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Conheça os pontos-chave do depoimento de Ghislaine Maxwell perante a Justiça norte-americana

CNN , Aaron Blake
25 ago 2025, 20:00
Epstein e Maxwell

Em 2021, Ghislaine Maxwell foi condenada por crimes relacionados com tráfico sexual de menores, por ter recrutado e facilitado o abuso de raparigas por parte de Jeffrey Epstein e dos seus associados

O Departamento de Justiça divulgou na sexta-feira as tão aguardadas transcrições de um interrogatório realizado semanas antes com Ghislaine Maxwell, associada de Jeffrey Epstein já condenada.

O interrogatório a Maxwell foi uma das duas medidas que a Casa Branca tomou para tentar conter a indignação relativamente à forma como geriu os ficheiros Epstein, que abalou a administração durante semanas e até levou muitos apoiantes do Presidente Donald Trump a recuarem.

A Procuradora-Geral Pam Bondi e outros responsáveis tinham alimentado expectativas em torno dos documentos sobre Epstein antes de recuarem nas promessas de os divulgar. Trump também fez uma série de afirmações falsas e enganosas que levaram as vítimas de Epstein a sugerir um encobrimento.

A outra grande iniciativa da administração – pedir o levantamento do sigilo sobre depoimentos perante o grande júri – não resultou em muito. De facto, dois juízes sugeriram que se tratava de uma “distração” destinada a aparentar transparência sem realmente o ser.

O interrogatório, conduzido pelo Vice-Procurador-Geral Todd Blanche, também não acrescenta muito ao conhecimento público sobre Epstein. Mas há alguns pontos-chave que merecem ser destacados – especialmente no contexto mais amplo da forma desastrosa como a administração tratou o assunto.

Eis o que é importante reter da transcrição:

Maxwell não está a falar a verdade, o que fragilizou o exercício

O interrogatório a Maxwell foi a primeira divulgação significativa de informação por parte da administração desde que a sua tentativa de encerrar o assunto se virou contra si no mês passado.

(Na sexta-feira, também enviou documentos de Epstein a uma comissão da Câmara que os tinha exigido, mas esses ainda não são públicos.)

Mas sempre foi uma escolha estranha, dado que Maxwell é uma criminosa sexual condenada e os seus recursos ainda estão em curso. O Departamento de Justiça no primeiro mandato de 
Trump também a classificou como uma mentirosa descarada. O que poderia ela acrescentar de valor?

Parece que não muito. As grandes manchetes são que Maxwell não incrimina ninguém – incluindo Trump – em qualquer ato ilícito e diz que Epstein não tinha lista de clientes. Mas essas declarações poderiam ter mais peso se Maxwell tivesse admitido os crimes dela e de Epstein.

Claramente não o fez. Na verdade, também lançou dúvidas sobre eles.

Negou que Epstein lhe tivesse pagado milhões de dólares para recrutar jovens mulheres para ele. Negou ter testemunhado qualquer ato sexual não consensual. E negou ter visto algo “inapropriado” por parte de “qualquer homem” – aparentemente incluindo Epstein.

“Nunca, em momento algum, vi qualquer homem a fazer algo inapropriado com uma mulher de qualquer idade”, disse Maxwell. “Nunca vi hábitos inapropriados.”

Outras respostas de Maxwell também levantam dúvidas sobre a sua credibilidade.

Num outro momento, Maxwell afirmou que Epstein não tinha câmaras “inapropriadas” nas suas residências de Nova Iorque, Caraíbas, Novo México e Paris. As câmaras na sua casa de Palm Beach, na Florida, eram usadas porque havia dinheiro a ser roubado. Mas a mansão de sete andares de Epstein em Manhattan estava equipada com câmaras, como noticiou o New York Times no início deste mês. Várias vítimas de Epstein referiram uma rede de câmaras escondidas.

Noutra ocasião, Maxwell disse não se recordar de ter recrutado uma massagista no resort Mar-a-Lago de Trump – aparentemente negando a alegação de Virginia Giuffre de que foi aí que Maxwell a recrutou.

“Nunca recrutei uma massagista em Mar-a-Lago para isso, tanto quanto me lembro”, disse.

Mas no dia seguinte, Maxwell fez questão de atenuar essa negação.

“Não me lembro de ninguém que eu tivesse [recrutado]”, disse Maxwell. “Mas não é impossível que possa ter pedido a alguém de lá.”

Se Maxwell não estava disposta a admitir os seus próprios crimes, devíamos realmente esperar que lançasse luz sobre mais alguma coisa?

A sua resposta sobre o suicídio de Epstein provavelmente vai levantar mais questões

Embora o interrogatório não tenha revelado muito, é provável que, de certa forma, alimente mais perguntas.

Num ponto-chave, Maxwell alinhou-se, pelo menos em parte, com aqueles que têm defendido teorias da conspiração sobre Epstein, que se suicidou.

“Não acredito que ele tenha morrido por suicídio, não”, disse Maxwell.

Foi-lhe pedido que especulasse sobre quem poderia ter morto Epstein, e ela disse que não sabia.

Maxwell afastou-se de muitas das teorias sobre a morte de Epstein, ao dizer que não acreditava que ele tivesse sido morto por estar a chantagear pessoas. Em vez disso, sugeriu que poderia ter sido um ataque não relacionado com isso.

“Na prisão, onde eu estou, eles matam-te ou pagam – alguém pode pagar a um preso para te matar por 25 dólares em produtos de cantina”, disse Maxwell. “Esse é mais ou menos o valor de um homicídio com um cadeado hoje em dia.” 

O Vice-Procurador-Geral Todd Blanche parecia fazer questão de enfatizar essa distinção, voltando repetidamente a ela..

A administração afirmou que Epstein morreu por suicídio, mas a informação que disponibilizou – incluindo um vídeo da prisão – levantou dúvidas sobre quão definitivas são as provas.

Maxwell tem problemas óbvios de credibilidade e não teria necessariamente informações únicas sobre como Epstein morreu. (Disse que nunca lhe telefonou ou o visitou na prisão.) Mas uma sondagem recente mostrou que os norte-americanos acreditam, em 60% contra 12%, que o governo estava a “esconder informação” sobre a morte de Epstein.

E agora, a principal cúmplice de Epstein aparentemente disse ao governo que está errado, seja lá o que isso valha.

Fez questão de elogiar Trump

Uma das grandes questões antes do interrogatório era saber se Maxwell a iria usar para tentar obter cedências da administração Trump – e se iria moldar o seu testemunho nesse sentido.

O seu advogado, David Markus, passou as semanas anteriores a dizer frequentemente coisas positivas sobre Trump e até a sugerir um possível perdão ou intervenção legal nos recursos ainda em curso.

Maxwell também foi recentemente transferida para um estabelecimento prisional de menor segurança, para o qual, como criminosa sexual, não parecia ser elegível sem uma autorização especial. A administração ainda não explicou como aconteceu essa transferência.

E o testemunho de Maxwell não refuta exatamente a ideia de que espera algo de Trump.

A certa altura, fez um breve desvio para oferecer elogios não solicitados ao sucesso político de Trump.

“Quero apenas dizer que acho – eu – admiro o seu feito extraordinário ao tornar-se presidente agora”, disse Maxwell. “E gosto dele, e sempre gostei dele.”

Trump também disse coisas positivas sobre Maxwell, incluindo o facto de, de forma bizarra, lhe ter desejado felicidades – repetidamente – depois de ter sido acusada em 2020. Também deixou repetidamente em aberto a possibilidade de lhe conceder perdão na altura em que foi interrogada por Blanche, que é ex-advogado pessoal de Trump.

Blanche disse a Maxwell que ela tinha imunidade limitada para o interrogatório, mas também afirmou: “Não estou a prometer fazer nada” por ela.

Foram mencionados nomes e Maxwell rebate Trump

Quando o Departamento de Justiça afirmou no mês passado que não divulgaria mais informações, justificou-se com o desejo de não difamar pessoas que não foram acusadas de crimes. O próprio Trump invocou repetidamente esse motivo, incluindo na passada sexta-feira à tarde.

Mas, notoriamente, a administração parece agora ter flexibilizado esse padrão.

As transcrições ocultam apenas os nomes das vítimas e mantêm os nomes de pessoas conhecidas mencionadas por Maxwell e Blanche.

Isso inclui não só Trump e o ex-presidente Bill Clinton, mas também o Secretário da Saúde e Serviços Humanos Robert F. Kennedy Jr., Harvey Weinstein, um ex-congressista e muitos outros. Maxwell mencionou alguns homens a receber massagens, mas não implicou ninguém em má conduta.

Afirmou explicitamente nunca ter observado Trump a receber uma massagem. Sobre Clinton, disse: “Não acredito que ele o tenha feito.” Sobre Kennedy, afirmou: “Nunca vi nada inapropriado com o Sr. Kennedy.”

Também pareceu contrariar uma das alegações frequentemente feitas por Trump sobre Epstein – de que o 42.º presidente estava na realidade mais próximo dele do que Trump estava. Trump afirmou repetidamente que Clinton foi dezenas de vezes à ilha de Epstein – até 28.

Mas isso parecia basear-se numa má interpretação completa da informação disponível. E Maxwell disse que Clinton nunca visitou a ilha.

“Ele nunca [foi]”, disse Maxwell. “Absolutamente nunca foi. E tenho a certeza disso porque não há maneira de ele ter ido – não acredito que houvesse forma de ele ter ido à ilha sem que eu estivesse lá.”

Mas, mais uma vez, os crimes de Maxwell colocam em causa o seu testemunho. Embora tenha negado ver qualquer homem a envolver-se em atos inapropriados, ela própria foi condenada por participar nos de um homem: os de Epstein.

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