Um "ser humano surpreendente": "Esta criança esteve 20 horas no mar, sozinha, em cima de uma prancha - que guerreira"

17 abr 2023, 10:53

Aconteceu no Algarve e está a espantar as autoridades, os médicos, o país: esta é a história de sobrevivência de uma jovem de 17 anos

Passou a noite na água, a vários quilómetros da costa, “apenas com um biquíni”, uma prancha e um remo de stand up paddle (palavras da Polícia Marítima): Érica Vicente, 17 anos, sobreviveu 22 horas em mar alto depois de ter sido levada pelo vento quando praticava desporto na Praia do Coelho, em Monte Gordo, ALgarve. Assim que percebeu que a filha estava com dificuldade em regressar a terra, o pai chamou de imediato as autoridades, mas a jovem perdeu-se e assim ficou quase um dia.

É uma história que surpreendeu o país, incluindo os médicos que trataram de Érica Vicente, que destacaram a incrível capacidade de resistência da jovem - que agora recupera no Hospital de Faro. Mas dos momentos de aflição até ao salvamento, como se explica esta história de sobrevivência?

A equipa médica que está a acompanhar o caso confessa a sua surpresa com o desfecho - primeiro pela diretora do serviço de pediatria e depois pelo próprio diretor clínico do Hospital de Faro. Entretanto os médicos garantiram que Érica “está bem”, que já não está desidratada, mas que ainda está a recuperar do choque: “Está algo prostrada, depois de tanto tempo sem alimentação, exposta ao sol e com stress. Tem manifestações de prostração, está sonolenta e tem algumas dores musculares e cutâneas”, explicou Horácio Guerreiro, que admitiu “alguma instabilidade” emocional da jovem, que está a ser acompanhada pela família.

“Está bastante bem, numa fase de retoma das suas funções fisiológicas. Penso que a evolução será favorável”, explicou o clínico, esclarecendo que o mais importante até ser dada alta, o que deve acontecer em 24/48 horas, é manter a vigilância da função renal e da função cerebral, até porque é preciso cuidados com a administração de líquidos em casos deste género.

"Esta criança é uma guerreira"

Perante a situação inédita, Horácio Guerreiro deu os parabéns a Érica, destacando a resistência da jovem - que ainda não está muito comunicativa, depois de ter passado por uma situação de “stress extremo”. “É uma resistente, é uma miúda muito tranquila e está com uma perspetiva otimista”, acrescentou, confessando que este é um caso que “surpreende” toda a gente. “Com tanto tempo no mar, em condições de stress máximo, é surpreendente para todos. É preciso instinto de sobrevivência, de autocontrolo. Esta miúda é uma heroína, sem dúvida”, concluiu o médico, que deus os parabéns a Érica.

A Polícia Marítima referiu que a jovem estava em “elevado estado de hipotermia” quando foi encontrada, mas o seu estado acabou por melhorar rapidamente, tendo chegado ao hospital mais estável. “Entrou bem, sem hipotermia, sem desidratação, consciente, já conta a história”, revelou Elsa Rocha, diretora do serviço de Pediatria do Hospital de Faro, que fala num “caso de sucesso graças a toda a equipa”.

Elsa Rocha admitiu que a adolescente, apesar dos resultados normais, ainda está “muito cansada, um bocadinho confusa”, precisando de descanso para regressar à atividade normal. “Esta criança esteve 20 horas no mar, sozinha, em cima de uma prancha. É uma guerreira, está exausta”, reiterou, afirmando que “o ser humano é surpreendente”, até porque deste caso se podia esperar o pior. Felizmente, Érica Vicente “vai ter uma história para contar”.

Quando foi encontrada, Érica estava num cenário bem diferente: "Foi encontrada em elevado estado de hipotermia por um navio mercante que se encontra a 25 milhas (cerca de 40 quilómetros) a sul de Vila Real de Santo António", explicou o capitão do porto e comandante local da Polícia Marítima de Vila Real de Santo António e Tavira, Afonso Martins.

"Não está propriamente bem. Relembremos que esteve apenas com um biquíni durante uma noite inteira na água, uma noite de vento e de frio, e um dia inteiro, no mesmo biquíni, ao sol", recordou, esclarecendo que o navio que encontrou a jovem estava em trânsito para Tânger, Marrocos. Quando foi avistada pelos marinheiros Érica ainda estava em cima da prancha.

A prancha

Assim que o pai de Érica deu o alerta, as autoridades portuguesas montaram um complexo esquema de buscas. Carros, barcos e helicópteros procuraram a jovem durante horas, mas não havia forma de encontrá-la. De imediato, e como manda o protocolo, foram também avisados os navios que navegavam em alto mar.

Foi o caso do MSC Reef, um cargueiro neerlandês com bandeira da Libéria que passava no Golfo de Cádiz e que deu conta de que uma pessoa numa prancha estava em mar alto. A tripulação já estava avisada para a possibilidade, pelo que contactou de imediato as autoridades portuguesas para que procedessem ao resgate.

Érica Vicente "respondeu pelo nome, disse de onde era, da zona de Setúbal", e depois subiu a bordo do navio, que a levou até ao porto marroquino,de onde a jovem foi transportada pela Força Aérea até ao Hospital de Faro.

Apesar do bom tempo, este fim de semana foi de vento forte na costa portuguesa. Isso associado a alguma inexperiência da jovem pode ajudar a explicar o afastamento da costa. Na prática, a corrente empurrou-a para mar alto até aos 40 quilómetros.

Para complicar a situação, e como disse Afonso Martins, a jovem "entrou em pânico, assustou-se e não conseguiu remar". Foi o próprio pai de Érica quem admitiu a situação, num cenário que só dificulta, uma vez que a ansiedade não ajuda ao melhor discernimento. "O familiar que estava perto, o pai, saltou para a água mas não conseguiu chegar até ela. A jovem na prancha acabou por se afastar para sul", acrescentou o capitão do porto.

As autoridades portuguesas desdobraram-se em esforços para encontrar a adolescente. Força Aérea, GNR, Proteção Civil, Polícia Marítima e, a certa altura, até uma lancha de socorros a náufragos. Dezenas de operacionais e de veículos encetaram uma busca por Érica assim que a informação do desaparecimento foi recebida. "Foram ativados todos os meios disponíveis possíveis, que foram muitos", garantiu Afonso Martins, esclarecendo que os primeiros meios de socorro, duas embarcações semirrígidas, chegaram 25 minutos após o alerta.

Mas era já de noite, "também não havia lua, que só nasceu em quarto minguante às 04:00", o que acabou por complicar todo o processo, uma vez que os meios de socorro tinham pouca visibilidade. A Marinha até tem formas de tentar estimar a localização de pessoas ou embarcações à deriva, traçando um raio de quilómetros com base nas marés, nas correntes e na direção do vento. Só que até aí a situação de Érica foi singular: "A estima que tínhamos apontava mais para oeste, mas não há estimas para pessoas em cima de pranchas", sublinhou Afonso Martins, sinalizando que estes são "elementos que flutuam muito", pelo que seria sempre difícil de prever. Ainda assim Érica foi encontrada na área de buscas.

Se por um lado ajudou à estimativa da área onde estava, foi também pelo utensílio que conseguiu escapar sem problemas graves: "O facto de estar em cima da prancha aliviou o estado de hipotermia porque não estava dentro de água", assinalou o capitão do porto, que teme que o desfecho pudesse não ser tão favorável caso tivesse passado mais tempo. "Se viesse outra noite, a cada minuto da próxima da noite seriam menores as probabilidades com o sucesso que teve. Assustava-me outra noite", reiterou.

De resto, apesar de muito raro, este não é um caso único. Com efeito, em 2000 um homem esteve 40 horas em mar alto depois de se ter perdido no mar de Carcavelos quando praticava windsurf. Esteve quase dois dias inteiros perdido no mar, mas foi encontrado ao largo do cabo Espichel.

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