“Sem o vírus da doença do beijo, o risco de desenvolver esclerose múltipla é praticamente zero”, diz investigador

13 jul, 16:43
Inovações made in Portugal e avanços mundiais

Desfeito o mistério da causa da doença, principal investigador do estudo aponta uma relação clara entre a mononucleose e a esclerose múltipla

Em janeiro deste ano foi publicado um estudo que estabelecia uma ligação direta entre o vírus Epstein-Barr, que causa a mononucleose, e o aparecimento de esclerose múltipla.

Uma descoberta que veio colocar um fim a um dos grandes mistérios da medicina e que foi feita pelo epidemiologista italiano Alberto Ascherio, que não tem dúvidas em afirmar que o referido vírus é “a causa principal” da doença neurodegenerativa que surge por volta dos 20 ou 30 anos, e que vai piorando os movimentos ou a visão com o passar do tempo, sendo que muitos dos doentes acabam por deixar de falar ou andar.

Uma doença que afeta cerca de três milhões de pessoas em todo o mundo, mas da qual não se conhecia a causa. Em entrevista ao jornal El País, Alberto Ascherio, que liderou uma equipa da Universidade de Harvard que desde 2000 investiga a doença, afirma mesmo: “Sem o vírus da doença do beijo [como é conhecida a mononucleose], o risco de desenvolver esclerose múltipla é praticamente zero.”

A descoberta veio alimentar a esperança para desenvolver, no futuro, um tratamento que permitiria a cura desta doença, sabendo-se que cerca de 95% de todos os adultos estão infetados com o vírus Epstein-Barr, mas que apenas 36 em cada 100 mil pessoas desenvolvem esclerose múltipla.

"Creio que não existem dúvidas de que a esclerose múltipla é uma complicação rara da infeção com o vírus Epstein-Barr, mas há sempre outros fatores", aponta o especialista.

Questionado se poderá haver outra causa para a esclerose múltipla, Alberto Ascherio é taxativo: "Não, no nosso estudo investigámos todos os vírus conhecidos e nenhum outro surgiu como possível candidato." Ainda assim, diz o epidemiologista, pode haver casos raros em que o surgimento da esclerose múltipla não esteja relacionado com o vírus Epstein-Barr, situação que será "muito rara".

Se está presente em quase toda a população mundial, o passo seguinte é tentar eliminar o Epstein-Barr, algo que Alberto Ascherio julga ser possível, nomeadamente através do bloqueio da replicação do vírus quando a sua célula se reproduz, até porque o vírus nem sempre está ativo.

No entanto, o especialista é cauteloso sobre se isso levaria à cura da esclerose múltipla. "Honestamente, não sabemos. Demonstrámos que o vírus causa a doença, mas há dois aspetos: pode causar só o início da doença ou causar a sua progressão", diz, referindo que, mesmo eliminando o vírus "o processo imunitário pode seguir por si".

Para que se chegue a uma conclusão são necessários mais estudos, sobretudo através de tratamentos antivirais. "Há estudos em curso, como um ensaio que se está a fazer com células imunitárias que matam o vírus", aponta, acrescentando que o seu grupo de trabalho chegou tentar a uma resposta, "mas não existe uma bala mágica, um medicamento que mate o vírus definitivamente".

Resta prosseguir os estudos, afirma Alberto Ascherio, que quer ver replicada a investigação numa possível associação de outros vírus com outras doenças autoimunes como o lúpus, por exemplo.

Relacionados

Saúde

Mais Saúde

Patrocinados