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As mudanças radicais e o radicalismo

David Marques , Enviado-especial aos Estados Unidos
29 jun 2025, 15:34
Martín Anselmi e Bruno Lage

«Era uma vez na América» - IV

Ao 15.º dia do Mundial de Clubes, Portugal ficou sem clubes em prova. O Benfica acabou goleado pelo Chelsea após um jogo em que lhe correu quase tudo mal durante o tempo regulamentar. Mesmo sem ter feito muito para o justificar, pela falta de ambição e capacidade competitiva demonstradas até ao golo dos ingleses, a equipa de Bruno Lage ainda esticou a partida para o prolongamento com um penálti Ángel Di María na compensação, mas aí a expulsão de Prestianni e o golo de Nkunku deitaram tudo a perder.

Depois do jogo, o técnico das águias, que dias antes já tinha feito um reparo à (falta de) agressividade da equipa, foi ainda mais longe. «Há coisas que têm de mudar, umas de forma radical, outras para melhorar a nossa qualidade de jogo», disse.

Lage sabe que, por mais que tente e, até, consiga atenuar as carências dos jogadores através do treino e aproximá-los do que ele pretende, dificilmente conseguirá dar-lhes de forma consistente aquilo que eles não têm. Ou porque não foram formatados para tal ao longo dos anos ou porque as características físicas que têm os impedem de ir ao encontro do que é pretendido.

Di María até pode ter um jogo de compromisso defensivo, mas esse nunca foi, não é, e muito menos será um dos pontos fortes dele. Florentino, a caminho dos 26 anos, é o médio que é, com as suas virtudes e defeitos. E o mesmo aplica-se a todos os jogadores. Cabe ao treinador adaptar a sua ideia de jogo aos jogadores que tem ou promover uma revolução no plantel. O que, face ao insucesso desportivo de 2024/25, que não lhe reforçou o capital, à disponibilidade financeira limitada e ao pouco tempo que falta para o início da temporada, parece utópico.

Foi na falta de capacidade de adaptação que, a meu ver, residiu o fracasso de Martín Anselmi no FC Porto, que está prestes a «morrer» pelas próprias ideias, não sei bem se por ser um extremista-radical ou antes um ultra-conservador.

Mas aí nem aponto ao treinador argentino a maior fatia da culpa. Essa é de um presidente que foi treinador e que entendeu que aqueles jogadores encaixavam na filosofia do homem que escolheu para suceder a Vítor Bruno, afastado quando a equipa estava no terceiro lugar a quatro pontos do Sporting e a um do Benfica, o que significa que, apesar das perspetivas serem más e dos episódios com jogadores que fragilizaram o antigo técnico, a época não estava perdida.

Ao pagar milhões por ele, Villas-Boas comprou as ideias – e a teimosia – de um treinador sem conhecimento prático de futebol europeu. Mas um clube como o FC Porto nunca devia permitir-se a este tipo de experimentalismos. Porque não: o futebol não é igual em todo o lado e, se os jogadores também precisam de tempo para se adaptarem a novos contextos, os treinadores não são exceção. E Anselmi precisava de duas coisas: dos recursos adequados e do tempo que não existe no FC Porto.

Talvez o mais sensato fosse a estrutura do clube, na pessoa do seu presidente, assumir que, face à profunda reestruturação que está em curso, é tempo de baixar as expectativas e não assumir candidaturas a títulos nacionais e até internacionais enquanto os alicerces não estiverem devidamente consolidados. Villas-Boas nunca escondeu que os tempos eram/são difíceis, mas nunca deu esse passo no sentido de assumir frontalmente uma realidade: o FC Porto não tem, nesta altura, capacidade para competir com os grandes rivais e precisa de tempo para voltar a ganhar.

O que num clube com a dimensão e a cultura ganhadora do FC Porto – que conquistou títulos internacionais e dominou o futebol português durante 40 anos, com curtos períodos de interrupção pelo meio – é difícil de aceitar. Até para um presidente que em vida praticamente só viu o clube ganhar.

A campanha dos azuis e brancos no Mundial de Clubes foi péssima. Teve muitos momentos maus – o caos absoluto é aquilo que mata um treinador – e poucos bons, como a primeira parte com o Palmeiras. Teoricamente, o grupo até nem era dos mais difíceis, mas aí voltamos à história das expectativas e vamos ao encontro da realidade: foi assim tão surpreendente o que aconteceu, ao ponto de ser o Mundial a fazer cair o treinador?

«Era uma vez na América» é um espaço de crónica do jornalista David Marques, enviado-especial do Maisfutebol ao Mundial de Clubes

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