Anos depois de ter sido publicamente acusada em processos civis e pela imprensa de ajudar Jeffrey Epstein a aliciar e abusar sexualmente de menores, Ghislaine Maxwell foi uma das convidadas de honra na prestigiada conferência Clinton Global Initiative (CGI) em setembro de 2013, segundo fotos, vídeos e documentos recentemente descobertos e analisados pela CNN.
Imagens encontradas pelo KFile da CNN mostram Maxwell a levantar-se sob aplausos durante um almoço da CGI sobre conservação dos oceanos, ao lado de outros líderes de “Compromissos de Ação”.
Informações até agora não divulgadas, revistas pela CNN, colocam Maxwell entre as personalidades recomendadas para terem acesso gratuito à conferência — uma lista que, segundo uma fonte familiarizada com o assunto, indica que o seu acesso foi pessoalmente recomendado por Bill ou Hillary Clinton.
Maxwell esteve na conferência da CGI a representar o agora extinto TerraMar Project, uma organização sem fins lucrativos de conservação dos oceanos que fundou em 2012. Uma agenda online da CGI lista a organização como tendo prometido, nesse ano, mobilizar apoio internacional para incluir os oceanos nas prioridades globais das Nações Unidas.
Quando Maxwell foi homenageada na conferência da CGI em 2013, as alegações de que recrutava raparigas para Epstein e até participava nos abusos já tinham sido noticiadas em importantes meios britânicos e norte-americanos, e tinham levado a equipa de Clinton a proibi-la de eventos oficiais em 2011 - tornando o seu reconhecimento público na CGI dois anos depois ainda mais surpreendente.
Ser nomeado parceiro de “Compromisso de Ação” na CGI era amplamente considerado uma afiliação prestigiante. E era algo que conferia a Maxwell e à sua organização credibilidade pública, ao colocá-los ao lado de grandes figuras globais da filantropia e da política, numa altura em que a sua reputação pública estava danificada pelas ligações às acusações de abuso sexual de Epstein.
Um representante da Fundação Clinton disse à CNN: “Houve mais de 600 convites aprovados na CGI em 2013. As decisões sobre esses convites foram tomadas, como sempre, a nível de staff, o que incluía o gabinete do Presidente Clinton.”
Um porta-voz do ex-presidente Bill Clinton acrescentou: “Isto diz respeito a alguém que trabalhava em conservação dos oceanos e que participou numa conferência de caridade há 12 anos, juntamente com milhares de outras pessoas, e nada mais. Como sempre dissemos, os Clinton nada sabem sobre os terríveis crimes de Jeffrey Epstein.”
“O TerraMar Project, juntamente com mais uma dúzia de organizações, assumiu Compromissos de Ação para proteger os oceanos, anunciados em 2013 numa reunião da CGI. Estes fizeram parte de mais de 4.000 compromissos desde 2005”, acrescentou o representante da Fundação Clinton.
As acusações de abuso começam a surgir
As alegações contra Maxwell surgiram pela primeira vez em maio de 2009, quando Virginia Roberts Giuffre, uma denunciadora de Epstein num processo civil na Florida, afirmou que Maxwell a recrutou quando era adolescente, a preparou para o abuso sexual, participou nesse abuso e organizou encontros sexuais com Epstein.
No mês seguinte, o Palm Beach Post noticiou o processo na sua primeira página, reportando a alegação de Giuffre de que Maxwell a tinha recrutado para Epstein. Em setembro, enquanto Maxwell estava na sessão da Clinton Global Initiative em Nova Iorque, foi-lhe entregue uma intimação no âmbito do processo — um incidente noticiado pelo New York Post. A CNN reviu imagens de arquivo que confirmam a sua presença no evento desse ano.
“Dizer que ela ficou incomodada por ser publicamente notificada neste evento é pouco”, escreveria Bradley Edwards, advogado de Giuffre e de outras acusadoras de Epstein, no seu livro de 2020, Relentless Pursuit. Maxwell nunca foi chamada a depor nesse processo, e Giuffre chegou a acordo com Epstein em dezembro de 2009.
As alegações contra Maxwell atraíram pouca atenção pública até que numa reportagem de fevereiro de 2011 sobre o príncipe Andrew, na qual Giuffre concedeu uma entrevista ao Daily Mail onde alegava que Maxwell a havia recrutado quando era adolescente para Epstein e que uma vez lhe disse que Epstein queria que ela tivesse um filho dele.
Dias depois, o Daily Mail publicou uma reportagem focada apenas em Maxwell, destacando: “De forma condenatória, várias raparigas alegaram que Ghislaine Maxwell as tinha aliciado, e uma das raparigas — que, entretanto, resolveu o seu processo civil fora do tribunal com Epstein — chegou a alegar que Ghislaine tinha participado ela própria no abuso sexual.”
Noutra entrevista, dois dias depois, ao Daily Mail, Giuffre aprofundou as alegações contra Maxwell. “Ela disse-me para tirar a roupa. Ele teve relações sexuais comigo”, disse, referindo-se a Epstein.
Maxwell negou publicamente as acusações. Ameaçou com ações legais contra os jornais, mas nunca as levou a cabo.
Mas a entrevista e a reportagem também levaram a uma cobertura mais alargada dos media britânicos sobre as alegações legais de Giuffre e as suas acusações contra Epstein e Maxwell, incluindo que Maxwell participou no abuso. A cobertura incluiu também um artigo de grande destaque da Vanity Fair sobre o Príncipe André, que relatava a alegação de Giuffre de que Maxwell a tinha recrutado como “escrava sexual” de Epstein quando tinha 15 anos. O Príncipe André chegou a acordo com Giuffre em 2022 e negou qualquer conduta imprópria. Giuffre suicidou-se em abril.
Esse escrutínio renovado levou o principal assessor de Clinton, Doug Band, a instruir um colaborador, num e-mail interno de outubro de 2011, a “remover a Ghislaine, de todas as listas” de eventos relacionados com Clinton, segundo informações vistas pela CNN e reportagens anteriores da Vanity Fair e The Spectator.
A fonte da Fundação Clinton familiarizada com a CGI disse à CNN: “Se Doug Band instruiu alguém a barrar Maxwell, não o comunicou de forma ampla nem disse porquê.”
Bill Clinton e Epstein tinham sido próximos no início dos anos 2000, com o ex-presidente a surgir nos registos do jato privado de Epstein pelo menos 16 vezes entre 2002 e 2003, em viagens que disse estarem ligadas ao trabalho da Fundação Clinton. Clinton escreveria mais tarde que a sua relação com Epstein terminou em 2003, antes de estar ciente dos crimes do financiador.
Clinton nunca foi acusado pela justiça de qualquer crime relacionado com Epstein.
Bill Clinton viajou no jato privado de Epstein pelo menos 16 vezes no início dos anos 2000
O ex-presidente viajou no jato privado de Jeffrey Epstein em deslocações nacionais e internacionais, muitas vezes acompanhado por Epstein e por Ghislaine Maxwell, de acordo com os registos de voo divulgados durante o julgamento de Maxwell por tráfico sexual em 2021. Alguns desses voos faziam parte de viagens internacionais longas, com várias paragens.

Mas Maxwell, a associada mais próxima de Epstein, estava e permaneceu no círculo dos Clintons durante anos — continuando a aparecer em eventos da CGI, a coorganizar angariações de fundos para Hillary Clinton em 2007 e para a Biblioteca Presidencial de Clinton em 2003, e a manter laços sociais com a família.
“Querida Ghislaine, Obrigado por ter organizado um evento tão fantástico para a Hillary. Diverti-me imenso no Capitale, e agradeço tudo o que fez para que a angariação fosse um sucesso absoluto. Não teria sido possível sem os seus esforços”, lia-se numa carta de 2007 revista pela CNN, redigida para Bill Clinton enviar a Maxwell, agradecendo-lhe por coorganizar uma grande angariação de fundos para a campanha presidencial de Hillary Clinton — parte de um conjunto de notas de agradecimento preparadas para anfitriões de eventos. “Estou grato pela sua amizade.”
Não está claro, a partir do rascunho, se foi de facto enviada.
Mais tarde, Maxwell passou férias com Chelsea Clinton, filha dos Clintons, em 2009 e esteve presente no seu casamento em 2010.
Um porta-voz da família Clinton disse à Vanity Fair em 2019 que Chelsea era “amiga” de Maxwell por intermédio de uma amiga em comum. “Quando essa relação terminou, a relação de Chelsea com ela também terminou”, disse o porta-voz. “Só em 2015 é que Chelsea teve conhecimento das horríveis acusações contra Ghislaine Maxwell e espera que todas as vítimas encontrem justiça.”
Os novos detalhes surgem em paralelo à atenção renovada sobre Epstein e Maxwell. A recusa da administração Trump em divulgar os ficheiros e documentos relacionados com Epstein, como havia prometido, provocou uma tempestade política para o Presidente Donald Trump. O Comité de Supervisão da Câmara também intimou Bill e Hillary Clinton no âmbito da sua investigação em curso sobre a rede de Epstein, com depoimentos agendados para outubro.
Maxwell viu-se no centro de um novo escrutínio. Após longas entrevistas com o Vice-Procurador-Geral Todd Blanche durante dois dias no mês passado, foi transferida de uma prisão na Florida para um campo prisional federal de mínima segurança em Bryan, Texas. A transferência é altamente invulgar para uma criminosa sexual condenada e gerou fortes críticas, levando o Congresso a exigir explicações a responsáveis do Departamento de Justiça.
As transcrições e gravações dessas entrevistas foram divulgadas pelo Departamento de Justiça na sexta-feira.
Na entrevista, Maxwell insistiu que Bill Clinton nunca foi à ilha de Epstein e descreveu as suas viagens no avião de Epstein como estritamente ligadas a projetos humanitários. Também se apresentou como uma apoiante discreta no pós-presidência de Clinton, afirmando que ajudou a conceber a Clinton Global Initiative.
Disse aos investigadores que tinha visitado a casa dos Clintons em Chappaqua, Nova Iorque, “algumas vezes”, como convidada, e descreveu o ex-presidente como um amigo.
Maxwell afirmou que foi ela quem apresentou Clinton a Epstein e sugeriu que Epstein disponibilizasse o seu avião privado para as viagens de Clinton. “Eles conheceram-se por minha causa, e o avião foi por minha causa.”
Uma parceira de “compromisso” homenageada na CGI
Em 2012, Band, o braço-direito de Clinton, tinha deixado a esfera do ex-presidente após cofundar a consultora Teneo. E em 2013, Maxwell estava de volta à CGI.
Durante a sessão de almoço de 2013, centrada nos oceanos, Maxwell esteve entre um grupo cujo compromisso de trabalhar com a CGI foi homenageado nos comentários de José María Figueres, ex-presidente da Costa Rica e copresidente da Comissão Global dos Oceanos.
Figueres convidou os que tinham feito compromissos a levantar-se, dizendo: “Podem levantar-se todos os que estamos hoje a homenagear, para que sejam reconhecidos?”
Maxwell, representando o TerraMar Project, levantou-se sob aplausos, ao lado de outros líderes de iniciativas oceânicas, segundo vídeo e fotos de arquivo do momento.
“Era raro, prestigiante e uma honra ser reconhecida da forma como Ghislaine foi na reunião anual da CGI”, disse à CNN uma fonte familiarizada com o funcionamento interno da CGI.
Uma cópia arquivada da promessa de “compromisso de ação” do TerraMar no site da Fundação Clinton observa: “a liderar a vertente pública está a Sra. Ghislaine Maxwell, fundadora e diretora da TM”. Ser nomeada parceira de “Compromisso de Ação” na CGI era amplamente visto como uma afiliação prestigiante e que conferia credibilidade a Maxwell e à sua organização ao colocá-los ao lado de grandes intervenientes globais na filantropia e na política.
O TerraMar viria a ser amplamente visto como a tentativa de Maxwell de reabilitar a sua imagem após as suas ligações a Epstein começarem a ser escrutinadas.
Maxwell promoveu o projeto em palcos de grande visibilidade em 2013 e 2014 — dando palestras TED, falando nas Nações Unidas e no Council on Foreign Relations, escrevendo artigos no Huffington Post e aparecendo em canais como Bloomberg e CNN International.
Os críticos notaram que a organização produziu pouco trabalho de conservação tangível, e a sua documentação pública mostra que não concedeu grandes subsídios de caridade.
Ainda em março de 2015, segundo a Wayback Machine do Internet Archive, a Fundação Clinton divulgava atualizações sobre o compromisso do TerraMar.
O TerraMar Project encerrou em 2019, pouco depois da prisão de Epstein por acusações federais de tráfico sexual.
Depois de Maxwell ter sido considerada culpada de acusações de tráfico sexual em 2021, os seus advogados citaram o trabalho dela na ONG dos oceanos e alegaram que ela “ajudou a lançar a Clinton Global Initiative” em defesa de uma sentença menos severa.
Foi mais tarde condenada a 20 anos de prisão.
Uma associada de longa data dos Clinton
As ligações de Maxwell aos Clinton estendiam-se muito para além dos eventos da CGI. Já em 1993, fotos mostram Epstein e Maxwell a visitar o então presidente Clinton na Casa Branca.
O New York Post noticiou em 2001 que Maxwell tinha participado num jantar com Bill Clinton num restaurante de luxo em Manhattan. Em fevereiro de 2002, Maxwell e Clinton terão estado sentados juntos num gala de beneficência. Em setembro de 2002, Maxwell acompanhou o ex-presidente e Epstein numa viagem ao estrangeiro ligada ao trabalho de caridade de Clinton e foi fotografada com Clinton junto ao avião privado de Epstein.
Em julho de 2003, foi incluída no comité organizador de uma angariação de fundos para a Biblioteca Clinton em Nova Iorque, segundo uma cópia arquivada revista pela CNN e cobertura do New York Post da época. O Mail on Sunday noticiou na altura que o seu “provável acompanhante” para o evento era Epstein.
Em 2007, Maxwell foi incluída como coorganizadora de uma grande angariação de fundos para a campanha presidencial de Hillary Clinton que decorreu no espaço Capitale, em Nova Iorque, segundo informação revista pela CNN. Outros anfitriões noticiados para o evento incluíam Harvey Weinstein, segundo o New York Times. Christina Aguilera atuou no evento.
Maxwell doou o máximo legal permitido à época — 2.300 dólares — para a campanha de Clinton nesse ano.
Também participou num pequeno jantar pessoal com Bill Clinton em Los Angeles, em fevereiro de 2014, segundo noticiou o Daily Beast em 2020.
Na conversa com o Departamento de Justiça neste verão, Maxwell não conseguiu lembrar-se de forma clara de qual foi a última vez que se encontrou com Clinton, recordando apenas um intervalo de tempo amplo e incerto de anos e circunstâncias.
“Foi em — foi no final de ’18 — 2000 e, não sei, ’16, ’17, ’18, qualquer coisa ’19 em – foi em Los Angeles”, disse. “Acho que ele estava a organizar algo ou estava num evento e eu estava em LA e jantei com ele.”
