Da exigência física na Serie A à estabilidade em França, que só as lesões ameaçaram, da praxe na Seleção à surpresa pelo nível que encontrou na II Liga, Pedro Mendes faz uma análise freudiana à carreira. E deixa conselhos aos craques do futuro – PARTE III
Ao longo da carreira, Pedro Mendes viveu os melhores anos na Serie A e na Ligue 1, sobretudo no Montpellier, onde estabilizou e chegou à Seleção.
Depois vieram as lesões, e com elas a dificuldade em lidar com a frustração, o que o levou a procurar ajuda psicológica e a passar a ver a vida de uma outra forma.
Reencontrou a esperança quando voltou a Portugal, para jogar no Estrela da Amadora. Ainda deu um salto à Geórgia para ganhar uma Taça e uma Supertaça pelo Dila, onde conheceu Ricardo Costa, que o convenceu a mudar-se, em janeiro, para o Feirense, da II Liga.
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Jogou em Portugal, Itália, Espanha e França. Qual destes campeonatos foi o mais exigente?
O italiano. É assim, eu não me cheguei a estrear na LaLiga, só joguei na II Divisão B - o que representaria agora a Liga 3 - onde já havia muita qualidade técnica, intensidade, tudo com bola. Mas no campeonato italiano apanhei jogadores com muita matreirice, mais batidos, com mais experiência. Sabem colocar o corpo para não te deixarem antecipar, bloqueiam-te, jogam muito com os braços. A nível físico é de uma exigência tremenda. Não sei como fazem a preparação da época agora, mas quando lá cheguei não vimos a bola na primeira semana. Eram treinos bidiários, algumas vezes tridiários, algo em que já não se acredita muito hoje em dia. Às 08h00 íamos correr, às 11h00 íamos para a praia, dormíamos uma sesta depois do almoço e à tarde fazíamos trabalho mais preventivo. Isto tudo durante uma semana. Na segunda semana já eram bidiários, ginásio e campo, misturado com trabalho aeróbico. Depois ia-se adaptando conforme a temporada se ia desenrolando, mas a exigência era sempre máxima e isso fez-me bem. Tudo o que apanhei a seguir na carreira não chegava a esse linear, estava bem preparado para o que viesse. Achava fácil todo o trabalho físico que fazia porque já tinha passado por uma coisa bastante exigente.
Mas não foi só pelo fator físico. Também nos jogos, foi dos campeonatos mais difíceis. Apanhei jogadores como Mertens, Zapata, Higuaín, Llorente, Tévez, Giovinco, Pogba, Pirlo… Apanhei uma das melhores Juventus de sempre e pontas de lança de outro nível como Balotelli ou Totti. Eram jogadores que tinham uma qualidade acima da média, de classe mundial.
Chegou a trocar camisola com alguns deles?
Com o Kaká, quando estava no Milan, porque tinha coincidido com ele no Real Madrid. Com o Balotelli troquei em França, quando ele estava no Nice. Com o Higuaín também, porque se lembrava de mim [dos tempos do Real Madrid], o Morata, porque coincidimos na equipa B do Real Madrid, o Tévez… Também com o Bruno Fernandes, o nosso amigo Bruno Fernandes, quando estava na Udinese.
Isso já foi há uma vida atrás…
Já, já. Noutro dia estava na arrecadação a ver as camisolas que tinha trocado e mandei-lhe uma mensagem com a fotografia dessa camisola. Foi engraçado. Nem sei se ele tem a minha, deve estar perdida, ele deve ter tantas [risos].
E em que clube se sentiu mais jogador?
No Montpellier. Foi onde atingi o auge na minha carreira. Houve até um ano em que fiz parte do lote de defesas-centrais eleitos para o Onze do Ano da Liga francesa. Era difícil ganhar quando tens Marquinhos e Thiago Silva à tua frente, o Dante no Nice… Mas fazer parte desse lote foi mais um sonho concretizado. Foi aí que também consegui chegar à Seleção Nacional e onde me estabilizei. Ao longo da minha carreira, até então saltava de clube de dois em dois anos. No Parma, assinei por cinco anos, mas por questões financeiras o clube desceu à quarta divisão e acabei por sair livre.
Onde me afirmei foi no Montpellier, mas não quero desvalorizar o Parma. Lá também sentia isso, porque estava a jogar contra craques, avançados que via na televisão e dizia «quem me dera poder jogar contra eles». Mas era sempre muito intermitente. Jogava dois jogos, ia para o banco. Depois diziam que eu era muito jovem e tinha muito para aprender, mas eu não percebia isso. Depois de um jogo contra a Juventus, um dos melhores que fiz, passei uns dois meses no banco sem nenhuma justificação, até que um treinador-adjunto veio falar comigo para me explicar que ainda tinha muito que aprender. E eu disse-lhe: «Não percebo. Se joguei bem contra a Juventus, porque é que não posso jogar bem com o Cagliari ou o Hellas Verona?» Ele disse-me que era muito jovem, que tinha muitos anos pela frente, que ainda tinha de amadurecer. Hoje em dia já não se tem essa mentalidade. Hoje, se um miúdo está bem, dá-se continuidade. Sentia que tinha possibilidades para jogar mais e foi por isso que pedi para ser emprestado ao Sassuolo.
O clube que mais tempo representou foi o Montpellier, mas pouco jogou nos últimos dois anos que lá passou devido às lesões. Como se supera isso aos 30 anos?
Se soubesse o que sei hoje, teria visto a lesão de outra forma. Sou muito meticuloso e exigente, também para comigo próprio. Isso pode ser bom, mas também mau. Dava tanta ênfase à lesão, ao querer estar bem, àquela frase clichê que não me saía da cabeça do “quando voltares, vais voltar melhor”, que achava que ia ser assim e não reajustei a expetativa à realidade. Até porque também não tive esse acompanhamento e acho que me faltou alguém que me dissesse “quando voltares, não vais voltar assim tão bem, vai ter de ser com calma, tens de falar quando sentires qualquer dor”. Ia sentido dores, aqui e acolá, e desvalorizava porque me diziam que era normal. Aceitava essas dores como uma coisa normal do processo [de recuperação], mas a verdade é que elas me estavam a fazer pior. Como não tinha conhecimento do que era, ia para o campo com essas dores, e elas tornavam-se cada vez mais limitantes em todos os sentidos. Até que cheguei a um ponto em que não me sentia bem com as figuras que estava a fazer, não me sentia o Pedro de antigamente. Então, comecei a questionar. Eu apontava tudo. Nos exercícios de força, apontava quantos quilos fazia. Devia ter levado aquilo com maior leveza porque durante uma recuperação sobes, desces um bocadinho, depois estagnas. Achava que era tudo uma curva ascendente e foi isso que me levou a ir cedo demais para o campo.
Na altura, também não teve o melhor acompanhamento por parte do clube.
Já falei sobre isso e não o deveria ter feito. Na altura, isso prejudicou-me imenso. Achava que me estava a libertar do que tinha vivido, mas aquilo não me beneficiou em nada. O que foi dito, foi dito. Deixo também um aviso para os jogadores: nem sempre existe liberdade de expressão para os jogadores. Se dizes o que pensas podes sofrer com as consequências. As pessoas querem atletas reais, que falem o que pensam, mas não o podemos fazer porque podemos vir a ser prejudicados por isso. Isto aprendi há três anos, teria 32 anos. Aprendi que não podes dizer tudo o que sentes. O que seria um jogador numa flash interview dizer “acho que devíamos ter jogado em 4-3-3, os médios mais por dentro, a sair por fora”. Estaria a colocar em questão as decisões do treinador. Mas também temos direito à nossa opinião. É um “pau de dois bicos”. Ou os jogadores têm esse à-vontade de dar a sua opinião e não sofrerem consequências por isso, ou então somos robotizados e dizemos clichês. Não estou a criticar, até porque se vou querer ser treinador, também tenho de me colocar do outro lado e pensar “este jogador está a criticar as minhas escolhas, isso não é muito bom”. Também faço a minha mea culpa, mas tem de ser encontrar um meio-termo em que os jogadores possam falar e não serem punidos por isso. É uma zona cinzenta, nunca se sabe até onde se pode ir.
Durante a recuperação das lesões que sofreu em Montpellier, procurou ajuda psicológica.
Na altura via o futebol e a vida como preto ou branco, não havia o cinzento. Comecei a ver as coisas de forma diferente. Via tudo muito macro. Queria, até ao final da época, fazer 15 jogos, mas a Nádia Tavares [mental coach e psicóloga do desporto] dizia-me: «Pedro, não podes controlar se vais ou não jogar. Tens de te focar mais em coisas micro. Se ainda não conseguires fazer uma semana completa de treino, tenta treinar bem três vezes. Depois quatro. Depois uma semana completa. E depois fazer um mês completo sem dores. Tenta ver o micro, não o macro». Ainda hoje faço isso. Não vale a pena estarmos a fazer planos porque há sempre imprevistos e, depois, é mais difícil reajustar as expetativas. Quero fazer isto, mas e se não corre dessa forma? Tens estofo psicológico para aguentar a desilusão e a frustração? Quando me deram alta, vivia frustrado porque não conseguia render o que me tinham “prometido”, que era voltar mais forte. Não estava mais forte e comecei a perder a esperança, até que lá voltei a encontrar a felicidade no Estrela da Amadora.
A conversa rumou cedo para Montpellier, mas ainda antes da ida para Parma, sentiu-se afastado pelo Sporting?
Não me senti afastado. Continuei a jogar, era jogador da equipa B e fui à equipa principal para ajudar. Foi uma das piores alturas do Sporting, na transição de Godinho Lopes para Bruno de Carvalho [na presidência]. Havia muita instabilidade no clube, foi um processo complicado. A situação foi o que foi. Cheguei a janeiro e estava livre. Decidi optar pela estabilidade. Na altura, quem estava a comandar não me tinha proposto nada. Depois as pessoas, através da imprensa, leram o que foi transmitido para fora, mas internamente sabiam que em janeiro me tornaria num jogador livre e não me tinham apresentado uma proposta para ficar. Por mais que quisesse ficar, entre ter o Parma ou não ter nada, e sem saber quem era o treinador ou o presidente [do Sporting], decidi agarrar-me ao que tinha de concreto. Agora, se eu preferia ter ficado no Sporting? Como é evidente, mas era só eu a querer. Não havia nada de concreto, só me diziam para esperar. Depois dessa situação, voltei à equipa B do Sporting, mas nunca fui desrespeitado nem maltratado. Nessa altura estava o doutor Varandas, que hoje é o presidente. Quando o vi no Estrela da Amadora-Sporting [da época passada], falámos. Também com o João Reis, que era o roupeiro da equipa B e está agora na equipa principal, tal como com o Alex, que era o fisioterapeuta. Guardo boa relação com as pessoas com quem trabalhei na altura. Quem me dera a mim, nessa altura, ter apanhado a atual administração.
Voltou a Portugal na época passada para jogar no Estrela da Amadora. É um clube que se está a especializar em manutenções dramáticas.
É verdade. Gostava que se pudesse impor de uma forma mais sólida durante o campeonato e que não tivesse de sofrer tanto até à última jornada. Gostei muito de ter estado no Estrela da Amadora. As pessoas da Amadora vivem o clube, são adeptas e gostam dele. E o clube tem mística, tem história. Foi um dos melhores grupos de trabalho que apanhei, um dos mais divertidos. Infelizmente, os resultados não transcreviam o bom ambiente que se vivia.
Festejou a manutenção desta época, que foi ainda mais heroica do que a anterior?
Sim, fiquei contente por eles, apesar de neste momento o único jogador que coincidiu comigo no Estrela ser o Rodrigo Pinho. De resto, saiu tudo. Mas continuam as pessoas que lá trabalham, o roupeiro, os fisioterapeutas. Guardo um carinho especial por elas.
Depois foi para a Geórgia, onde ganhou a Taça e a Supertaça. Que futebol encontrou lá?
É um futebol mais parado, com um ou outro jogador com alguma qualidade técnica individual. Eles são muito fervorosos e intensos na maneira como disputam os lances. Lá veem futebol ou UFC ou boxe, gostam muito desses desportos de contacto, e nos duelos durante os jogos são muito impetuosos. Mas, depois, falta um bocadinho de intensidade, ritmo, velocidade, comparativamente com onde já estive. Mas não desgostei. O grande senão foi estar longe da família. Eram mais quatro horas [do que em Portugal], as viagens eram de sete horas com uma escala de três no meio. Só podia estar com a minha família nas paragens internacionais, dois ou três dias no máximo antes de voltar. Mas foi positivo porque o Dila não disputava o título de campeão há muitos anos e fizemo-lo até à última jornada. Também não ganhava a Taça e a Supertaça há alguns anos, eram sempre os mesmos. A verdade é que lutei pelos três títulos e saí de lá com dois.
No Dila conheceu Ricardo Costa. Foi por ele que se mudou para o Feirense, em janeiro?
Sim. O trabalho correu muito bem no Dila. Ele deixou o clube a meio, porque teve a oportunidade de trabalhar perto de casa, junto da sua família, num campeonato melhor. Como também correu bem entre nós os dois, ele sabia o que podia esperar de mim. Devido à infelicidade de um colega, o Edgar Ié, que se lesionou num joelho, abriu uma vaga para poder integrar o Feirense. Como o meu trabalho ficou terminado na Geórgia, porque lá o campeonato acaba em dezembro, fui colmatar essa ausência do Ié. Juntei o útil ao agradável, no sentido em que já tinha trabalhado com o Ricardo e voltei a Portugal. Se antes estava a sete horas de casa, passei a ficar a duas horas e meia de carro.
O que é que encontrou na II Liga?
Surpreendeu-me o nível da II Liga. Em relação ao tempo em que joguei na equipa B do Sporting, está muito diferente. Há mais noção do técnico-tático, da estratégia, está muito equilibrado. Este ano, a decisão para os play-off de manutenção e de subida foi até à última jornada. Na minha altura, havia uma discrepância grande entre os jogadores das equipas B e os das outras equipas, mas agora está tudo muito mais profissionalizado. Os jogadores têm mais consciência do que querem, de terem de cuidar do corpo, e isso é bom. Só enriquece o nosso futebol e a II Liga.
O Feirense era uma dessas boas equipas?
Sim, até porque era a segunda ou a terceira equipa com o budget [orçamento] mais baixo da II Liga e terminou no 9.º lugar. Foi um feito muito bom. Tenho quase a certeza de que o objetivo, no início da época, era a manutenção, e se lhes dissessem que iam acabar no top-10, se calhar, não acreditavam. Quando tens um bom grupo, um bom balneário, consegues suprir essas carências.
Acima de tudo isto estará a estreia pela Seleção Nacional. O que é lhe vem à cabeça quando recorda esses momentos?
É o que mais almejamos na vida, o reconhecimento do nosso trabalho. Quando digo que meti uma cruz em todos os sonhos, esse foi mais um. E se tivesse de escrever um sonho em caps lock [letras maiúsculas] seria chegar à Seleção Nacional. Consegui-o, fruto do meu trabalho e dos meus colegas no clube. Não tenho palavras. Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo, mas também com aquele sabor amargo de ter sido uma internacionalização. Quem me deram que fossem 15. E se chegasse às 15, quem me dera que tivessem sido 50, e por aí fora. Mas também tenho de olhar para trás e dizer: não deu para o se quer, deu para uma. Só tenho de agradecer. A minha carreira foi o que foi, e este ainda não é um ponto final. Dou graças a Deus por tudo o que consegui alcançar. Se calhar, se me tivesse convertido mais cedo, talvez pudesse ter tido uma recuperação da lesão mais tranquila, mais calma, e atingido outros patamares acima. Não sei, não consigo fazer futurologia, mas olhando para trás digo: a minha carreira foi boa? Sim. Podia ter sido melhor? Também podia. Mas há jogadores que também desejariam ter tido a carreira que eu tive. Podia ter chegado a outro nível, mas não desmerecendo o que fiz.
Foi praxado na Seleção?
Fui, e ninguém se livra disso. Não posso entrar em detalhes, mas na altura aproveitei uma frase do mister Fernando Santos, dita numa das palestras, e cantei uma música relacionada com ela. Correu bem. Quando corre mal, o pessoal apercebe-se porque eles levantam os guardanapos brancos, começam a vaiar e atiram-te os guardanapos para saíres dali. Mas eu fui aplaudido, é porque correu bem.
