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"Se os data centers são tão importantes, porque estão a ser construídos em segredo?" Erin Brockovich está de volta e desta vez vai combater as gigantes tecnológicas

CNN Portugal , MJC
29 jun, 12:36
Erin Brockovich (AP)
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Conhecida pelo processo contra a Pacific Gas and Electric Company (PG&E) em nome dos residentes da cidade de Hinkley, que esteve na origem de um filme protagonizado por Julia Roberts, Erin Brockovich continua a defender as populações das ameaças ambientais, agora por causa da construção de gigantescos centros de dados

Em abril, Erin Brockovich publicou um apelo no seu site a pedir que qualquer pessoa com preocupações sobre um data center próximo da sua casa entrasse em contacto. Num mês, 3.862 pessoas responderam.

As empresas tecnológicas sempre precisaram de centros de dados para alimentar as suas tecnologias, mas estes novos centros que estão a ser construídos para alimentar a Inteligência Artificial (IA) atingem proporções nunca vistas. São estruturas gigantescas, que se estendem por "centenas e centenas de hectares". Em maio, o Utah aprovou um centro com o dobro do tamanho de Manhattan. E parece que, finalmente, as populações começaram a perceber o impacto que estas construções poderão ter na sua vida. 

As pessoas enviam e-mails a Brockovich a toda a hora por causa do que aconteceu em 1993, quando ela foi fundamental no processo contra a Pacific Gas and Electric Company (PG&E) em nome dos residentes da cidade de Hinkley, na Califórnia, cuja água subterrânea tinha sido contaminada. O caso resultou num acordo de 333 milhões de dólares – na altura, o maior pagamento já feito numa ação judicial direta. Brockovich venceu a PG&E sem qualquer formação jurídica e foi imortalizada por Julia Roberts no filme "Erin Brockovich", de 2000.

Após o caso Hinkley, trabalhou noutros processos de poluição ambiental contra a PG&E relacionados com o crómio hexavalente. Mais recentemente, tem-se concentrado nos PFAS (substâncias per e polifluoroalquiladas), os chamados "químicos eternos", componentes da espuma de combate a incêndios amplamente utilizada nas bases militares americanas. Os PFAS têm sido associados a problemas de saúde, incluindo problemas de fertilidade e alguns tipos de cancro. Em 2017, as comunidades próximas de bases militares reportaram níveis preocupantes destes produtos químicos na sua água potável.

Mas nunca tinha recebido tantos contactos por um só motivo como com os centros de dados: até agora já teve mais de 7 mil denúncias. Isto é um problema que vai para além dos EUA - já foi contactada por pessoas na Austrália, Índia, Escócia e Irlanda. "Parece o caso Hinkley, mas com esteroides", diz Brockovich, atualmente com 66 anos, ao The Guardian.

Alguns dos e-mails que Brockovich recebe de pessoas próximas dos data centers expressam genuína perplexidade: “Porque é que eu não sabia disto? Como é que esta construção simplesmente começou? Porque é que estou agora a receber um aviso da câmara municipal de que isto já foi aprovado, sendo que nem sequer tive voz na decisão?” Outros refletem preocupações sobre o impacto dos centros: “E os nossos recursos? O que está a acontecer à água? Quem está a pagar toda esta energia e eu vou suportar esta fatura? Qual será o impacto futuro destas monstruosidades na saúde? O que vai acontecer à vida selvagem?”

“Isto está a acontecer em todos os estados dos EUA, em vários condados, zonas rurais, quintas, ranchos e bairros. As pessoas observam a natureza porque a respeitam, porque precisam dela. E estão a vê-la ser destruída”, diz Brockovich. 

A partir dos e-mails, Brockovich criou um mapa dos principais centros de dados de IA nos EUA, tanto os que estão em funcionamento como os que estão em construção, sobrepondo-os aos locais onde os membros da comunidade enviaram e-mails a manifestar preocupação. Este documento é assustador: até 24 de junho, 33 centros de dados de IA estavam concluídos e operacionais, 68 estavam em construção e 41 estavam em fase de planeamento. E tudo o que se sabe sobre eles é o que as pessoas viram. Como diz o título de um post no seu blogue na Substack: “Se os centros de dados são tão importantes, porque estão a ser construídos em segredo?”

Os promotores de centros de dados assinam frequentemente acordos de confidencialidade com as autoridades locais, pelo que não é possível compreender por que razão foram aprovados sem avaliações de impacto ambiental ou consulta aos residentes. "Estou a receber relatos de pessoas cujos líderes locais estão a alterar as leis de administração do território para que isto aconteça", diz, criticando que alguém possa contornar a democracia a este ponto.

“As pessoas estão a reportar aumentos exorbitantes nas contas”, diz Brockovich, citando um e-mail de alguém cuja conta mensal de água subiu de 22 dólares para mais de 350 dólares. Mas a ameaça destes centros vai para além do dinheiro. Nos locais onde são instalados estes centros de dados a natureza desaparece, deixa de haver pássaros a cantar e passa a haver um zumbido constante, provocado por centenas de geradores a trabalhar. “Como é que o uso da água vai afetar o equilíbrio da natureza? As pessoas estão a perguntar: ‘O que nos vai acontecer?’”

A primeira coisa que Erin Brockovich pretende é uma moratória caso a caso para a aprovação de data centers. Isso leva tempo. Setenta e nove municípios nos EUA já emitiram moratórias, muitos dos quais foram imediatamente alvo de processos judiciais por terem quebrado o acordo original. Foram suspensos centros na Geórgia, Maryland, Michigan e Carolina do Sul.

Brockovich não gosta de ir diretamente ao topo e exigir mudanças nas políticas, prefere construir processos judiciais a partir da base. Quer começar por interpelar as administrações locais pedindo para ver os estudos de impacto ambiental e questionando as autoridades: "Gostaria de ver como pretendem gerar energia para tudo isto. Vão construir a vossa própria fonte de energia? Vão depender dos nossos recursos já sobrecarregados? Vamos obter essas informações primeiro e depois realizar uma reunião pública onde as pessoas se possam manifestar.”

"É uma questão planetária", diz. "É avassalador. Precisamos de ter coragem para nos manifestarmos, e é difícil fazê-lo quando se enfrentam forças que têm todo o dinheiro, toda a inteligência e toda a capacidade do mundo." Por outro lado, parece confiante: “Os processos já não estão a ser resolvidos por 333 milhões de dólares; estão a ser resolvidos por milhares de milhões."

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