Não consegue ficar de pé numa só perna? Capacidade de equilíbrio está ligada a uma vida mais longa, diz estudo

CNN , Katie Hunt
26 jun, 16:00
Serena Williams

A incapacidade de se equilibrar numa perna durante 10 segundos numa fase mais tardia da vida está ligada quase ao dobro do risco de morte por qualquer causa na década seguinte, de acordo com um novo estudo.

O simples teste do equilíbrio pode ser útil para incluir em exames físicos de rotina em pessoas de meia e terceira idade, sugeriu a pesquisa, publicada terça-feira no British Journal of Sports Medicine.

Enquanto o envelhecimento conduz a um declínio na aptidão física, força muscular e flexibilidade, o equilíbrio tende a ser razoavelmente bem preservado até aos 50 anos de uma pessoa, altura em que começa a diminuir relativamente depressa, refere a pesquisa. Pesquisas anteriores associaram a incapacidade de se equilibrar só numa perna a um maior risco de quedas e ao declínio cognitivo.

O estudo envolveu 1.702 pessoas com idades entre os 51 e os 75 anos a viver no Brasil, a quem foi pedido que se equilibrassem sem apoio numa perna durante um primeiro exame. Os investigadores pediram aos participantes que colocassem o peito do pé livre atrás da perna de sustentação, que mantivessem os braços ao lado e o olhar fixos em frente. Eram permitidas até três tentativas com qualquer um dos pés.

Conseguir equilibrar-se numa perna é importante para os idosos por uma série de razões, e é também reflexo de níveis mais amplos de aptidão e saúde, disse o autor do estudo, Cláudio Gil Araújo, médico da Clínica de Medicina do Exercício - CLINIMEX - Rio de janeiro, Brasil.

"Precisamos regularmente de uma postura de uma só perna, para sair de um carro, para subir ou descer um degrau ou escada e assim por diante. Não ter essa capacidade ou ter medo de o fazer, é provável que esteja relacionado com a perda de autonomia e, consequentemente, com menos exercício, e a bola de neve começa", explicou.

Equilíbrio deficiente e longevidade

Os participantes do estudo tinham uma idade média de 61 anos e dois terços deles eram homens. Cerca de 1 em 5 não conseguiu equilibrar-se numa perna durante 10 segundos no check-up inicial.

Os investigadores monitorizaram os participantes após o check-up inicial por um período de sete anos, durante o qual 123 - 7% - das pessoas que estavam a ser estudadas morreram. A proporção de mortes entre os que falharam no teste (17,5 %) foi significativamente maior do que as mortes entre aqueles que conseguiram equilibrar-se durante 10 segundos (4,5%).

O estudo concluiu que para aqueles que não conseguiram completar o teste de equilíbrio havia um risco 84% maior de morte por qualquer causa, e esta ligação manteve-se mesmo quando outros fatores - incluindo idade, sexo, IMC, e condições pré-existentes ou riscos para a saúde, como doença sanguínea coronária, hipertensão, obesidade, colesterol alto e diabetes - foram tidos em conta.

No entanto, os investigadores não foram capazes de incluir na sua análise outras variáveis, como historial recente de quedas, o padrão de atividade física, o exercício ou a prática desportiva, a alimentação, o tabagismo e o uso de medicamentos que possam interferir com o equilíbrio.

A pesquisa foi observacional e não revela causa e efeito. O estudo não analisou quaisquer mecanismos biológicos possíveis que pudessem explicar a ligação entre o mau equilíbrio e a longevidade.

Naveed Sattar, professor de medicina metabólica no Instituto de Ciências Cardiovasculares e Médicas da Universidade de Glasgow, disse que a investigação foi interessante, mas não definitiva.

"Uma vez que ficarmos numa só perna requer um bom equilíbrio, ligado à função cerebral, à boa força muscular e ao bom fluxo sanguíneo, provavelmente integra sistemas musculares, vasculares e cerebrais, pelo que é um teste global ao risco futuro de mortalidade - ainda que primitivo", disse Sattar, que não esteve envolvido no estudo.

"Se alguém não aguenta os 10 segundos e está preocupado, deve refletir sobre os seus próprios riscos para a saúde", disse.

"Poderia tentar fazer mudanças positivas no estilo de vida, como andar mais, comer menos se percebesse que podia fazer melhor - a maioria subestima a importância do estilo de vida para a saúde", disse. "Mas também poderia consultar o seu médico se, por exemplo, não tiver medido os fatores de risco para doenças cardiovasculares ou feito despiste a outras doenças crónicas, como diabetes."

Melhorar o equilíbrio

Em geral, aqueles que falharam no teste tinham uma saúde mais pobre e incluíam uma maior proporção de pessoas obesas e/ou com doenças cardíacas, pressão arterial alta e perfis de gordura arterial pouco saudáveis, de acordo com o estudo. A diabetes tipo 2 também foi mais comum entre aqueles que não conseguiram completar o teste.

O estudo decorreu entre 2009 e 2020 e insere-se num projeto de investigação mais alargado iniciado em 1994.

A incapacidade de completar o teste de equilíbrio aumentou com a idade, duplicando mais ou menos nos intervalos subsequentes de 5 anos, dos 51 aos 55 anos e seguintes. Mais de metade (cerca de 54%) dos participantes do estudo, com idades compreendidas entre os 71 e os 75 anos, não conseguiram completar o teste, contra 5% na faixa etária mais baixa que não conseguiu.

Não houve tendências claras nas mortes, ou diferenças nas causas da morte, entre aqueles que conseguiram completar o teste e aqueles que não foram capazes de fazê-lo.

Araújo disse que o equilíbrio poderia ser substancialmente melhorado com um treino específico, e isso foi algo que ele trabalhou em pacientes envolvidos num programa de exercícios medicamente supervisionado. No entanto, disse que ainda não tinha dados para avaliar se a melhoria do equilíbrio influenciou a longevidade.

Se quiser testar a sua própria capacidade de se equilibrar numa só perna durante 10 segundos, Araújo aconselhou que o melhor é ficar perto de uma parede ou mesa ou de outra pessoa para se apoiar.

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