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Bill Gates garante que Jeffrey Epstein tentou usar informações sobre as suas infidelidades para se aproximar dele

CNN , Annie Grayer, MJ Lee e Andrew Kaczynski
10 jun, 16:19
Bill Gates testemunha no caso Epstein
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"É verdade que só estive presente em jantares; nunca fui à ilha. Nunca conheci nenhuma mulher", disse o fundador da Microsoft

O multimilionário Bill Gates disse esta quarta-feira aos membros da Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA que não tinha conhecimento dos crimes de Jeffrey Epstein e que Epstein tentou usar informações sobre a sua vida pessoal — incluindo o facto de ter sido infiel no casamento — para o pressionar, segundo uma cópia da sua declaração inicial obtida pela CNN.

"Nunca testemunhei nem tive qualquer indicação de que Epstein estivesse envolvido em atividades criminosas em curso. Nunca fui à sua ilha, ao seu rancho ou à sua casa na Florida. Nunca prejudiquei ninguém. Embora ele possa ter procurado estabelecer uma relação pessoal, eu nunca tive interesse nisso nem correspondi", afirmou Gates, de acordo com as declarações preparadas antes do seu testemunho. "Soube que Epstein tinha tomado conhecimento de informações sensíveis sobre a minha vida pessoal, incluindo o facto de eu ter sido infiel no meu casamento. Essas relações extraconjugais não tiveram nada a ver com as minhas interações com Epstein, mas foram dolorosas para a minha família".

Gates disse que foi apresentado a Epstein em 2011 e que o agressor sexual condenado prometeu que conseguiria angariar milhares de milhões de euros para a saúde global. "Lembro-me de estar consciente de que Epstein tinha enfrentado problemas legais anteriormente, mas não compreendia totalmente a dimensão dos crimes que tinha cometido. Aceitei a apresentação sem exercer o escrutínio que deveria ter aplicado", disse aos legisladores.

Gates classificou as suas interações com Epstein como "limitadas" e testemunhou que cessaram por completo em dezembro de 2014.
Alegou ainda que Epstein tentou usar aquilo que sabia sobre as suas infidelidades — "além de muitas mentiras que acrescentou à história" — para o pressionar a retomar o contacto depois de a relação entre ambos ter terminado.

"Não teve sucesso nessa tentativa, mas isso mostra algumas das formas como tentou explorar as suas interações comigo para promover a sua própria agenda. Nunca deveria ter-me encontrado com Epstein", afirmou Gates, segundo as declarações.

Perante os legisladores, Gates disse que conhecer Epstein constituiu um "grave erro de julgamento" da sua parte. O testemunho de Gates à porta fechada surge depois de a divulgação, este ano, dos ficheiros relativos a Jeffrey Epstein ter levantado questões sobre os seus laços com o falecido agressor sexual condenado. Tratando-se da 15.ª entrevista realizada pela comissão, a comparência presencial de Gates no Capitólio foi uma das mais mediáticas perante investigadores do Congresso até à data.

Dirigindo-se aos jornalistas à chegada, esta quarta-feira, Gates afirmou estar "satisfeito por estar aqui voluntariamente para testemunhar e ajudar no trabalho da comissão", acrescentando que começaria com uma declaração inicial. "Espero que o meu testemunho seja útil para o trabalho, importante trabalho, da comissão na procura de justiça para as vítimas", disse.

O presidente da Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes, James Comer, disse à CNN antes da comparência de Gates que não existiam limitações quanto ao âmbito das perguntas.

"Tudo está em cima da mesa", acrescentou o republicano do Kentucky, observando que, embora Gates possa não estar «entusiasmado» por testemunhar, está "disposto" a fazê-lo.

Gates está entre as muitas figuras poderosas que fizeram parte do círculo de Epstein — desde Howard Lutnick até Bill Clinton — e que aparecem em vídeos ou fotografias divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA a partir dos seus ficheiros do caso.
Comer disse aos jornalistas, na quarta-feira, que planeava pedir a mais figuras de destaque, incluindo Alan Dershowitz e o procurador-geral interino Todd Blanche, que testemunhassem em julho.

Relação de Gates com Epstein sob escrutínio

A comissão procurou a cooperação voluntária de Gates depois de um conjunto dos documentos divulgados revelar uma série de alegações gráficas não verificadas, bem como um grau de coordenação filantrópica entre Gates e Epstein mais detalhado do que era anteriormente conhecido.

Como a CNN noticiou anteriormente, os elementos mais explosivos da divulgação anterior de documentos envolvem dois rascunhos de e-mails que Epstein aparentemente escreveu para si próprio em julho de 2013. Nessas notas escritas em fluxo de consciência, repletas de erros ortográficos e comentários rancorosos, Epstein parece afirmar que facilitou encontros sexuais para Gates e o ajudou a obter medicamentos para ocultar uma infeção sexualmente transmissível da sua mulher.

Não é claro quem escreveu as mensagens de rascunho de 2013 guardadas na conta de e-mail de Epstein, nem se chegaram alguma vez a ser enviadas, mas estão endereçadas de Epstein para si próprio. Embora os e-mails sugiram que, nessa altura, existia algum tipo de rutura na amizade entre ambos, as reuniões e trocas de mensagens continuaram durante esse período.

Num dos e-mails, Epstein alegava ter ajudado Gates a obter medicamentos "para lidar com as consequências de relações sexuais com raparigas russas" e de "encontros ilícitos com mulheres casadas". O e-mail também refere que Gates lhe teria pedido Adderall para torneios de bridge.

O outro rascunho de e-mail alega que Gates pediu, em lágrimas, a Epstein que apagasse mensagens que faziam referência a uma infeção sexualmente transmissível, "o teu pedido para eu te fornecer antibióticos que pudesses dar discretamente à Melinda", e que eliminasse detalhes pessoais explícitos sobre o seu pénis.

As alegações contidas nestes rascunhos de e-mail não foram verificadas nem corroboradas. Não há qualquer indicação de que a mensagem tenha sido partilhada com Gates ou com qualquer outra pessoa, e o cofundador da Microsoft não foi acusado de qualquer irregularidade criminal relacionada com Epstein.

Gates negou veementemente estas alegações e um representante seu disse anteriormente à CNN: "Estas alegações são absolutamente absurdas e completamente falsas. A única coisa que estes documentos demonstram é a frustração de Epstein por não ter uma relação contínua com Gates e até onde estava disposto a ir para o comprometer e difamar. Embora o Sr. Gates reconheça que encontrar-se com Epstein foi um grave erro de julgamento, nega categoricamente qualquer conduta imprópria relacionada com Epstein e com as horríveis atividades em que este estava envolvido. O Sr. Gates nunca visitou a ilha de Epstein, nunca participou em festas com ele e não teve qualquer envolvimento em atividades ilegais associadas a Epstein."

Gates foi questionado sobre os documentos mais recentes numa entrevista à Nine News, afiliada da CNN na Austrália, em fevereiro.

"Pelos vistos, Jeffrey escreveu um e-mail para si próprio. Esse e-mail nunca foi enviado e é falso. Por isso, não sei o que lhe passava pela cabeça. Apenas me recorda que me arrependo de cada minuto que passei com ele e peço desculpa por o ter feito", disse Gates.

Acrescentou: "É verdade que só estive presente em jantares; nunca fui à ilha. Nunca conheci nenhuma mulher. E, portanto, quanto mais informação surgir, mais claro ficará que, embora esse tempo tenha sido um erro, não teve nada a ver com esse tipo de comportamento."

Gates também já tinha afirmado anteriormente que lamenta ter conhecido Epstein, dizendo a Anderson Cooper, da CNN, em 2021: "Foi um enorme erro passar tempo com ele, dar-lhe a credibilidade que resultava da minha presença."

As mais de três milhões de páginas divulgadas pelo Departamento de Justiça contêm várias centenas de referências a Gates, incluindo numerosos e-mails com detalhes sobre agendas de reuniões, refeições, chamadas telefónicas propostas e tentativas de Epstein para organizar encontros com Gates. Todas as interações documentadas com Gates ocorreram após a condenação de Epstein em 2008 por crimes relacionados com prostituição, quer tenha sido um jantar partilhado pelos dois em 2010 ou uma reunião na Noruega em agosto de 2012.

"Gostei muito do pequeno-almoço", escreveu Gates a Epstein em dezembro de 2014.

Epstein respondeu, em parte, dizendo: "como sempre, toda a gente gostou muito de ti" e concluiu convidando Gates para a sua ilha privada, que Gates afirma nunca ter visitado. Não existe qualquer indicação de que tenha aceitado o convite.

Antes da comparência de Gates no Capitólio, o congressista democrata Robert Garcia, principal representante democrata na Comissão de Supervisão, afirmou que é "muito preocupante" que Gates tenha mantido uma relação com Epstein após a condenação deste.

"Dissemos que não nos importa se é republicano ou democrata, ou quem é. O facto de o Sr. Gates ter continuado a ter uma relação com o Sr. Epstein mesmo depois de conhecer a condenação, sabendo efetivamente o que ele tinha feito, é muito preocupante. Queremos saber o que o Sr. Gates sabia, quem mais fazia parte desse círculo e porque continuou a manter uma relação com o Sr. Epstein", declarou Garcia na terça-feira.

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