"Nada disto é da geoengenharia." Este professor e geofísico desmonta as teorias da conspiração sobre aviões, antenas e governos a fabricar calor, tempestades e incêndios

11 jul, 08:00
Miguel Miranda,  geofísico, professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e antigo presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera
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ENTREVISTA || Nos dias de calor extremo, o termómetro mede mais do que só a temperatura: mede também a facilidade com que a ciência é trocada, por vezes, por suspeita. Miguel Miranda, professor catedrático jubilado e antigo presidente do IPMA, leva a física ao lugar onde a internet costuma instalar a conspiração e desmonta, uma a uma, as fantasias sobre “rastos químicos”, sementeira de nuvens, ionosfera, radares e máquinas capazes de comandar a atmosfera à distância. E deixa uma frase que devolve a escala ao sítio certo: “Ainda é o planeta que manda em nós, e não nós no planeta”

Antes de se discutir a conspiração, convém começar pelo tamanho das coisas.

Uma onda de calor não cabe numa antena, num radar, num rasto de avião ou numa sala secreta onde alguém carregue num botão. Cabe na atmosfera, no oceano, na circulação do ar, no solo que seca. Nos dados que se acumulam e nos limites físicos daquilo que os humanos conseguem manipular. Miguel Miranda, professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, antigo presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e geofísico, responde à suspeita com uma evidência quase doméstica: “Quem quiser testar o aumento da temperatura vai comprar um termómetro”.

A entrevista parte desse barulho que acompanha os dias mais quentes. Há quem veja no céu uma operação química, quem olhe para a sementeira de nuvens e imagine tempestades feitas por encomenda, quem transforme a ionosfera num telecomando climático. Miguel Miranda responde com física, mas não apenas com física. Responde com a paciência de quem sabe que a ciência tem dúvidas, métodos e prudência, e com a impaciência de quem percebe que nem toda a suspeita é uma pergunta honesta. “Os meteorologistas cumprem regras, não inventam coisas.”

O negacionismo também mudou de forma. Primeiro dizia que o clima não estava a mudar. Agora, muitas vezes, aceita que muda — mas atribui a mudança a uma mão escondida. A versão antiga tinha uma vantagem: podia ser confrontada com o risco. “Ponham o vosso dinheiro nisso. Apostem contra. Invistam como se isso não fosse acontecer”. Ninguém queria apostar.

O geofísico não faz da conversa um sermão de sentido único. Critica o negacionismo climático, mas lembra que a ciência não vive de slogans: vive de prudência, de limites e de método. A fronteira passa pelo “chamado bom senso” e por uma diferença concreta: há quem tenha de adaptar culturas, gerir água, prevenir fogos e tomar decisões; e há quem descubra a verdade escondida do clima sentado no sofá, entre o supermercado e a torneira.

É quando a conversa chega aos incêndios que o clima deixa de ser apenas temperatura. Um fogo pode começar por crime, negligência ou acidente, mas o desastre começa quando encontra seca, calor, vento, mato e território abandonado — e quando encontra, também, as condições que as alterações climáticas agravam. A ignição explica o início, não explica fogos capazes de avançar dezenas de quilómetros. Para isso, é preciso sair da pergunta sobre quem acendeu o fósforo e olhar para o país que o deixou arder. “O diabo existe e está muitas vezes à nossa mesa.”

No fundo, esta é uma entrevista contra a fantasia e contra o descanso. Contra a fantasia de que há uma mão escondida a fabricar o calor. Contra o descanso de achar que, desmontada a conspiração, o problema desaparece. Não desaparece. Está no aquecimento, na aridez, nas noites tropicais, nos incêndios, na vida que começa a recolher-se para a “campânula de vidro” do ar condicionado.

A conspiração talvez seja mais fácil de suportar. O real é que dá trabalho.

Entre mapas meteorológicos e termómetros em alerta, Miguel Miranda ajuda a separar o clima do ruído — e a ciência das conspirações. Foto: José Sena Goulão/Lusa

Professor, nos dias de calor extremo há uma "segunda onda" que chega quase ao mesmo tempo: a das teorias sobre aviões, antenas, governos secretos e “geoengenharia”. Porque é que fenómenos tão estudados pela ciência acabam tantas vezes transformados em conspiração?

Existem várias razões que conduzem a isso, não apenas uma. A primeira tem a ver com a dificuldade que muitas vezes todos temos em assumir que há problemas que não conseguimos resolver — e, em particular, resolver facilmente. A questão do aquecimento da atmosfera é um problema que tem uma solução francamente difícil.

Muitas vezes, a primeira reação é dizer: “Isto não será assim tão verdade” ou “é um exagero”. A segunda razão é que, do lado do problema da mudança climática, existem várias comunidades. Existe uma comunidade, na qual eu me integro, que é a das pessoas que estudam os fenómenos, tentam percebê-los e quantificá-los na medida do possível.

E, como todas as pessoas que fazem isso, somos bastante prudentes nas afirmações que fazemos, chamando sempre a atenção para os limites de todos os métodos de previsão. Depois existe outra comunidade que transformou isto num problema político, extremado de acordo com os interesses de cada grupo. Vai desde os negacionistas, que não querem pensar no assunto e preferem pôr a cabeça debaixo da areia, até aos histéricos que acham que se resolve o problema da mudança do clima atirando tinta verde para cima de um local qualquer.

Ora, o que é verdade é que nós não vamos conseguir adaptar-nos nem mitigar os problemas da mudança do clima sem envolver quem é diretamente afetado e quem tem soluções para pôr em prática. Há, portanto, duas dimensões: quem vive o problema no terreno e quem pode ajudar a resolvê-lo.

Eu sempre achei que uma das comunidades que em Portugal mais tinha compreendido a mudança do clima, às vezes até antes de muitos investigadores, foi a comunidade agrícola. Porque, na agricultura, o que é que isto quer dizer no dia a dia? Ter de mudar a forma de cultivar os campos. Ver, por exemplo, que faltavam horas de frio durante a noite para os frutos; ter de arranjar estratégias alternativas; aumentar a rega; etc.

Hoje em dia, e os últimos dez anos tiveram uma evolução que eu diria estratosférica, a tecnologia está presente em praticamente todos os atos da agricultura moderna. É deste padrão que se vive: tentando sempre, em vez de atacar o problema, andar à volta dele. Mas isso é no clima e também nos fogos, em todas as situações extremas.

Há uma diferença entre desconfiar, fazer perguntas e pedir provas — que é saudável e científico — e entrar numa teoria construída para nunca aceitar resposta nenhuma. Onde é que traça essa fronteira?

Eu diria que a fronteira está no chamado bom senso. Mas existem dois tipos de pessoas: as pessoas que têm de resolver problemas e as pessoas que não têm de resolver problemas.

Imagine que tem uma fábrica de automóveis a combustão. Pode ser de esquerda, do centro ou de direita — já tivemos governantes das três áreas com ligações ao setor automóvel —, mas sabe perfeitamente que isso não vai para o futuro, vai para o passado. E, portanto, tem de se mover para a frente.

Imagine que tem um campo de agricultura de sequeiro, não regada. Já sabe que isso não se vai manter, porque tem visto que nos últimos anos o estio mais intenso não permite que algumas culturas continuem a ser realistas. E, se estivermos a falar do sobro, por exemplo, que tem aquelas densidades muito baixas e exige muitos hectares para alimentar uma família, o problema é evidente.

Depois existem as pessoas que podem viver apenas de ir buscar comida ao supermercado e água à torneira. E aí tem os dois lados: os ativistas extremos, que acham que acorrentar-se a uma porta resolve o problema, e os negacionistas extremos, que acham que, se negarem muitas vezes, isso se torna verdade.

Nós podemos ter todas as discussões sobre a origem do aumento da temperatura. Hoje em dia, não há muitas, francamente. Mas quem quiser testar o aumento da temperatura vai comprar um termómetro.

Numa entrevista recente ao professor Filipe Duarte Santos, recebi muitas reações com a palavra “geoengenharia”. A palavra passou a ser usada para explicar quase tudo: ondas de calor, tempestades, incêndios, terramotos. Mas, no vocabulário científico, geoengenharia quer dizer outra coisa. O que significa, de facto?

A palavra geoengenharia foi essencialmente cunhada para tentar descrever todas as propostas de intervenção na atmosfera destinadas a resolver, por essa via, o aquecimento da superfície.

A base é clara: os aerossóis têm um papel muito importante no equilíbrio radiativo. Basta pensar que, sempre que há um grande vulcão — o Pinatubo é o exemplo mais famoso —, temos dois ou três anos em que a temperatura baixa um pouco.

A questão colocou-se de forma simples: se calhar, se injetarmos aerossóis na atmosfera — de preferência aerossóis que não sejam particularmente contaminantes e que não possam ser considerados propriamente poluição —, talvez consigamos reduzir um pouco a temperatura. Repare: há aerossóis na atmosfera, como o cloreto de sódio, o sal, que vem das ondas, e isso não é propriamente um grande problema.

Nós não precisaríamos de reduzir muito. Em vez de aumentarmos um grau e meio, não é? A questão é que esse grau e meio é uma média. Para certas situações e certos locais, é mais do que um grau e meio. Foi daí que apareceu a geoengenharia.

E como é que uma hipótese técnica passa a alimentar uma teoria conspirativa?

Depois apareceram ideias sem base científica, que têm a ver com as chemtrails [“rastos químicos”, teoria conspirativa segundo a qual os aviões libertariam substâncias na atmosfera]. Também aparecem muito citadas. Os aviões deixam rastos, e esses rastos têm normalmente a ver com partículas, em particular de gelo, que são libertadas pelos aviões. Isso é normal, porque à altitude a que os aviões voam a temperatura da atmosfera é muito negativa.

Quando voamos daqui para Paris, para dar um exemplo barato — podia dar um exemplo mais caro —, a temperatura típica será de 60 graus negativos. Isso significa que, se for libertado vapor de água nessa altitude, aquilo cristaliza imediatamente sob a forma de gelo. E temos aqueles riscos, aquilo que nas aulas de meteorologia o professor Peixoto chamava "mistura isentálpica com condensação".

Isso começou a ser interpretado como químicos que se estariam a pôr na atmosfera para prejudicar isto ou aquilo. Era bom que nós fôssemos capazes de, com tão pouca intervenção, ter muito resultado. Mas não somos.

Aliás, a geoengenharia tornou-se pouco popular devido aos receios de que pudesse ter mais efeitos contraditórios do que benéficos. Não está completamente posta de parte; nós não sabemos para onde vamos. Mas, neste momento, não é uma atitude minimamente sensata.

O calor extremo já não é apenas meteorologia: é saúde pública, desigualdade e uma vida cada vez mais empurrada para a “campânula de vidro” do ar condicionado. Foto: Kai Foersterling/EPA

Quando alguém diz que uma onda de calor como esta foi “fabricada” — e uso a palavra entre aspas —, qual é a primeira impossibilidade física que lhe ocorre?

Os valores de energia que estão em causa nos processos geofísicos são de uma ordem de grandeza que se mede por milhares de bombas atómicas. Não estamos a falar de coisas que envolvam energias muito fracas.

Pense, por exemplo, na AMOC [Circulação Meridional de Retorno do Atlântico], a corrente do Atlântico que transporta calor de sul para norte e cuja flutuação é discutida com frequência. Corresponde a um transporte de energia completamente fora daquilo que os humanos são capazes de produzir. Estamos a falar de 10 elevado a 15. Portanto, valores muito elevados, que não estão ao nosso alcance.

Nós não temos essa capacidade de intervenção. Não sei se felizmente ou infelizmente, porque o futuro é que pertence a Deus; o passado é que pertence ao diabo. Mas, na verdade, se fosse possível, se calhar já estariam a fazer experiências. Não parece que esteja nessa capacidade.

Há também um efeito estatístico: se o nível de base sobe, os extremos tornam-se mais frequentes?

Há outra coisa que também tem de ser considerada. Estamos a falar de uma mudança de temperatura média da ordem de um grau, entre um e dois graus. Claro que, se continuarmos a definir as ondas de calor da mesma maneira que antigamente, vamos ter mais ondas de calor, nem que seja porque subimos um bocadinho o chão, o nível de base.

Mas, mais uma vez, vamos tocar naquele teto: ser mais cinco graus do que a temperatura máxima do período de referência. Portanto, não sei se, no futuro, haverá na comunidade da meteorologia uma certa redefinição para termos só as situações mais extremas.

Tenho uma leitura muito pessoal: a última onda de calor, por exemplo, foi classificada pelo IPMA de acordo com as suas regras — porque os meteorologistas cumprem regras, não inventam coisas — como onda de calor e como alerta vermelho. Mas não foi tão dramática como outras situações, em termos de máximos absolutos em muitas estações meteorológicas. Não quer dizer que não tenha sido grave.

A minha preocupação é mais preparar-nos para um futuro que sei que vai ser pior. E temos de ter uma escala para esse futuro, por muito estranho que isso possa parecer. Não podemos viver em vermelho todos os dias, porque isso também deixa de ter informação útil para os decisores.

Uma das confusões mais frequentes tem que ver com a sementeira de nuvens. Há países que tentam provocar chuva em certas condições, sobretudo os Emirados Árabes Unidos, que têm há décadas um programa de cloud seeding [sementeira de nuvens]. Daí, há quem conclua que também se podem criar tempestades ou alterar o clima. O que é que esta técnica permite fazer — e, sobretudo, o que é que não permite?

A técnica da sementeira baseia-se na ideia de que, se injetarmos na atmosfera pequenos núcleos à volta dos quais se podem condensar gotas de água, essa condensação acelera o processo de formação da chuva. Em algumas situações, isso é verdade.

Claro que não há almoços grátis. Causar chuva numa zona retira a água que chegaria à zona a seguir. Isso também é evidente.

De qualquer das maneiras, eu diria que a água, pelo menos para já e na nossa latitude — e mais uma vez lhe digo: o futuro a Deus pertence, vamos ver como isto evolui —, é essencialmente ainda um problema de gestão. É um problema de gestão da água.

A temperatura da Terra está a aumentar. O aumento de um grau e meio já aconteceu. Por cada grau que aumenta, diz a lei de Clausius-Clapeyron [relação física entre temperatura e capacidade da atmosfera para reter vapor de água], temos mais cerca de 7% de vapor de água na atmosfera. É por isso que, por exemplo, um dos grandes problemas atuais do oceano é o excesso de água doce que precipita. Não é a falta.

Pode acontecer que não seja no mesmo sítio, que seja noutro local; que não seja na mesma altura, que seja depois. Mas a água, para já, parece ser essencialmente um problema de gestão: como é que a armazenamos e como é que a redistribuímos.

Ainda sobre a sementeira de nuvens: quando não há nuvens com as condições certas, não há sequer nada para semear, certo?

Nós aqui, em princípio, não temos muito esse problema, porque ainda temos muito vento que vem do oceano. E o vento que vem do oceano transporta sempre vapor de água. É por isso que Portugal é muito mais verde e muito mais produtivo do ponto de vista biológico do que o centro de Espanha, como toda a gente sabe. Basta ir pela estrada de Madrid e ver que, quando se chega a Portugal, começa a haver uma produção vegetativa muito mais exuberante.

É por isso, aliás, que temos estas condições para os incêndios que estamos a observar nestes dias. Portanto, claro que, se tivéssemos uma atmosfera muito seca, isso não serviria para nada. Mas neste momento, à escala da Terra, não é esse o problema.

Está a distinguir falta de água de aridez?

O problema que temos é de aridez, e há uma certa confusão entre as duas coisas. A aridez é outra coisa: é quando temos excesso de evapotranspiração. As plantas emitem vapor de água, evapotranspiram, como se diz. Quando temos uma temperatura mais alta, as plantas têm maior evapotranspiração.

Isso significa que uma região pode ficar mais árida. Podemos transportar água para lá, mas, se ela for canalizada gota a gota, não tem impacto significativo na aridez; tem apenas na produtividade agrícola.

Do ponto de vista meramente teórico, ter energia do sol e ter água é uma receita fantástica para produzir produtos agrícolas. Não é uma coisa má. Só que a temperatura tem um limite a partir do qual não é possível o trabalho humano ao ar livre. Se continuarmos neste tipo de percurso muitos mais anos, vamos entrar, como digo, para dentro da campânula de vidro. Pode ser a nossa casa, pode ser o nosso emprego, mas teremos de sair da rua para entrar num espaço com ar condicionado. E isso vai confinar progressivamente a vida das pessoas.

E essa “campânula de vidro” também revela desigualdades sociais: entre quem a tem e quem não a tem.

Não tenho dúvidas nenhumas. É por isso que, do ponto de vista social, é fundamental que haja campânulas de vidro acessíveis a todas as pessoas em todos os locais do país onde haja pessoas a viver. Porque ninguém aguenta dias e noites seguidos acima dos 28 graus. Nós temos noites de 30 graus. É francamente difícil do ponto de vista da saúde.

Aliás, as autoridades de saúde, e a Direção-Geral da Saúde em particular, fizeram muito e fizeram muito bem muita intervenção neste momento sobre esse assunto. Mas é evidente que isto agora tem de ter como complemento a existência de locais para onde as pessoas se possam dirigir e que tenham água e arrefecimento.

Gostava de voltar às chemtrails, esses rastos brancos deixados pelos aviões. Há aqui uma dificuldade interessante: essa teoria não tem base científica — no sentido de haver substâncias a serem largadas na atmosfera para nos prejudicar —, mas a aviação comercial tem impacto climático real. Como é que se explica uma coisa sem parecer que se está a validar a outra?

A aviação comercial tem um impacto que é uma percentagem não muito grande, mas significativa, das emissões de dióxido de carbono. Tem um problema terrível: para já, não temos nenhuma alternativa viável do ponto de vista do impacto direto.

Todas as alternativas que existem são, por exemplo, produção de combustíveis com compensação de emissões. Já são problemas de segunda ordem, não de primeira ordem. E, por outro lado, a aviação está a aumentar tremendamente.

Claro que há o efeito do aquecimento e há o efeito do excesso de vapor de água que é libertado a altos níveis da atmosfera. Mas eu diria que o principal efeito ainda são as emissões de dióxido de carbono, devido ao facto de não termos alternativa aos combustíveis.

Os rastos brancos dos aviões são condensação em altitude. A conspiração chama-lhes “rastos químicos”, a física chama-lhes gelo. Foto: Michael Probst/Associated Press

O problema real da aviação está, portanto, menos na fantasia química e mais na falta de alternativas?

Mais uma vez, desculpe-me bater nos dois lados: quem faz grande ativismo à volta disto mais valia gastar o seu esforço a encontrar soluções para termos combustíveis renováveis de alta densidade energética. É o grande problema que temos neste momento.

Quem está na base negacionista e diz que aquilo não tem impacto também, mais uma vez, devia apoiar aquilo que tem de ser feito: aumentar muito o transporte ferroviário de alta velocidade baseado em eletricidade e perceber que os países que vão ganhar dentro de 20 anos são os que mudaram mais depressa.

E mudar mais depressa é fazer coisas, não é falar delas. Compare, por exemplo, a China com a Europa. Nós temos de fazer coisas. Não basta estar sempre com um discurso inflamado, que acaba por criar mais anticorpos sociais do que outra coisa qualquer.

Muitas destas teorias falam de radares, antenas e programas como o HAARP [High-frequency Active Auroral Research Program; em português, Programa de Investigação Auroral Ativa de Alta Frequência], uma instalação científica norte-americana que estuda a ionosfera, região eletricamente carregada da alta atmosfera. Falam disto como se houvesse máquinas capazes de comandar a atmosfera à distância. Um radar meteorológico observa a atmosfera ou tem alguma capacidade de a alterar?

Não, não. Os radares meteorológicos são radares para altitudes baixas. Estamos a falar de radares colocados na horizontal para observar essencialmente os primeiros dois ou três quilómetros da atmosfera. Penso que não é mais do que isso.

O que eles fazem é emitir radiações eletromagnéticas de alta frequência, que à partida não interferem sequer com as pessoas, tal como os smartphones da última geração. Usam a energia que é retroespalhada para eles para avaliar a velocidade vertical e horizontal das partículas que conseguem identificar.

Portanto, não há nenhum efeito sobre a ionosfera. Sobre a ionosfera poderíamos pensar que tínhamos capacidade de atuar, mas, mais uma vez, estamos a falar de energias em jogo que felizmente não estão ao nosso alcance.

É por essas energias não estarem ao nosso alcance que, por enquanto, ainda é o planeta que manda em nós, e não nós no planeta. Podemos ter muita filosofia e alguma tecnologia, mas ainda estamos longe de fazer a tal geoengenharia, que é muito discutida por duas razões erradas: por ser apresentada como solução e por ser apresentada como problema. Ela não é nem uma solução nem um problema. Para já, é uma ideia que ainda não teve materialização.

Uma coisa que se ouve muito — e que os jornalistas também ouvem — é a frase “sempre houve calor.” Nos incêndios, ouve-se outra versão do mesmo argumento: “Se foi fogo posto, então não tem nada a ver com alterações climáticas”. Mas uma coisa é a ignição; outra é a propagação. Como responde a este argumento?

Há duas situações diferentes aí. Muitas vezes, hoje em dia, na comunicação social, existe um nível tal de necessidade de transmissão de informação que temperaturas da ordem dos 30 e poucos graus, que na Alemanha são um problema social, aqui são uma situação à qual nós já nos acomodámos. Já mudámos a nossa forma de vida para estar de acordo com esse tipo de temperaturas.

E nessa altura começa-se a dizer que é uma temperatura brutal. Nós medimos a temperatura em Portugal desde 1853. Portanto, sabemos bem que temperaturas foram medidas e quais não foram.

Durante certa altura, nos anos 60 do século passado, havia alguma sobreposição entre o efeito daquilo que se chamava ilha de calor — o efeito da cidade e do alargamento da cidade — e o efeito do aquecimento externo. Por isso, muitas estações meteorológicas foram colocadas fora das cidades, para poder acompanhar essa evolução fora do desenvolvimento urbano.

Só que, neste momento, houve duas alterações significativas. Primeiro, os satélites começaram a medir diretamente. Medem de forma diferente: medem a radiação emitida e transformam a radiância em temperatura. Portanto, é uma medida completamente independente.

A segunda questão é que há tantas estações hoje em dia — amadoras, profissionais, de todo o tipo — que não há capacidade nenhuma de fazer uma grande aldrabice desse ponto de vista. Nem interesse nenhum nisso, porque qualquer onda de calor que exista é um problema.

O HAARP estuda a ionosfera. Nas teorias da conspiração, foi transformado numa espécie de telecomando climático. “Ainda é o planeta que manda em nós”, lembra Miguel Miranda. Foto: Loren Holmes/Associated Press

E quanto ao impacto do calor na saúde, há uma tendência para o desvalorizar?

Depois diz-se: “As mortes atribuídas às ondas de calor são exageradas, porque as pessoas morreriam de qualquer maneira”.

Isso, devo dizer, estatisticamente responde um pouco à verdade. O problema é quando é a nossa família, quando são as pessoas que conhecemos, porque obviamente não temos interesse em acelerar a partida de ninguém.

Os números são completamente indiscutíveis. Podemos controlá-los um pouco com refrigeração e temos de atuar onde é preciso, como falámos há pouco. Mas é evidente que períodos muito prolongados de calor, para pessoas que vivem isoladamente, são realmente um problema.

Agora, a primeira coisa que espero que a comunicação social também comece a fazer é deixar de pôr todas as soluções nas mãos do Estado. O Estado deve, o Estado isto, o Estado aquilo, é o ministro, é a ministra da Saúde que deve fazer isto. Não. Nós temos famílias, relações sociais, vizinhos. Todos temos de cuidar um pouco uns dos outros.

O problema das pessoas de idade avançada perderem a sensação de sede e não se hidratarem é um problema que tem muitas formas de solução que não passam propriamente por uma ambulância ou por um bombeiro. Temos todos de ser claros. Não podemos continuar numa situação em que, de cada vez que há um problema, queremos mais agentes de proteção civil, mais bombeiros profissionais, mais polícias nas esquinas. Temos de conseguir viver socialmente de uma forma que não precise de tantos recursos pagos pelos impostos das pessoas.

E sobre a ideia de que, se uma coisa é fogo posto, então não tem nada a ver com alterações climáticas? Há uma diferença entre a ignição e as condições de propagação, não há?

É verdade. Por exemplo, o número de ignições em Portugal tem decrescido significativamente. Há muito trabalho feito na última década. Não interessam agora os partidos, isso francamente não vem ao caso. Estou bastante longe desse problema. Todos fazem, penso eu, espero eu, o melhor que podem, tanto de um lado como do outro.

Mas a verdade é que o número de ignições tem diminuído. Tem havido muita pressão e as pessoas têm mais consciência das coisas. Mais do que isso: como as condições têm piorado, hoje em dia um pequeno fogo posto pode ganhar rapidamente uma proporção que antes não tinha.

Há uma correlação clara entre a meteorologia e o número de incêndios. Dizem-me: “Mas se não houvesse nenhum incêndio a começar...”. A isso dou duas respostas. A primeira é filosófica: o diabo existe e está muitas vezes à nossa mesa. A ideia de que podemos ter toda a gente com comportamento regulado... Só quando vier a nova geração de humanoides, de robôs humanoides bem programados, é que não haverá fogos postos.

Portanto, temos de pensar que existe essa margem de comportamento antissocial. A segunda questão é que, numa situação de área não urbana, organizada e gerida, mesmo que haja fogo posto, o impacto é local. Não tem impacto geral. Hoje temos incêndios que se propagam dezenas de quilómetros. E isso não deveria acontecer.

O negacionismo climático parece ter mudado de forma. Numa primeira fase, dizia apenas: “O clima não está a mudar”. Para um cientista, essa parte era mais simples: estavam lá os dados, as medições, os registos. Hoje, muitas vezes, já se diz: “Está a mudar, mas é porque alguém o está a manipular”. Esta nova versão é mais difícil de combater?

Na primeira fase era muito simples, não é? Para a maioria das pessoas, eu dizia: “Ponham o vosso dinheiro nisso. Apostem contra. Invistam como se isso não fosse acontecer”. E ninguém queria investir, obviamente.

Agora, nesta fase em que há muito a ideia de uma manipulação global, ou de uma cabala de uma sociedade secreta, eu até hoje não percebo quem é que ganha com isto. A menos que ganhem os bombeiros. Ou quem vende mangueiras e retardante. Ou as empresas que têm aviões no ar.

Quando se pergunta “quem ganha com isto”, a resposta conspirativa resiste aos factos?

Mas já pensaram bem? Essas pessoas ganham mesmo? Repare: nós temos cada vez mais dificuldade em ter bombeiros. Bombeiros voluntários então, segundo diz a Liga, são cada vez mais difíceis de obter. Portanto, mesmo que tivessem algum ganho aqui ou ali, não pode ser significativo.

Quem ganhou mais? As empresas que põem os aviões no ar? Hoje em dia é a Força Aérea que coordena em Portugal a decisão sobre os meios aéreos. Portanto, parece-me que daí não há margem para dizer que alguém ganha.

Depois dizem: “Ganham os madeireiros”. Mas hoje a madeira queimada provavelmente não é um negócio. Aliás, para retirar a madeira dos terrenos vai ter de se gastar muito dinheiro. Portanto, não há negócio aí.

A ideia de que havia madeireiros a fazer incêndios para depois vender às celuloses árvores meio queimadas é tão tola como a ideia das árvores bombeiras, que é outra ideia que sempre achei fantástica — como se as árvores mais densas, como os castanheiros e os carvalhos, não se incendiassem também. Infelizmente, incendeiam-se, e até a temperaturas muito altas.

Há também a ideia de que existe um negócio por trás disto tudo. Mas, quando se vai ver a estrutura de custos, hoje em dia o sistema de supressão é muito caro. Estamos a falar de centenas de milhões de euros — penso que 600 ou 700 milhões. Mas esse dinheiro é essencialmente para pagar a ação dos bombeiros, os meios que têm, o sistema de supressão aérea. O essencial são pessoas que estão a arriscar a vida, muitas vezes pelas melhores intenções.

Se a ideia é dizer que alguém está a ganhar com isto, francamente não percebo como é que se pode dizer isso numa altura em que o sistema é transparente e controlado. Quando há uma desgraça, há sempre o mesmo impulso de procurar quem ganha. Não é o tal diabo? Ele está muitas vezes presente à nossa mesa, mas pode ser um de nós.

Portugal e a Europa atingiram nas últimas semanas temperaturas extremas. Alguns cientistas dizem que esta onda de calor traz a impressão digital das alterações climáticas. O que quer isso dizer exatamente? Significa que este fenómeno não existiria antes? O que é a chamada atribuição?

A questão é: como podemos atribuir uma coisa a outro processo? É muito complexo. Porque, mesmo numa situação que em média fosse menos quente, também havia uma probabilidade não nula de acontecer um evento extremo. Temos eventos extremos nos anos 40, nos anos 30. Isso não é impossível.

A probabilidade de os acontecimentos ocorrerem é que é diferente. A estatística tem métodos matemáticos para estabelecer qual é a verosimilhança de um certo acontecimento. O que se pode dizer é que as temperaturas que se verificaram, por exemplo, à volta do Golfo da Biscaia — ou seja, a oeste de França, um pouco no norte de Espanha e no sul de Inglaterra — foram realmente anormalmente elevadas. Bateram todos os recordes de medições.

A probabilidade de esse acontecimento ter ocorrido há 50 ou 60 anos era tão mais baixa que temos uma boa capacidade de dizer que só foi possível porque a temperatura média subiu um grau e meio e, portanto, as energias envolvidas são maiores.

A atribuição fala de probabilidades, mas a prudência continua a ser importante?

Mas a Física é complicada. Dou-lhe um exemplo: estamos todos a olhar para o El Niño [fenómeno climático do Pacífico tropical com impacto global] e devo dizer que as notícias de hoje e de ontem sobre o El Niño não são nada boas. Hoje já se ultrapassou uma série histórica relevante do Centro Europeu de Previsão do Tempo. O que significa que lá para novembro ou dezembro podemos ter uma situação realmente extrema no Pacífico.

Um dos efeitos do El Niño é dramático na Índia, como sabe. Não tem a ver com novembro ou dezembro; tem impacto dramático na agricultura e na fome. E vai haver fome. Sempre ouvi uma frase que agora repito muito: “Quando uma pessoa tem fome, só tem um problema. Só tem muitos problemas quando não tem fome”. Nós, simplesmente, temos muitos problemas. Eles só têm um.

Mas, por exemplo, no Atlântico, o El Niño provavelmente diminui significativamente a estação dos furacões, devido a uma estratificação diferente da atmosfera.

Portanto, os meteorologistas sérios não são dramatizadores nem estão aqui a fazer ativismo. Estão a tentar fazer as melhores previsões possíveis. Qual é a implicação para a Península Ibérica? Não está completamente estabelecido que haja uma relação direta. Tem mais a ver com os efeitos do Atlântico do que provavelmente com o El Niño, até agora.

Estamos a ter um El Niño de amplitude desconhecida até agora. Não quer dizer que esses efeitos não apareçam. Percebo que haja pessoas com a ideia de que isso pode acontecer, e há modelos que podem apontar nesse sentido. Mas devemos ser sempre prudentes com as previsões que fazemos, porque devemos estar cá para dar a cara quando elas falharem.

Um fogo pode começar por mão criminosa, negligência ou acidente. O desastre, esse, começa quando encontra calor, vento, mato seco e território abandonado. Foto: Paulo Novais/Lusa

Portugal está a tornar-se um país mais quente, mais árido e mais exposto a fenómenos extremos. Ainda estamos a tempo de nos adaptar de forma séria ou continuamos a tratar isto como uma sucessão de emergências meteorológicas?

Primeiro, deixe-me corrigir: mais seco, não necessariamente; mais árido, sim. Temos evidentemente mais períodos de seca, mas também podemos ter mais períodos de precipitação, como aconteceu este ano e há dois anos, nos últimos dois ou três anos.

Todos os países da bacia do Mediterrâneo têm esse efeito, mas também têm uma grande variabilidade, conhecida há muito tempo. Há alturas em que a variabilidade se sobrepõe à tendência. A tendência é aumentar e haver fenómenos extremos.

E estamos a aprender com esses riscos?

Estamos a atacar os problemas? Infelizmente, tenho de dizer que não. Aliás, estes riscos — e estamos a falar da meteorologia e, em particular, dos riscos ligados aos incêndios — são riscos que aparentemente não ensinam nada.

Veja um grande sismo, na Turquia, por exemplo. Foi uma coisa que acho que ninguém aqui imagina sequer o que é. Com toda a franqueza, ninguém consegue imaginar do que estamos a falar. Há dezenas de cadáveres debaixo dos escombros. A minha expectativa é que, quando acabar este problema, a rede sismológica seja reposta no seu sítio, que os códigos de construção sejam olhados de novo e, fundamentalmente, que a fiscalização da construção dos edifícios seja mais estrita. Penso que é a expectativa de quase toda a gente.

Quando temos uma inundação como tivemos no Mondego, por exemplo, no ano passado, a nossa expectativa é que a APA [Agência Portuguesa do Ambiente] — e penso que está a trabalhar nesse sentido — faça uma intervenção nos diques e atribua a uma empresa com capacidade para isso a gestão futura do Mondego, como tem de ser feito.

No caso dos fogos, nunca conseguimos progredir. O fogo acaba e estamos exatamente na mesma situação: as mesmas aldeias no meio da floresta, as mesmas pessoas perdidas, sem capacidade de responder ao fenómeno, a mesma zona desestruturada e a mesma área florestal e de matos com o mínimo de gestão.

Nós não estamos a progredir. Fizemos algumas melhorias no sistema de ataque, algumas melhorias na compreensão do problema, muitas melhorias do lado das ignições. Mas, do lado estrutural — isto é, porque é que arde —, não estamos realmente a fazer nada.

Para terminar: se tivesse um minuto para responder a alguém sinceramente convencido de que esta onda de calor recente foi fabricada por geoengenharia, o que lhe diria?

Eu responderia que esta onda de calor foi, aliás, não uma onda, mas uma sequência de ondas de calor muito impactantes sobre o território nacional. Mas tenham em atenção que ainda estamos em julho. Agosto é tipicamente o mês mais quente em Portugal.

Temos condições para ter uma situação muito mais gravosa do que esta. A área abrangida, por exemplo, pelos incêndios não foi sequer a área mais crítica; foi uma área mais a norte. Temos condições para ter uma ação muito mais grave.

O que temos de ter em atenção — e daí a minha prudência em fazer alarmes — é que temos todas as condições no terreno para ter situações de maior complexidade. Se neste momento levámos quase os nossos meios ao limite, e fizemos muito bem em chamar os meios europeus, eu diria: preparemo-nos. Façamos tudo o que for possível para que isto não se complique, mesmo conhecendo o paradoxo do fogo.

O paradoxo do fogo é que, quanto melhor nos defendemos do fogo, piores serão os anos daqui para a frente.

E nada disto tem que ver com geoengenharia.

Nada disto tem que ver com geoengenharia. Isto tem a ver com o aquecimento e com o abandono de uma parte importante do território.

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