Portugal é dos países mais envelhecidos da Europa. Tem quase o dobro de idosos por cada 100 jovens. O problema é mais evidente no interior Norte do país. A par deste envelhecimento populacional, vem a solidão: "Passam dias, semanas, meses em que não veem ninguém"
(CNN Autárquicas 2025) - Cristiana Nascimento prefere chamar-lhes “adultos mais velhos”. Durante a conversa com a CNN Portugal, nunca usou a palavra idosos. A especialista em psicologia do envelhecimento e doutoranda em geriatria fala em dois tipos de solidão, na 3.ª e 4.ª idades: o isolamento físico e o isolamento emocional.
“O isolamento físico tem, muitas vezes, a ver com as características do território. Acontece sobretudo nas zonas rurais, nas zonas do interior. Mas também há pessoas que podem viver no meio da multidão e viverem muito sozinhas. Pessoas que vivem no centro da cidade, em casas com escadas inacessíveis e onde não há elevador, o que as impede de sair da própria casa”, explica.
“Também podemos falar de adultos mais velhos que vivem com as próprias famílias, mas que por motivos de estudos ou de trabalho dos familiares passam os dias sozinhos”, acrescenta.
Os números da solidão
A solidão é um drama que afeta milhares de idosos. Portugal é o segundo país europeu mais envelhecido. De acordo com dados da Pordata, em 2024 havia 192,4 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 jovens entre os 10 e os 14 anos. Um aumento de 4,3% face ao ano anterior. Mais envelhecido do que Portugal só mesmo a Itália, com 199,8 idosos por cada 100 jovens.
À beira das eleições autárquicas, se fizermos o retrato etário da população portuguesa, vemos uma população mais envelhecida no interior Norte do país. É Vinhais, “para lá do Marão”, o concelho mais envelhecido do país. Por lá, temos 732 idosos por cada 100 jovens. Almeida, no interior Centro, tem 716,6 idosos por cada 100 jovens. Alcoutim, no interior algarvio, tem 714,9 idosos por cada 100 jovens. Sertã, o concelho da “menina da Rádio”, tem 316,8 idosos por cada 100 jovens.
Muitos destes idosos vivem sozinhos. Os últimos censos, realizados em 2021, dão conta de quase meio milhão de idosos (pessoas com 65 anos ou mais) a viver sozinhos – 446.900, para ser mais exato. Os mesmos censos dão conta de 40% dos idosos com mais de 80 anos a viver sozinhos. De acordo com o estudo “Famílias nas fases mais avançadas da vida: tendências atuais”, da Pordata, mais de 50% dos agregados domésticos unipessoais são compostos por pessoas com 65 anos ou mais.
Uma solidão que sai cara e mata
Cristiana Nascimento lembra que muitos destes idosos convivem com “a falta de contacto com pessoas que sejam significativas, como netos, filhos ou sobrinhos”. “Passam dias, semanas, meses em que não veem ninguém”, resume.
Nos meios rurais, os “adultos mais velhos” veem as casas da rua onde moram a irem ficando vazias: “Os vizinhos vão morrendo, vão para junto de familiares ou são institucionalizados e esta relação de vizinhança acaba também por não existir.”
“Esta solidão leva a contextos depressivos, a casos de adultos mais velhos que se suicidam. Estamos a falar de um enorme comprometimento da saúde mental. Sozinhas, as pessoas apercebem-se mais facilmente da perda de capacidades que vai acontecendo ao longo do tempo. E a falta de estímulos acelera essa perda de capacidades”, acrescenta a psicóloga.
E sai cara. A especialista dá um exemplo: “Há adultos mais velhos que vivem longe da sede de concelho e que para comprar uma caixa de paracetamol, que custa menos de 2 euros, têm de pagar 50 euros de táxi para ir à farmácia. Para esta pessoa, uma caixa de paracetamol custou 52 euros.”
Cristiana Nascimento não tem dúvidas que grande parte deste impacto poderia ser evitado, se Portugal fosse “um país amigo dos adultos mais velhos”. E essa amizade poderia passar por medidas tão simples como uma transição para a reforma, criação de programas de voluntariado ou de programas intergeracionais.
O abandono, muitas vezes involuntário
José Bourdain é presidente da Associação Nacional dos Cuidados Continuados (ANCC). Não esconde que nas instituições associadas há idosos com alta clínica, que podiam estar em casa, junto das famílias, mas que estão ali. “Os hospitais têm muitos casos sociais. Pessoas que podiam estar na própria casa, num lar ou numa casa de cuidados continuados e estão ali a ocupar camas. Há pessoas que não tomam um único comprimido e estão internadas. Nos cuidados continuados, isso também acontece e, apesar de não haver números concretos, diria que andam na ordem dos 35%”, aponta.
E José Bourdain diz que nem sempre a “culpa” é das famílias. O abandono nem sempre é voluntário, garante. “Há pessoas que se afastam da família e dos seus idosos. Há pessoas que se afastam propositadamente. Mas também há pessoas a quem os hospitais fazem uma pressão tão grande para levarem os seus idosos para casa, que, se não têm condições para os levarem para casa, a solução é afastarem-se. E nos cuidados continuados, isso também acontece”, admite.
“É uma estratégia para terem a certeza de que o seu familiar está a ser bem cuidado”, remata.
A socióloga Rute Lemos, docente na Universidade do Porto, tem-se dedicado ao estudo da relação entre a família e o envelhecimento. Concorda com José Bourdain e confirma que, nos hospitais, “as assistentes sociais e médicos veiculam muito este discurso da familiarização”. “Mas as famílias não conseguem assegurar os cuidados aos seus idosos, porque não há respostas na comunidade que apoiem as famílias. O Apoio ao Domicílio é muitas vezes só uma vez por dia e ao fim de semana é, muitas vezes, inexistente. As Equipas de Cuidados Integrados Continuados estão previstas. Existem no papel, mas na prática elas não funcionam. As famílias preferem deixar o idoso no hospital porque ali sabem que vão ter os cuidados adequados”, confirma.
Mas José Bourdain diz que “também há pessoas que estão na própria casa ou nos lares e deveriam estar em cuidados continuados”. E não estão porquê? “O sistema funciona mal e de forma tão desorganizada que o país não aproveita os recursos que tem”, responde o presidente da ANCC.
“O Governo não sabe, ninguém sabe de quantas camas precisamos em cuidados continuados. A avaliação não está feita. Manda-se uns números para o ar, mas ninguém sabe ao certo. Falam-se numas estimativas da União Europeia, mas alguém sabe se essas estimativas se adequam à realidade portuguesa?”, questiona.
“Devia haver uma única rede a gerir isto tudo: lares, hospitais, cuidados continuados, apoio domiciliário”, sugere.
A institucionalização
Segundo a psicóloga Cristiana Nascimento, apenas “4 ou 4,5% dos adultos mais velhos é que estão institucionalizados”. “São pessoas com várias comorbilidades, várias patologias, pessoas a quem já é difícil estar no domicílio, ainda que com uma retaguarda familiar ou mesmo com cuidadores formais no domicilio.”
“Por norma, as famílias esgotam várias possibilidades, nomeadamente a possibilidade de serem elas próprias a cuidar no domicílio, mas concluem que as residências não dão essa possibilidade. Também tentam contratar cuidadores formais, mas que não dão resposta suficiente às necessidades dos idosos”, acrescenta.
A socióloga Rute Lemos tem outra opinião sobre a institucionalização de idosos. “Somos um país que institucionaliza os idosos, sim. Mas a institucionalização ocorre sobretudo nos mais velhos. Nós trabalhamos com idades acima dos 80 anos e, nessa faixa etária, 16% dos idosos estão institucionalizados”, vinca, acrescentando ainda que “não é possível contabilizar os idosos institucionalizados em lares ilegais”.
E, de acordo com a socióloga, quem está mais sujeito à institucionalização em lares ilegais são os idosos provenientes de famílias de classe média-baixa: “A população muito vulnerável tem acesso às Instituições Particulares de Solidariedade Social. Quem tem dinheiro, consegue pagar lares particulares.”
Além disso, Rute Lemos lembra que o Estado “comparticipa a institucionalização, mas não apoia financeiramente as famílias para acolherem os idosos em casa”. Ainda assim, garante, e por comparação com outros países europeus, “as famílias portuguesas ainda acolhem muito os seus idosos em casa”. “As pessoas mais velhas têm fortes vínculos com os filhos. Apesar de tudo, ainda temos uma sociedade com vínculos intergeracionais fortes”, sublinha.
Preparar o envelhecimento
Rute Lemos sublinha que, em Portugal, “a tendência é as pessoas ficarem nas suas próprias casas e envelhecerem nas suas próprias casas”. “Não querem ir para lares, nem para casa dos filhos, porque não os querem incomodar”, acrescenta.
A socióloga lembra ainda que, sobretudo os idosos do interior Norte, sofrem muito com os fenómenos de migração e de emigração. “Muitos deles, os familiares vêm cá uma vez por ano e é nessa altura que os visitam. Às vezes até estão nos lares e não recebem visitas o resto do ano, mas não significa que estejam abandonados”, explica.
A docente de sociologia da Universidade do Porto sublinha que é preciso “criar respostas para as necessidades sociais e de saúde das pessoas mais velhas” e, acima de tudo, “criar políticas de prevenção do envelhecimento”. “As necessidades das pessoas mais velhas no futuro vão ser diferentes das de agora. Eu visito lares onde uma casa de banho é partilhada por dez utentes. Não creio que os velhos do futuro estejam preparados, por exemplo, para esta falta de privacidade”, exemplifica.
Além disso, argumenta, é preciso responsabilizar as pessoas pelo seu próprio envelhecimento. E essa preparação pode passar por aspetos mais simples do que se imagina: “A maior parte das quedas dos idosos dá-se no domicílio. Sabe porquê? Por causa dos tapetes. E depois quebram pernas, quebram ancas, que levam a muito tempo de hospitalização e a perda de mobilidade. A prevenção do envelhecimento passa por algo tão simples como tirar os tapetes das casas.”
Nota do Editor: se sofre de solidão ou problemas de saúde mental, procure ajuda. Deixamos alguns contactos úteis:
- SOS Voz Amiga - 213 544 545; 912 802 669; 963 524 660; 930 712 500
- Linha SNS 24 - 808 24 24 24 (opção 4) - Aconselhamento psicológico 24 horas por dia.
- Linha Nacional de Prevenção do Suicídio - 1411
- Conversa Amiga - 808 237 327 ou 210 027 159 (Atendimento diário das 15h00 às 22h00).
- Telefone da Amizade - 222 080 707 (Atendimento diário das 16h00 às 23h00).
- Voz de Apoio - 225 506 070 (Atendimento das 21h00 às 24h00, com contacto por email sos@vozdeapoio.pt).
- Vozes Amigas de Esperança de Portugal - 222 030 707 (Atendimento diário das 16h00 às 22h00).