Um médico, dois internos e uma enfermeira faturam quase 1.000.000€ aos sábados no Santa Maria. MP abre inquérito

27 mai 2025, 15:19

Trata-se do maior hospital público do país. Ministério Público já abriu um inquérito e IGAS vai passar a pente fino as cirurgias feitas aos sábados em hospitais de todo o país. Caso foi revelado pela TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal)

Quatro profissionais de saúde do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, receberam quase um milhão de euros em menos de um ano com a realização de cirurgias adicionais, realizadas aos sábados, no serviço de Dermatologia. Ao todo, foram pagos 850 mil euros a uma enfermeira, dois internos e a um médico (no caso deste médico: sozinho faturou cerca 400 mil euros em 10 dias de trabalho).

Face à situação, o Ministério Público anunciou esta terça-feira que abriu um inquérito, o qual se encontra em investigação no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa. Também a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) vai passar a pente fino as cirurgias feitas aos sábados em hospitais de todo o país.

Confrontado no sábado com os números, o presidente do Hospital de Santa Maria, Carlos Martins, mostrou-se visivelmente surpreendido e garantiu que, caso os montantes se confirmassem, seriam "inadmissíveis de todo". No entanto, segundo apurou a TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), o conselho de administração daquele que é o maior hospital público do país tinha, afinal, conhecimento destes valores desde novembro do ano passado, quando, no dia 15 desse mês, foi feita uma deliberação e suspendidas as cirurgias adicionais no serviço desta especialidade.

A deliberação interna revela ainda que, dos 20 profissionais de saúde mais bem pagos no sistema de recuperação de listas de espera (SIGIC), dez eram do serviço de Dermatologia.

Na segunda-feira, a ministra da Saúde considerou que este caso “em nada abona na confiança dos portugueses”. “Até as averiguações serem feitas, reside sobre a instituição, neste caso o maior hospital do país, (…) uma suspeita que em nada abona na confiança dos portugueses, sobretudo daqueles que aguardam numa lista de espera por ter uma cirurgia ou por ter uma consulta”, disse Ana Paula Martins.

Ao longo de mais de dois mil documentos analisados entre 2021 e novembro de 2024, a equipa de reportagem do Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) encontrou discrepâncias graves no uso do programa SIGIC no Hospital de Santa Maria, o maior hospital público do país. O nome de Miguel Alpalhão destacou-se como beneficiário de valores muito acima dos praticados no setor.

As cirurgias realizadas eram procedimentos simples como a remoção de quistos e sinais benignos, com duração média de 10 minutos – usados como “moeda de troca” para justificar produção regular e habilitar o acesso ao SIGIC ao fim de semana.

O próprio Hospital de Santa Maria pôs agora em marcha cinco ao serviço de dermatologia,uma delas visa diretamente o médico Miguel Alpalhão - que fazia e validava o sistema de codificação das cirurgias adicionais - e pode culminar num processo disciplinar com vista ao despedimento. Segundo apurou a TVI, no final de 2023 o médico utilizou o sistema para realizar cirurgias benignas aos próprios pais, levantando sérias dúvidas sobre o uso de recursos públicos para fins pessoais.

A TVI contactou o dermatologista Miguel Alpalhão e o diretor do serviço de dermatologia, Paulo Filipe, mas até ao momento não obteve resposta.

Cátia Esteves, jornalista responsável pela investigação, afirma que "isto é um problema" que não se cinge ao hospital de Santa Maria, uma vez que já foram recebidas "várias denúncias sobre outros casos, noutros hospitais". 

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