Quer ser indemnizada por Angola e Portugal, pede à irmã Isabel para não ser "uma grande traidora", chamou tudo a João Lourenço: Tchizé dos Santos falou e diz que a querem matar

12 jul, 01:05

EXCLUSIVO Filha do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos (1942-2022) deu uma entrevista à CNN Portugal. E nada será igual daqui em diante - sobretudo em Angola mas também em Portugal

Tchizé dos Santos garante que José Eduardo dos Santos não se sentia seguro em Angola. Mais: suspeita que o pai foi assassinado por não apoiar João Lourenço nas eleições que se realizam em agosto. Agora, teme por si própria: "Eu corro perigo de vida."

Quase sem respirar entre declarações, esclarecimentos e desmentidos, a filha de José Eduardo dos Santos e Maria Luísa Abrantes confirma que apresentou sozinha a queixa por tentativa de homicídio do pai. "Eu contei com o apoio de alguns irmãos e um deles deu o seu testemunho, mas na hora da assinatura da queixa recomendaram que eu a fizesse sozinha. Eu não sei mentir, assumo que fiz a queixa formalmente sozinha", afirmou com alguma indignação pela atitude dos irmãos. "A saúde e a vida do meu pai eram da responsabilidade de qualquer um deles como da minha." 

"O meu pai morreu por não ter apoiado João Lourenço"

A entrevista a Tchizé dos Santos foi repleta de frases violentas e explosivas. Reafirmou que pediu uma investigação por tentativa de homicídio - omissão do dever de assistência, lesões por negligência grave e divulgação de segredos por pessoas próximas ao pai - porque "uma das afirmações que consta nos autos é que o meu pai ficou 16 horas sem comer". Mas Tchizé foi mais longe: "Foi-me negada a possibilidade de pôr um enfermeiro a tempo inteiro na casa do meu pai" pelo médico particular João Afonso, que a empresária e política angolana tem acusado sucessivamente de ser um dos cabecilhas do alegado plano de João Lourenço para matar José Eduardo dos Santos.  

"O que eu quero investigar, ou que pedi que se investigasse, é que de facto foi deteriorada a saúde do meu pai como consequência de ações das pessoas denunciadas e não por envenenamento." As pessoas denunciadas ou acusadas por Tchizé dos Santos são o atual presidente de Angola, João Lourenço, a mulher de José Eduardo dos Santos, Ana Paula dos Santos, e o médico particular João Afonso. 

A empresária sempre alegou convictamente que a morte do pai foi premeditada. Que havia um plano liderado pelo atual presidente angolano - que acusou de ser "corrupto", "criminoso" e "ditador". "Eu acho que o meu pai morreu por não ter apoiado João Lourenço" nas eleições que se realizam a 24 de agosto em Angola. 

As acusações continuaram. "É curioso que os jornalistas tenham acesso a mais informação do que eu. É muito curioso que o João Lourenço tenha ficado a saber do falecimento do meu pai e tenha anunciado primeiro do que eu. Eu fiquei a saber pelo senhor Lourenço do falecimento do meu pai."

Isabel dos Santos, "a grande traidora"?

Entre as várias dúvidas e mistérios à volta deste processo, um deles é o que vai acontecer ao corpo de José Eduardo dos Santos. Questionada sobre se vai participar em cerimónias fúnebres em Angola - caso o tribunal decida que o corpo vai ser transladado -, Tchizé foi perentória.

"Eu não irei pôr o pé em nenhuma instituição angola, nem sequer um consulado, nem sequer um carro de matrícula diplomática angolana, enquanto o João Lourenço for presidente. Eu corro perigo de vida em qualquer sítio onde ele tenha controlo." E se os irmãos forem? Os filhos de Ana Paula dos Santos até podem ir, admitiu. Mas e se Isabel dos Santos for? "De certeza absoluta que não vai, a menos que cometa o grande erro de chegar a algum tipo de acordo. Se ela for, vai ser vista como uma grande traidora."   

Tchizé dos Santos garantiu que não vai "vender o corpo" do pai e que não se importa de esperar os anos que forem precisos até que João Lourenço saia do poder e, desta forma, possam ser realizadas as cerimónias fúnebres em Angola. Será esta uma atitude egoísta para com o povo que gostava de se despedir uma última vez? "O povo está a pedir que os filhos não entreguem o corpo. A maioria dos angolanos prefere esperar para viver este luto e este enterro sem João Lourenço."

"O Estado português também me deve e vai pagar uma indemnização"

Os ataques não se ficaram apenas por João Lourenço, Ana Paula dos Santos, João Afonso e até Isabel dos Santos. Tchizé acusou o governo de Angola de lhe dever uma "uma indemnização brutal" - e o Governo de Portugal também.

"O Estado português também me deve e vai pagar uma indemnização porque também tem estado a difamar através dos seus tribunais. Têm processos de inquérito abertos desde 2011, nunca encontrou nenhuma prova, nenhum indício, não me acusam e não fecham os inquéritos. Isso é um crime contra os direitos humanos e ainda por cima eu sou uma cidadã portuguesa, além de angolana, e é algo que eu vou levar à justiça europeia se for preciso e processar Portugal por violação de direitos humanos e discriminação."

Tchizé dos Santos disse mesmo que não sentia "segurança jurídica para estar em Portugal porque o Governo português já baixou as orelhas ao Governo de João Lourenço". "Espanha não é Portugal: em Portugal o presidente João Lourenço ameaça cortar relações diplomáticas e metem o rabo entre as pernas."

 

Tchizé dos Santos insistiu várias vezes que corria perigo de vida e que era perseguida pelas autoridades angolanas. Nunca esteve em casa do pai em Barcelona porque não confiava em ninguém, mesmo nos cozinheiros - "são todos subordinados".

27 frases que marcaram a entrevista

1. "Eu não fiz nenhuma acusação de envenenamento, eu pedi uma investigação de homicídio."

2. "Uma das afirmações que consta nos autos é que o meu pai ficou 16 horas sem comer."

3. "Foi-me negada a possibilidade de por um enfermeiro a tempo inteiro na casa do meu pai."

4. sobre a autopsia "É curioso que os jornalistas tenham acesso a mais informação do que eu, que interpus a ação. É muito curioso que o João Lourenço tenha ficado a saber do falecimento do meu pai e tenha anunciado primeiro do que eu."

5. "Eu fiquei a saber pelo senhor Lourenço do falecimento do meu pai. O que me chocou tremendamente."

6. "Nenhum médico conseguiu explicar como é que o meu pai conseguiu chegar de Angola com 30 quilos a menos. Filhos nunca foram informados que o pai estava a perder muito peso."

7. sobre a investigação à morte do pai "Eu contei com o apoio de alguns irmãos e um deles, inclusive, deu o seu testemunho, mas na hora da assinatura da queixa recomendaram que eu a fizesse sozinha."

8. "Eu não sei mentir, assumo que fiz a queixa formalmente sozinha."

9. "A saúde e a vida do meu pai eram da responsabilidade de qualquer um deles como da minha."

10. "Eu deixei muito claro que não negoceio com criminosos. O governo de Angola é criminoso, liderado por um criminoso. Que viola a separação de poderes e que viola a constituição de Angola."

11. "A Ana Paula dos Santos para mim é uma impostora, não é esposa de ninguém."

12. sobre se teve o apoio dos irmãos na recusa de enviar o corpo do pai para Angola "Eu não lhe vou dizer de que irmãos me dão apoio. Só lhe posso dizer que tenho apoio de alguns irmãos, que não são a minoria."

13. "Eu acho que isto foi tudo premeditado."

14. João Lourenço "até na morte alheia quer competir o protagonismo com o falecido."

15. "Se o meu pai estivesse feliz e se sentisse seguro em Angola, não passaria a maior parte do tempo na Europa."

16. "Eu acho que o meu pai morreu por não ter apoiado João Lourenço."

17. Sobre a realização de um funeral de Estado: "O meu pai deixou uma vontade expressa de não mais voltar a ser humilhado por João Lourenço e não mais voltaria a Angola."

18. "O meu pai mostrou-se extremamente arrependido de ir a Angola."

19. "O meu pai não queria ser enterrado por João Lourenço."

19. "O presidente de Angola é um ditador corrupto. (…) Eu não vou vender o corpo do meu pai para lado nenhum."

20. questionada sobre se irá ao funeral se a decisão do tribunal obrigar o corpo a seguir para Angola "Eu não irei pôr o pé em nenhuma instituição de Angola enquanto o João Lourenço for presidente de Angola. (…) Eu corro perigo de vida em qualquer sítio onde ele tenha controlo."

21. "Sou cidadã portuguesa e não sinto segurança jurídica para estar em Portugal, porque o Governo português já baixou as orelhas ao governo de João Lourenço."

22. sobre o medo de estar em casa do pai "Eu não estou em Barcelona, estou em Espanha, perto da residência. (…) Eu temia por estar nas mãos de pessoas que são subordinados diretos de alguém que persegue."

23. sobre se Isabel dos Santos vai ao funeral "Olhe, eu não sei, de certeza absoluta que não, a menos que cometa o grande erro de chegar a algum tipo de acordo. (…) Se ela for, vai ser vista como uma grande traidora."

24. questionada sobre se tem receio de estar a ter uma atitude mais egoísta por não permitir que o povo se possa despedir de José Eduardo dos Santos "O povo angolano está a pedir que os filhos não entreguem o corpo. O povo de Angola está a sentir-se humilhado."

25. questionada sobre se João Lourenço ganhar as eleições, o que fará ao corpo do seu pai "Eu posso esperar."

26. questionada se foi beneficiada "Neste momento, o governo de Angola deve-me uma indemnização brutal. Tudo o que eu fiz em Angola foi proveitoso e beneficiou o Estado."

27. "O Estado português também me deve uma indemnização e vai pagar uma indemnização porque também tem estado a difamar através dos seus tribunais."

Relacionados

África

Mais África

Patrocinados