacher Prize, em 2024. Aceita e agradece a distinção, mas garante que o que a move é ver os alunos motivados e felizes. “Os próprios alunos dizem ‘professora, até no fortalecimento das nossas relações, entre nós, o cinema contribuiu. Porque trabalhámos em equipa, andámos pela cidade e conhecemos as pessoas dentro da cidade’”, revela, acrescentando que essa interação entre os jovens e os barreirenses os levou a descobrir novas histórias dentro da História do concelho.

“Esta interação, que na verdade nós queremos também com a escola, ajuda a quebrar com a dependência dos telemóveis. Faz com que os alunos, de facto, trabalhem a História no terreno, percebam o património, conheçam o património, e comecem a olhar para o ecrã com sentido crítico”, destaca a professora Helena.

“Nunca mais quero parar!”

Helena Pereira tem movido montanhas com a energia e a alegria contagiantes. Garante que recebe com o Ensino muito mais do que lhe tem dado. “Acho que, verdadeiramente, o sentido da vida está na construção de relações. Todas as relações que construí com os meus alunos e com os parceiros através deste projeto e de outros. E acho que a beleza da vida é isso. É construirmos boas relações uns com os outros, que até podem começar por ser do trabalho, mas depois tornam-se relações de amizade”, diz.

É o caso de Elsa Mendes, a coordenadora do Plano Nacional de Cinema, que marcou presença no Barreiro em Curtas, para entregar os prémios, e que agora já não deixa Helena parar: “Já me disse ‘tu não saias do cinema’. Mas também nunca mais quero parar. Nunca mais quero parar!”.

 

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