São dias de violência neste país candidato à UE - a Turquia: de um lado, o do presidente em exercício, diz-se que é "terror nas ruas" o que está a acontecer; do outro lado, o de um detido que quer ser presidente, diz-se que o homem que ocupa a presidência é cúmplice de "traição à pátria"
Bandeiras erguidas e palavras de ordem: nos últimos cinco dias, milhares de pessoas saíram à rua na Turquia em protesto contra o presidente Erdogan. “Não temos medo, não seremos silenciados, não obedeceremos”, ecoam as vozes que se juntam nas ruas de 55 das 81 localidades turcas. São dois terços do país em protesto e com cânticos de oposição.
As manifestações começaram a 19 de março, após a polémica detenção de Ekrem İmamoglu, presidente da Câmara de Istambul e principal rival político de Erdogan, no poder desde 2002. İmamoglu foi detido por suspeitas de corrupção e “colaboração com terroristas”, mas a detenção foi vista como uma “tentativa de golpe de Erdogan contra o próximo presidente” da Turquia, cargo ao qual o autarca já disse que vai concorrer em 2028, mesmo depois da detenção.
O Partido Republicano do Povo (CHP, social-democrata), principal força da oposição e ao qual pertence o presidente da Câmara de Istambul, fala mesmo em “golpe de Estado político” e o próprio İmamoglu fala em “traição à Turquia”.
Sevgili vatandaşlarım,
— Ekrem İmamoğlu (@ekrem_imamoglu) March 23, 2025
Türkiye bugün büyük bir ihanete uyandı.
Yürütülen yargı süreci bir adli işlem değildir. Tam bir yargısız infazdır.
Milletimizi sorumluluk duygusu içinde hak mücadelesine davet ediyorum. Bu hak mücadelesi milletimizin ve evlatlarımızın geleceği…
Tradução do post Caros concidadãos, a Turquia acordou hoje sob uma grande traição. O processo judicial que está a ser levado a cabo não é um processo judicial. É uma completa execução extrajudicial. Convido a nossa nação a uma luta responsável pelos direitos. Esta luta pelos direitos é uma questão de futuro da nossa nação e dos nossos filhos. Não deixem de votar hoje pelo futuro da Turquia. Depois, ergam a vossa voz reunindo-se nas praças da democracia em Saraçhane, Istambul e noutras províncias. É o tempo de assumir a responsabilidade e de nos juntarmos à luta pelos direitos contra aqueles que roubaram o espírito da nação. Todos juntos, sem deixar ninguém para trás.
Erdogan já reagiu a esta onda de protestos e aumentou o tom, dizendo que não se vai render ao “vandalismo ou ao terror nas ruas”, como cita a Reuters. Esta segunda-feira foi mais longe e culpou mesmo a oposição de “provocar” a população e de a instar a atos de violência, descrevendo que as manifestações dos últimos dias “tornaram-se um movimento de violência”. “Está claro que a principal oposição não pode assumir a responsabilidade de governar o Estado, quanto mais as autarquias”, vincou o presidente turco, citado pela Reuters.
Segundo conta o Politico, várias figuras da oposição na Turquia tiveram as suas contas na rede social X suspensas, incluindo “contas de ativistas associadas à universidade e que basicamente partilham informações de protesto, locais para os alunos irem”, explica Yusuf Can, coordenador e analista do Programa do Médio Oriente do Wilson Center. O ministro do Interior da Turquia, Ali Yerlikaya, diz que as autoridades turcas encontraram 326 contas nas redes sociais que estão a incitar ao ódio, 72 das quais localizadas fora do país.
Em resposta aos protestos dos últimos dias, as autoridades de Ancara e Izmir proibiram todas as manifestações até esta terça-feira. Já o governo de Istambul proibiu concentrações até ao final de março e ordenou esta segunda-feira o encerramento generalizado de todas as estradas de acesso à Câmara.
A contestação contra a detenção de Ekrem İmamoglu já resultou em mais de 100 polícias feridos e em 1.133 detenções em cinco dias, a maioria estudantes - que se têm assumido como principais vozes de protesto no país, que repetem o slogan da oposição a Erdogan, como conta a BBC.
Esta onda de protestos vai além do que aconteceu a İmamoglu - são muitos os manifestantes que protestam contra a liderança de Erdogan, que dizem estar a caminhar em direção à autocracia, como relata o canal público britânico. Muitos vão mais longe e dizem mesmo que sentem que a democracia “está a ser corroída”, como desabafam à Sky News alguns dos manifestantes que têm saído à rua nos últimos dias.
A Associated Press relata que estão também a ser detidos jornalistas, tidos pelas autoridades como manifestantes. A oposição ao presidente turco está a tentar um boicote aos meios de comunicação pró-Erdogan para conseguir noticiar e divulgar os protestos, avança a Reuters.
Estes são já os maiores protestos antigovernamentais de Istambul desde as manifestações do Parque Gezi em 2013, duranta as quais centenas de milhares de turcos saíram à rua para protestar contra as políticas autoritárias de Erdogan, que na altura estava no poder há 11 anos.
Para já, são poucas as reações além-fronteiras ao que se passa nas ruas turcas, mas a Comissão Europeia já veio pedir ao país que “defenda os valores democráticos” como uma nação que é candidata à adesão à União Europeia.