«O Xavi preparou-se três anos para ser treinador e eu fui participando nessa preparação»

26 mar, 09:36
João Carlos Pereira

Entrevista com João Carlos Pereira, que trabalhou com o irmão Óscar Hernandez e acompanhou no Qatar o processo de formação do atual treinador do Barcelona

Quando Xavi foi para o Qatar levou o irmão Óscar, a quem foi oferecido um lugar na Aspire Academy: por um acaso do destino, o catalão escolheu trabalhar no departamento de desenvolvimento pessoal, que era liderado pelo português João Carlos Pereira.

A partir daí os três criaram uma relação de amizade, passaram muitas horas à mesa a falar de futebol e João Carlos Pereira foi sendo convidado para estar em palestras e workshops que Xavi organizava com referências do treino para preparar a carreira de treinador.

Nesta entrevista ao Maisfutebol, João Carlos Pereira fala da amizade com os irmãos Hernández, dos estágios realizados ao lado de alguns dos melhores do mundo e começa por recordar duas vitórias inesquecíveis, quando ganhou 4-0 no Dragão e 4-2 em Alvalade pelo Nacional.

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Fez agora 17 anos da vitória no Dragão, é maior derrota do FC Porto em casa com equipas portuguesas. O que é que se recorda desse jogo?

Recordo os festejos no fim, recordo a preparação para o jogo, recordo o momento imediatamente antes de irmos para dentro do campo, recordo a mensagem que tentamos passar.

Que mensagem foi essa?

No fundo foi basicamente reforçar que discutir estes jogos contra estas equipas implica não assumir um papel de submisso. A mensagem foi passando durante a semana e no dia do jogo lembro-me que eu recortei uma entrevista do treinador FC Porto...

Que era o José Couceiro.

Exatamente. Uma entrevista em que ele dizia que o Nacional não ia ao Dragão para jogar para o ponto ou para não perder. Eu reforcei isso e disse: ‘Ele tem toda a razão, nós não vimos aqui para empatar, nós estamos aqui para ganhar o jogo. Vamos discuti-lo e logo se vê quem vai ser melhor’. Lembro-me também dos festejos no final, lembro-me da forma como acabou o jogo, porque o FC Porto tentou e nós em contra-ataques fomos criando muitas oportunidades. A partir de determinado momento começámos até a gerir o jogo tendo a bola, obrigando os jogadores do FC Porto a correr, a desgastarem-se e a chegarem tarde à pressão, e lembro-me de ter ouvido alguns olés da bancada.

Dos adeptos do FC Porto?

Sim, sim, dos adeptos do FC Porto. E lembro-me também de, já dentro do autocarro, na zona de saída do Estádio do Dragão, estar um aglomerado de adeptos do FC Porto e de nos aplaudirem.

É curioso porque nesse ano também foi Alvalade marcar quatro golos.

Sim. Esse foi um jogo muito intenso, até do ponto de vista emocional, porque tinha transmitido aos jogadores que era o meu último jogo, no dia anterior tinha pedido ao Eng. Rui Alves para sair. Lembro-me da importância do jogo, porque o Sporting tinha tido uma semana terrível, em que perdeu o título contra o Benfica, naquele famoso golo do Luisão, e a meio da semana perdeu a final da Taça UEFA contra o CSKA. Aquele era o último jogo do campeonato, porque o Sporting tinha jogado ao meio da semana. O Sporting jogava o acesso direto ao Liga dos Campeões, ou seja, estava em segundo e precisava de ganhar o jogo para manter o segundo lugar.

Mas perdeu 4-2...

Sim, nós retirámos-lhe essa possibilidade de irem de forma direta à Champions. A minha mensagem foi: vamos acabar a época, é a última vez que jogamos juntos, portanto vamos transformar isso num jogo que possamos recordar. E assim foi, os jogadores sempre, ou quase sempre, que eram colocados em situações de desafios, pelo menos naquela altura, correspondiam de forma muito afirmativa e foi outra grande vitória.

Esse Nacional tinha grandes equipas. Porque é que o João Carlos Pereira optou por sair?

O Nacional naquela altura era um muito bom projeto. Não digo que me arrependo, porque quando faço as coisas, elas coisas ponderadas, mas se fosse hoje eu tinha outro tipo de maturidade para lidar com algumas coisas que eu achava que não estavam tão bem. Situações de alinhamento que são típicas de qualquer relação de trabalho. Hoje em dia não teria sido desta maneira. Mas é verdade tínhamos uma belíssima equipa com bom jogadores que precisavam de alguma de alguma motivação e de alguma disciplina para poderem render na medida do seu potencial.

Depois de passar por vários clubes, foi para o Qatar e tornou-se próximo de Xavi, como é que começou essa relação?

Uma das coisas boas que a Aspire me proporcionou é que passou a ser um polo aglutinador de eventos relacionados com o desporto, e sobretudo com o futebol: a FIFA começou a deslocar para ali algumas ações de formação de árbitros e de treinadores, começou a haver jogos internacionais para testar as infraestruturas e todo aquele investimento também previa a vinda de clubes de topo como Bayern, Manchester United, Juventus, Milan, RB Leipzig, Everton, Zenit e até mesmo equipas chinesas, que iam ali fazer estágios ou passar uma semana naquela pausa de inverno. Nós naturalmente tínhamos acesso aos treinos e eu mandava filmar tudo para depois analisar e discutir com os treinadores. Por isso fomos criando laços e relação com algumas pessoas, por exemplo o Bayern Munique foi ali quatro anos seguidos. Para além disso, a Aspire também tinha no seu projeto a necessidade de atrair estrelas do futebol mundial para serem consultores e participarem de forma ativa na academia. Foi assim que eu conheci o Xavi, o Raul e outros.

Mas com Xavi a relação tornou-se mais próxima, não é?

O Xavi quando foi para o Qatar colocou como exigência levar também os irmãos, para ter o círculo familiar mais próximo, porque ia para um país diferente e nunca tinha saído da Catalunha. Quando perguntaram a um dos irmãos, o Óscar, que agora é adjunto no Barcelona, onde é que ele queria trabalhar, ele escolheu o meu departamento na Aspire: o departamento de desenvolvimento individual. Começou a trabalhar comigo e criámos uma relação de grande amizade, de partilha das nossas casas, das nossas famílias, íamos jantar fora, já veio passar férias a minha casa aqui em Portugal, enfim, já fui fazer um estágio com eles esta época no Barcelona. Como deve calcular as conversas de horas e horas com o Xavi e com o Óscar passaram a ser normais no dia a dia. Além disso as pessoas tinham-me em muito boa conta e como era um bocadinho mais experiente foram-me perguntando coisas, pedindo a minha opinião em relação a algumas decisões, nomeadamente se devia o Xavi enveredar pela carreira de treinador.

Ele sempre pareceu ter todo o perfil para isso.

Ele preparou-se para ser treinador, esteve três anos no Qatar a preparar-se para ser treinador e fez uma coisa muito interessante: convidava pessoas de referência do treino para ir participar em conversas, palestras e workshops para ele, de formação. Convidavam-me e eu participava nelas, muitas eram presenciais, outras online, e fui participando em toda esta esta dinâmica de preparação do Xavi para o treino.

O João Carlos Pereira tem essa particularidade de já ter aprendido com vários dos melhores do mundo.

Sim, eu tive sempre a preocupação de ir atrás do conhecimento e felizmente vivemos tempos em que a informação circula muito mais rápido e a partilha é mais fácil. Quando podia, lá fazia o trolley e ia por essa Europa fora visitar academias. Aproveitava e estava o dia todo nos clubes, de manhã à noite, via infantis, juvenis, juniores e a equipa sénior. E pronto, estava ali uma semana ou dez dias, tirava as minhas notas, falava com as pessoas e partilhava ideias. Quando fui para o Qatar isso intensificou-se ainda mais, até porque fazia parte do projeto trazer equipas de topo para proporcionarmos contacto internacional aos nossos jovens, e eu também fazia duas a três visitas por ano a academias de referência pelo mundo, nomeadamente na Europa: ia com 12 jogadores, dois por cada escalão, e durante esse tempo trabalhávamos os jogadores inseridos em cada equipa por escalão. Eu acompanhava isso tudo, discutia com as pessoas e trocava experiências.

Tendo já estagiado com nomes como Guardiola, Mourinho, Guus Hiddink, com qual aprendeu mais?

Sinceramente eu consegui extrair algo de bom em todos eles. Houve um ao outro que tiveram mais impacto em mim, nomeadamente o Mourinho, porque trouxe ideias frescas para o futebol português e teve um contributo tremendo para o desenvolvimento de uma mentalidade no nosso seio. Lembro-me que antigamente jogávamos contra nomes grandes na Europa e nós íamos todos fechadinhos, submissos, defender e baixar o bloco. Com Mourinho isso mudou, passamos a ser mais atrevidos.

O que acha que Antero Henrique pode dar à Liga do Qatar como diretor desportivo?

Não me surpreendeu a notícia, porque sei que eles tentam rodear-se dos melhores e não contratam só por contratar. Quando contratam, vão ouvir muita gente e vão procurar aquilo que acrescenta valor ao projeto. Acho que ele não vai arrepender-se de dar este passo. Vai ser altamente gratificante para ele fazer parte desse tipo de projetos e seguramente que vai trazer muita qualidade e organização àquilo que já é uma estrutura altamente organizada.

 

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